Estando em Brasília, é quase impossível não estabelecer comparações com a outra capital em que estivemos no meio desse ano, Buenos Aires. Na capital portenha, a história transpirava em cada esquina, exposta e abertamente reconhecida tanto pela população quanto por aqueles responsáveis em apresentar seus pontos turísticos, como a Casa Rosada, o centro do poder da cidade.

Já a capital brasileira se apresenta muito mais como uma imagem de cidade do que um lugar real, cheio de histórias e conflitos. É um ambiente estéril, limpo e polido até brilhar na superfície, enquanto a sujeira e a verdade ficam escondidas embaixo do tapete, um lugar falso e irreal, apresentado sob o verniz de uma cidade ideal, planejada, bonita e organizada. Ou pelo menos é essa a impressão que se tem ao andar pelo Palácio do Planalto.

A sede do governo brasileiro era nosso destino quando saímos do hotel cedo no domingo, mas nossos planos logo mudaram. Ao entrarmos no táxi, o motorista já avisou que teria que não poderia nos deixar na porta por causa da cerimônia. Que cerimônia? “Da troca da bandeira, tem todo o mês”, nos conta.

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Ao chegarmos na praça em frente ao Palácio, o local estava completamente tomado por oficiais fardados com o branco da marinha, e mais gente chegava a cada instante, trazendo familiares e crianças. A banda já estava enfileirada em seus lugares, esperando o início da cerimônia, oficiais e crianças de escolas públicas e associações convidadas se encontravam em palanques de frente para o local da cerimônia, turistas, fãs e curiosos se aglomeravam em volta.

Era uma cerimônia muito bonita, muito bem ensaiada. A cada mês, um dos braços das forças armadas brasileiras – marinha, exército, aeronáutica e o Governo do Distrito Federal – são responsáveis por conduzir o espetáculo, que tem o objetivo de resgatar a tradição do culto à Bandeira e estimular o sentimento de patriotismo, mas era apenas isso, um espetáculo bonito, sem nenhum sentimento real. As crianças e instituições presentes, que lotavam os palanques, são convocadas a comparecer. E até mesmo os oficiais estavam meio destacados da cerimônia. Ao conversar com alguns membros do corpo de bombeiros, vários disseram que só haviam se juntado ao grupo pois era o concurso público que estava pagando mais no momento. Como disse a Thais em seu blog do programa:

A cerimônia parecia acontecer em outro país: um Brasil carregado de símbolos, mas que efetivamente não consegue unir os três poderes, tampouco seu povo.

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Após o fim da celebração, nos encaminhamos para o Palácio do Planalto, onde a sensação de irrealidade construída continuou. A visita durou meia hora, muito diferente das quase duas que passamos na casa rosada, e não passou de uma apresentação fria “Isso fica aqui e isso fica aqui”. A história? Apenas das obras de arte que adornavam o local, de novo. Comentar acontecimentos passados ou recentes, nem pensar. Em um lugar que há apenas duas semanas estava fechado (e onde outros prédios governamentais ainda estão) ao público por medo de insatisfação e problemas, fingia-se que nada estava acontecendo. Uma tentativa deliberada e metódica de esquecer a história, de enterrá-la embaixo de distrações e coisas bonitas.

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Mas há um lado da história que não pode ser enterrado ou calado: as pessoas. Suas histórias, sensações e percepções. A praça do palácio estava cheia delas durante a cerimônia da bandeira, e foi atrás dessa realidade que nossos participantes foram.

O crachá do programa garantiu a entrada na área exclusiva da imprensa e além, dentro da área onde estava sendo realizada a cerimônia. É claro, com a devida permissão da comissão organizadora da marinha. Falaram com os marinheiros, com os membros representantes das outras forças que estavam presentes, falaram com familiares e com espectadores, e recolheram suas histórias:

Dos bombeiros que se mantém no trabalho por salário e não por paixão, das mulheres da marinha que contaram que na verdade são maioria em seu ramo das forças armadas, ou da dona Marilza, que, como conta a Luiza Callado  “é espectadora fiel das Substituições da Bandeira Nacional e assiste a cerimônia desde 1988, quando se mudou para Brasília; no entanto, ela conta, com orgulho “recebei o título de Amiga da Marinha”, e é convidada especial das solenidades da força”.

Não há força ou celebração bonita que consegue apagar a história, porque as pessoas a carregam consigo. São essas histórias que viemos procurar em Brasília e que estamos descobrindo dia a dia.

Amanhã voltamos com mais histórias.

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