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Lembranças de um esquecido

Lembrancas-de-um-esquecido

 Extremamente simpático e extrovertido, o veterano da Guerra das Malvinas e presidente do acampamento T.O.A.S. (Teatro de Operaciones del Atlántico Sur), Túlio Fraboschi, não aparenta a idade que tem, nem carrega em seu rosto o trauma de uma guerra.

Camila Alvarenga

IMG_1187-300x225Entre risos e piadas, deixou e incentivou a tomada de fotos para expor a causa de seu movimento. Localizado na Plaza de Mayo, a mobilização começou porque os homens que atuaram como soldados no continente durante a guerra não são reconhecidos como ex- combatentes, pois é considerado que nessa região não houve conflito – o que não é verdade. Depois de acomodados em cadeiras velhas e bancos de plástico, ele começou, sem que nem fosse preciso pedir, a contar a história de sua vida.

Nascido em 1964, na Argentina, Túlio entrou para o Exército por meio do serviço militar obrigatório em 1982, um ano depois de se formar no colégio. Foi incorporado à Companhia de Engenheiros de Depósitos 601 Villa Martelli que, por ser uma unidade de construção de pontes militares e não de infantaria, estava mais relacionado à logística da guerra do que ao combate.

Foi para o extremo sul do país quando a frota britânica chegou. “O que se pensava era que os britânicos não viriam”, informou Tulio, “Então 50 de nós, éramos 150, foram para o sul. Eu era um desses 50.”. Assustado, porém com o ânimo e nacionalismo de um jovem de 18 anos, que o próprio Tulio classificou – de forma bem-humorada – como irresponsável; foi com sua unidade para a cidade de Comodoro Rivadavia, na província de Chubut. Lá, foram comandados a vigiar e defender o litoral. Entre as rondas, trabalhavam no aeroporto com aviões Hércules 630, que carregariam armas e explosivos para as Malvinas.

Apesar de não entrarem em combate direto, por conta dos armamentos o local e seus soldados viviam sob o constante temor de um ataque. Tulio Guerra-Malvinas_TINIMA20120203_0146_3-300x169contou, bastante sério, que, uma noite, sua base foi invadida, “Quando eu cheguei o tiroteio já havia acabado. Um britânico morreu naquela noite.”. Sem sentir vergonha, admitiu que, nessa hora, o nacionalismo, a coragem, tudo vai embora, “Quando você está lá na frente e meio sozinho a situação é diferente, você se lembra da sua família e dos seus queridos”.

Passada a guerra, sua experiência e a falta de reconhecimento por seus serviços, fizeram com que Tulio criasse uma aversão por conflitos, “A solução não é matar gente. Armas foram criadas para evitar conflitos e não os gerar”. Segue uma ideologia pacifista. Não abre mão da luta, porém de uma luta por meio de palavras.

Contou tudo com um ar muito leve, parecia falar de um tempo distante cujas feridas já se haviam fechado. Mas era só aparência, pois confessou: “A consequência da guerra é um dano que fica pra sempre, uma ferida que nunca se fecha, você não se esquece nunca mais do medo.”. Mas logo em seguida já se levantou e, como se nunca tivesse tocado num assunto tão pesado, abriu um sorriso sincero e perguntou se não queríamos mais fotos.

 

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