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500 Dias Em 1

500 dias em 1

Um fenômeno estranho acontece com o tempo enquanto estamos no programa. Ele passa mais devagar, ou se acelera, entra em um contínuo espaço-tempo, não é fácil de descrever, é preciso estar aqui para sentir. Só se passaram dois dias desde que chegamos em Buenos Aires, mas parecem muitos mais, anos, dias infinitos, por conta da quantidade de experiências que já vivenciamos.

O dia de ontem (pois já passa da meia-noite) já começou acelerado, com um bate-papo com o correspondente da GloboNews, Ariel Palacios, que nos contou sobre sua trajetória, sobre as coberturas que já fez, as dificuldades que enfrentou (e superou) e nos deu dicas inestimáveis para que possamos cumprir nosso objetivo de nos tornarmos correspondentes em 10 dias de vivência intensa.

 

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Por exemplo, aprendemos que mesmo nos momentos de “descanso”, precisamos ficar constantemente antenados nos noticiários e sites de notícias, nas mídias e na cultura local, pois eles geram mil pautas e ser correspondente é um trabalho 24h. E como você está sozinho, sem um pauteiro que irá fazer a pesquisa inicial por você, é preciso pesquisar muito, e se preparar para certos eventos com semanas ou até meses de antecedência, mesmo que seja algo não confirmado. Se acabar não rolando, ok, mas pelo menos você não vai ser pego desprevenido.

Outra dica é para tomarmos cuidado com as informações que buscamos em redes sociais. Histórias falsas viralizam todos os dias, pois elas se baseiam no diz-que-diz e no ouvi falar e em coisas tiradas de contexto. Um bom jornalista deve sempre checar qualquer informação e ainda mais as que vêm de redes sociais.

Mas a lição mais importante foi quanto ao olhar do correspondente. Não podemos usar noções de nossos países de origem – no nosso caso, o Brasil – para explicar o que acontece na Argentina, são realidades, políticas e contextos diferentes. Então nada a ver dizer que o Peronismo ou o Kichernerismo são de direita ou de esquerda, pois isso não existe aqui. O correspondente precisa entender a realidade do país e passar o que de fato acontece para seus leitores.

 

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Teve muito mais. A cobertura completa da conversa, você encontra lá no nosso Twitter.

É claro, não aprendemos apenas com o que nos é falado, mas analisando a forma como agimos e trocando dicas entre nós. A mediação do debate ficou por conta do participante André Branco e todos puderam também fazer suas perguntas. O tempo passou voando, logo Ariel estava saindo correndo para pegar um taxi e comparecer a um compromisso. Mas a manhã ainda não havia acabado para nós: depois, todos conversamos sobre formas de condução de entrevista e conseguir a informação que você realmente deseja de uma fonte evasiva: retomando pontos, insistindo em um assunto de formas diferentes e fazendo perguntas objetivas, sem deixar o entrevistado dominar a conversa.

Ariel também nos deu uma super dica de pauta antes de sair, mas disso eu conto mais para a frente.

Depois da reunião, visita à Casa Rosada! E com uma surpresa: A Carolina Piscina (Participante do III Jor sem Fronteiras e II Jor e Poder), está em Buenos Aires trabalhando em seu TCC e veio se encontrar conosco para ir até a sede do governo argentino.

Para chegar até lá, fomos andando. Vivendo a cidade. Caminhar pela rua Florida e pelo centro de Buenos Aires sozinhos foi uma verdadeira aventura, cheia de personagens interessantes: em uma esquina, um artista de rua vindo do Brasil apresentava uma canção de Natiruts, nos degraus de uma catedral, uma moça de rua tomava conta de um bebê.

 

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Ao chegarmos no nosso destino, o primeiro susto do dia. Cadê nossa reserva? Não havia registro dos nomes do nosso grupo na lista. E é um conversa daqui, chama coordenadora de lá, procuramos pela internet do celular o e-mail enviado para o requerimento do passeio… E nada. Não queriam nos deixar entrar. E nós parados na chuva, depois de andarmos mais de meia hora para chegar até lá, não ia ficar assim. Então conversamos mais um pouco, mostramos o e-mail novamente, não íamos desistir, afinal, o erro foi deles e… Conseguimos! Estávamos liberados! Moral da história: boa lábia, bons argumentos e um pouquiiinho de insistência também são essenciais ao jornalista.

É claro que depois de tudo isso, perdemos o primeiro horário do tour, mas tudo bem. Paramos para uma merecida pausa para almoço e entramos finalmente na Casa Rosada às 15h.

Nossa guia era argentina, mas falava português. E o que ela não falava, a gente ia entendendo mesmo assim, afinal um mero acaso, por mais que seja bem-vindo, não tira a importância de saber a língua local. Sabiam que a Casa Rosada tem essa cor porque no começo eles misturavam a cal com sangue de boi para fazer a pintura durar mais? O branco com o vermelho dava a cor rosa. Agora, a tinta é a comprada em loja, mas não vai nunca mudar de cor, pois faz parte da identidade argentina. Você não pintaria a Casa Branca de azul, né? Pois então…

 

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É uma sensação estranha andar por uma casa de governo e pensar que, durante a semana, aquele lugar é usado realmente para o trabalho dos líderes de um país. Vendo assim, parece mais um cenário. E que cenário! Os afrescos e vitrais, os espelhos com bordas de ouro, as mesas de madeira esculpida, o pátio das Palmeiras, as escadarias de mármore… No escritório do presidente, uma grande cadeira com couro azul estava atrás da escrivaninha meticulosamente arrumada – nenhum papelzinho solto pode sobrar para os dias da visita, com o risco de gerar um problema de Estado. A cadeira parecia desconfortável, ficamos com certa pena dos presidentes.

Mas há pequenos detalhes destoantes da opulência de séculos passados que mostram que, sim, aquele é realmente um lugar do tempo presente, usado por pessoas iguais a nós – uma impressora gigante em um canto do corredor, uma escrivaninha com um computador em cima, sistemas de segurança ultra-modernos.

Ariel Palacios (Calma, ainda não é a dica que prometi mais cedo) nos disse de manhã que os jornalistas locais não precisam se preocupar em explicar detalhes dos acontecimentos, porque supõe que o povo do país já os conhecem, mas os correspondentes precisam sempre explicar o contexto das situações, o background, para que as pessoas de seu país de origem possam entender o que de fato está acontecendo e a significação disso. Saímos da visita entendendo um pouco mais sobre esse contexto da realidade argentina, com uma bagagem cultural importante para um correspondente atuando em nosso país vizinho.

 

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Fim da visita, mas o dia ainda estava longe de acabar. O grupo se dividiu. Uma parte foi cobrir um evento do grupo feminista argentino Ni Uma Menos, que estava promovendo uma reunião de grupos e personalidades feministas a fim de discutir o andamento da luta pelos direitos das mulheres na Argentina. Nossa participante Ketlyn Araujo escreveu sobre o evento em seu blog:

“A conversa foi mediada por Nor Zarate, representante da Marcha de Las Putas Buenos Aires, movimento que pede pela conscientização da sociedade frente os abusos sexuais sofridos por mulheres. Nor, bebendo cerveja no gargalo da garrafa, tornava o clima descontraído. Entre um gole e outro, estava tão à vontade que nem parecia que falaríamos sobre um tema tão sério.

Mesmo com duas desistências justificadas pela chuva forte, lá estava Marta Dillon, jornalista e uma das fundadoras do movimento#NiUnAMenos, que luta pelo fim dos feminicídios na Argentina. Feminicídio, ou mortes de mulheres, é um dos crimes mais frequentes por aqui – a cada 30 horas uma mulher morre por questões de gênero. 

A marcha Ni Una Menos começou há um ano, mas desde então ganhou força e autonomia. Hoje, Marta e suas companheiras pretendem rever as reivindicações do ano passado e inserir novas pautas, já que enxergam o momento como uma oportunidade de garantia por mais direitos femininos. Mais do que o fim do feminicídio, elas querem a certeza da vida de todas as mulheres – o chamado #VivasNosQueremos.”

Chegando lá, uma surpresa (e uma pequena tietagem): Nina Brugo, uma das fundadoras do movimento feminista no país, perseguida e exilada política nos anos 70 e que há 30 anos participa ativamente de todos os Encontros Nacional de Mulheres, estava presente no debate, e concedeu uma entrevista para nossas participantes.

A outra parte do grupo seguiu a dica (agora sim) que Ariel havia nos passado de manhã de que ontem haveria um evento em frente ao obelisco da Praça da República – um “banderazo” que fãs do ídolo do futebol Lionel Messi estavam organizando para mostrar seu apoio ao craque e pedir que ele repense sua decisão e volte a representar a seleção nacional.

A hashtag #NoTeVayasLio já havia dominado as redes sociais desde domingo, quando Messi anunciou depois da derrota contra o Chile na final da Copa América Centenário que não jogaria mais pela Argentina, se aposentando mais cedo da seleção. Já é a segunda vez depois de uma grande derrota que o craque faz essa ameaça, mas é a primeira vez que gera uma comoção nacional tão grande.

Mais de 7 milhões de Tweets foram postados sobre o assunto em 24h, milhares de vídeos contando histórias e pedindo que Messi fique na seleção viralizaram nas redes sociais. E tudo isso culminou na noite de ontem, em frente ao obelisco.

 

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A chuva forte e o frio não desmotivaram nossos participantes, e nem os fãs mais leais de Messi – não foram as mais de 70 mil pessoas que haviam confirmado presença no evento do facebook, mas ainda assim centenas de fãs se reuniram em frente ao obelisco para cantar, dançar, pular, gritar, se emocionar e tentar convencer o ídolo a continuar na seleção.

A energia no local era alucinante, o som dos tambores e dos gritos dos torcedores podiam ser escutados a mais de uma quadra de distância. Toda a energia tranquila da cidade que havíamos percebido em nosso primeiro passeio a pé até a Casa Rosada estava completamente transformada: uma Buenos Aires vibrante, colorida, barulhenta e apaixonada que nos fazia acelerar a cada passo, ansiosos por chegar logo, sofrendo por ainda não estar lá.

No meio da multidão, não dava nem para sentir frio enquanto nos esgueirávamos entre os manifestantes buscando as melhores fotos, as melhores entrevistas, o melhor ângulo para gravar o melhor vídeo. As grandes equipes de reportagem ficavam pelas laterais com suas grandes câmeras e equipamentos, mas nós, com nossos equipamentos móveis, pudemos estar no centro de tudo. Fomos repórteres e equipe de apoio ao mesmo tempo: enquanto um fala, outro faz a gravação com o celular, outro segura o guarda-chuva, outro registra os bastidores, outro faz entrevistas. Confira abaixo o vídeo gravado ao vivo por nossa participante Eunice Ramos:

E no final, a grande emoção! A reportagem da nossa participante Eunice Ramos, que é repórter da sucursal da Globo em Mato Grosso, foi ao ar na GloboNews! Com as imagens feitas pela também participante e câmera-extraordinária, Jacqueline Moraes! Sucesso! Diz aí: Mandamos muito ou mandamos muito?

E não foi só isso, a participante Sara Abdo fez uma galeria de fotos sensacional sobre o evento. Aqui embaixo colocamos uma favorita, o resto você pode conferir no blog dela! E o André Branco e o Luiz Teixeira, que já haviam dito no primeiro dia que queriam realizar uma reportagem sobre a visão que os argentinos têm do Messi, terminaram sua primeira pauta em um tempo recorde para o programa, com as entrevistas conseguidas com os participantes do bandeiraço.

 

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Foto por: Sara Abdo

 

Uma frustração da noite: o wifi disponibilizado pelo governo de Buenos Aires na praça da República não era forte o suficiente para fazer funcionar o Periscope. Nossa ideia de transmitir ao vivo não deu certo. Saímos correndo atrás de um café com wifi para enviar os vídeos e fazer a cobertura inicial pelas redes sociais (e tomar alguma coisa, que nós merecemos).

Encharcados, congelando, mas muito felizes com a profissão que escolhemos, voltamos ao hotel, porque já estava bom de emoção para um dia só. Seguimos viajando.

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