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Jornalistas Sem Fronteiras

Jornalistas sem fronteiras

ISABELA MORENO, DE MADRI

A semana começou agitada para o Jornalismo Sem Fronteiras. Logo pela manhã, fomos à sede da Federación de Asociaciones de la Prensa Española (FAPE) para conversar com jornalistas experientes em coberturas fora de seus países de origem: Vicente Botín, Paco Audije, Enrique Peris e Francisco Figueroa.

Ser um enviado especial ou correspondente internacional não significa viver em constantes ônibus de turismo ou em passeios pelos centros históricos das cidades. Muito pelo contrário, o exercício de apropriar-se da cidade envolve conhecer além de suas ruas: seus moradores, suas falhas, suas surpresas. Tudo isso sem perder o olhar crítico e curioso que todo jornalista deve ter.

Vicente Botín viveu cinco anos em Cuba como correspondente. Sofreu com a constante vigia que o governo colocava em cima dos jornalistas estrangeiros – algo entre 30 e 35 membros da inteligência do país eram destinados para cada jornalista – e precisou aprender a contar a realidade de Cuba nas entrelinhas de seus textos para poder escapar das censuras e represálias que poderia sofrer. “Muitas vezes o jornalista tem que se utilizar da língua, com metáforas, e praticar a auto censura, o que é muito difícil”, comentou no encontro.

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A conversa levantou um importante questionamento sobre até que ponto a utilização de informações fornecidas pelos meios oficiais são confiáveis para serem utilizadas. Em Cuba, Botín tinha dificuldades em conseguir declarações por que suas fontes tinham medo de falar sobre o que realmente pensavam do próprio governo, enquanto Enrique Peris, durante a cobertura da Guerra das Malvinas, transmitia informações oficiais do governo argentino que se diferenciavam daquelas que Margaret Tatcher permitia serem divulgadas na BBC do Reino Unido. “A polícia e os governos democráticos podem mentir tanto quanto um governo ditatorial”, comentou. A saída, para Paco Audije é apenas uma: “Desconfiar de todas as suas fontes. Desconfiar de tudo. […] Em países democráticos, atualmente, a possibilidade de intoxicação [da informação] é enorme”.

Quando indagados sobre as qualidades e características que um bom correspondente deve ter, destacaram a necessidade de se manter curioso e nunca deixar de se interessar por aquilo que nos rodeia, sempre buscando coisas novas e nos permitindo sentir emoção diante das pequenas diferenças que as culturas estrangeiras possam ter da nossa própria.

Mas como nós, meros estudantes, podemos alcançar esse nirvana de preparo profissional? Estudamos, trabalhamos, corremos de um lado para o outro e nos equilibramos para conseguir cumprir com todos os compromissos. Em alguns momentos, sentimos frustração pelos dias terem apenas 24 horas. Como aprenderemos a ler as entrelinhas, escrever com metáforas e nos mantermos curiosos? Vicente Botín apareceu com uma resposta diferente da “se vira nos 30″ que costumamos receber: “[o jornalismo] É um ofício, vai aprendendo. Assim como o humor, a ironia e o distanciamento”.

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