Um cachorro perdido em Setúbal, um restaurante taiwanês em Espinheiro, um barbeiro de 91 anos de Jardim São Paulo. Estes são alguns dos assuntos hiperlocais, de interesse específico a bairros da região metropolitana de Recife, que o PorAqui, com um ano de idade, reúne para milhares de leitores ao redor da capital pernambucana.

Usuários podem pesquisar notícias por ‘estação’ no app do PorAqui. (Cortesia ao Centro Knight)

Presente em 20 localidades recifenses, a plataforma agora quer expandir sua rede de conteúdo local para  mil bairros e regiões das 150 maiores cidades do país.

A rede de conteúdo hiperlocal quer atuar como fonte confiável de informações de interesse restrito a moradores, como histórias sobre novos negócios e restaurantes, personagens interessantes da comunidade e programas de lazer do bairro. Matérias do tipo geralmente não chegam aos grandes veículos e ficam limitadas à circulação nas redes sociais.

A visão do PorAqui foca no ‘micro’, para pensar no que mais causa impacto no cotidiano de seus usuários. “As histórias buscam empoderar as pessoas e as comunidades locais”, explicou ao Centro Knight Raíssa Ebrahim, coordenadora de conteúdo da plataforma.

Para Ebrahim, o conteúdo hiperlocal que a plataforma oferece preenche uma demanda crescente tanto de leitores quanto de produtores de conteúdo.

“De um lado, as redações estão cada vez mais enxutas, tendo que cobrir um universo cada vez maior de informações”,  disse ela ao Centro Knight. “De outro lado, o consumidor de notícias consegue facilmente ficar informado do que está acontecendo em outras partes do mundo, mas não conhece o seu vizinho. Além disso, com as cidades cada vez mais inchadas e com problemas de segurança, as pessoas tendem a viver mais em seu bairro”.

PorAqui é dividido em 10 ‘estações’, que se dirigem a um público de em média 5 mil leitores assíduos mensais de cada comunidade, de acordo com os jornalistas da plataforma. A produção de matérias é feita por nove jornalistas fixos, chamados de conteudistas, que também coordenam a curadoria de uma rede de colaboradores locais, remunerados por história. Os leitores também contribuem com textos, fotos, sugestão de pautas, denúncias. Todo o conteúdo publicado passa por checagem e edição por uma equipe de dois editores, que contam com a ajuda de dois conteudistas.

A equipe do PorAqui (Cortesia ao Centro Knight)

O conteúdo está disponível em um aplicativo para Android e iOS e em um site. Na ferramenta móvel, o uso de geolocalização permite que o usuário personalize as ‘estações’ para atender às suas demandas de informação específicas. O leitor pode receber notificações referentes a notícias de um conjunto de ruas ou uma parte de um bairro. Ele também pode seguir várias estações diferentes, referentes à sua casa, trabalho ou escola, por exemplo. No último mês, o PorAqui alcançou 110 mil usuários, com 205 mil visualizações de página, de acordo com a equipe. O aplicativo soma 6,8 mil downloads nos dois sistemas operacionais.

A plataforma começou há cerca de um ano, como parte da produção acadêmica do mestrado de Misael Neto, hoje desenvolvedor-chefe do site. Seu orientador, Silvio Meira, professor da Universidade Federal de Pernambuco, entrou como investidor com a Ikewai, rede de empreendedores do Porto Digital, zona de inovação do Recife Antigo. A operação é da Xarx, startup cujo nome brinca com os tubarões que rodeiam a costa da cidade.

Grupo JCPM, proprietário do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, tradicional empresa de mídia do Nordeste, logo comprou a ideia e batizou a iniciativa.

Hoje, o PorAqui tem uma meta ambiciosa: ampliar a rede de conteúdo hiperlocal para 1 mil bairros e regiões das 150 maiores cidades brasileiras. A expansão está chegando a cidades vizinhas e, segundo Neto, até o fim do ano, deve marcar presença em outros estados da região.

“Começamos com esse piloto no quintal de casa, no Recife, para entender essa expansão. Acreditamos que nosso modelo de gestão, de produção por conteúdo, pode ser escalonado e em até três anos podemos atingir essa meta. Precisamos de muita gente para colaborar e produzir bastante conteúdo”, contou Misael Neto ao Centro Knight.

PorAqui oferece jornalismo hiperlocal, como esta matéria sobre um possível deslizamento. (Cortesia)

As reportagens também têm o apoio da equipe de tecnologia, que trabalha de perto com o jornalismo. “[A equipe de jornalismo e de tecnologia interagem] para a evolução do produto. Se temos a necessidade de contar uma história com outras funcionalidades, como mapas, links externos, tudo isso tem a ver com a plataforma e de que forma que podemos interagir com o usuário”, disse ao Centro Knight Klaus Hachenburg, diretor comercial.

Para a produção de histórias relevantes para as comunidades locais, todos os jornalistas colaboradores do PorAqui são pessoas que moram nas proximidades e entendem a realidade da região que cobrem em suas matérias. “Temos um olhar fixo, dos nossos jornalistas fixos que moram no local, mas também temos um olhar mais plural, mais diversificado, dos diversos colaboradores que contribuem com a gente. Eles conhecem as histórias mais bacanas e ficam sabendo das novidades”, afirmou Ebrahim.

O PorAqui também pretende servir como ponto de apoio para a criação de novas iniciativas de comunicação comunitária e para a produção local de jornalistas recém-formados. A equipe chegou a firmar uma parceria para a viabilização de um jornal hiperlocal independente.

“Uma jornalista e um publicitário estavam criando um projeto de jornal do bairro e chegaram até nós. Hoje estão dentro do PorAqui, não precisaram, por exemplo, arcar com grandes custos de criação de uma plataforma do zero. Acreditamos que esse modelo de parceria pode render bons frutos e também escalar o PorAqui. É uma ótima oportunidade empreendedora para os jovens”, afirmou Ebrahim.

 

Fonte: Centro Knight de Jornalismo nas Américas

Por: Alessandra Monnerat

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