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Fim Das Milongas (clubes De Tango) Prejudica Argentinos

Fim das milongas (clubes de tango) prejudica argentinos

Burocracia do governo e mudanças na legislação de segurança levou ao fechamento de clubes de tango importantes da capital.

Região está prestes a receber Campeonato Mundial de Tango

Apesar do frio do início do mês, centenas de pessoas tomaram as ruas de Buenos Aires para reclamar, com o prefeito Mauricio Macri, contra os fechamentos das milongas, espécies de clubes noturnos de tango.

JULIANA AMÉRICO
DE BUENOS AIRES

Graças às mudanças na legislação e ineficiência burocrática do governo, frequentadores de milongas tradicionais deram de cara com portas fechadas há semanas e até meses. O Sunderland Club, no bairro Villa Urquiza, por exemplo, foi fundado em 1919 e possui a milonga mais famosa da cidade, porém, está fechado desde o dia 28 de junho, pouco tempo depois de acontecer a Semana das Milongas na cidade.

Segundo o organizador do local, Jorge Rodríguez, os inspetores chegaram às 2 da manhã e exigiram a montagem do sistema de mangueiras de incêndio, que faz parte das novas normas de segurança para casas noturnas. “O fechamento afetou todas as atividades do clube”, afirma, já que lá também se pratica futebol, basquete, patinação e taekwondo – atividades feitas por alunos de escolas próximas.

O Sunderland faz parte de uma lista de quase dez casas que foram fechadas só nas últimas semanas, como a Club Atlético Fernández Fierro de Almagro, onde dançam os mais jovens e futuros “milongueiros”; o Parakultural, no salão Canning, que é responsável por diversos campeonatos de dança; e a Sin Rumbo, também conhecida como a “Catedral do Tango”, que foi fechada no final de maio pela primeira vez depois de 96 anos de existência. Outras centenas já fecharam por causa da falta de documentação.

Em nota, a Agência Governamental de Controle e a Direção Geral de Fiscalização e Controle afirmam que em um universo de 450 mil estabelecimentos na cidade, desde clubes até bares, as milongas regularizadas não chegam a 80 unidades.

Milongas

Milongas estão com dificuldades de se manter legalizadas. Foto por Juliana Américo.

Toda essa polêmica começou quando o governo passou a exigir que os clubes de tango tivessem instalações fixas contra incêndios, como mangueiras de água, além dos extintores já obrigatórios. Para agravar a situação, o presidente da Associação de Organizadores de Milongas, Júlio Bazán, afirma que o excesso de burocracia da prefeitura faz com que a renovação das licenças de funcionamento demore em torno de seis meses para serem aprovadas, sendo que elas devem ser renovadas todos os anos.

Além disso, não existe um controle dos milongueiros em relação às inspeções. “Para fazer uma inspeção em um restaurante, a prefeitura manda um formulário dois meses antes, com um questionário de 24 perguntas que os donos devem responder para agilizar o controle. Isso não acontece com as milongas cujas visitas são feitas de surpresa e no meio da madrugada”, alega Bazán.

Os donos dos clubes reclamam dos altos custos que a mudança na estrutura para se adequar às normas irá causar, além de exigir maior agilidade da prefeitura em relação à papelada e agendamento das inspeções.

 

Mais do que dança

Muitos podem pensar que o tango é apenas uma forma de dança. Mas ele é muito mais do que isso. Importante para a cultura e economia argentina, o tango foi declarado Patrimônio Cultural pela Comissão de Cultura no congresso em 1996 e Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 2009.

A deputada nacional María del Carmen Bianchi, do Frente para a Vitória, questiona as atitudes da prefeitura alegando que estes são espaços históricos que preservam os valores culturais locais. “As milongas, além de representarem a identidade cultural, são também fontes de emprego e crescimento do turismo. A prefeitura deve prestar apoio através dos vários níveis de suporte disponíveis para fazer garantir a proteção dos milongas como espaços de cultura viva, não o fechamento como um primeiro passo”, afirmou durante sua defesa na câmara dos deputados.

Fim das Milongas

Argentinos fogem dos shows de tango para dançar em milongas. Foto por Juliana Américo.

 

No quesito econômico, o fechamento indiscriminado das milongas é algo que preocupa muito os donos dos locais, já que julho e agosto são meses de alta temporada turística na região e época da realização do Campeonato Mundial de Tango e do Festival de Buenos Aires. Sem falar que o setor emprega milhares de pessoas que ocupam cargos de professores de dança, recepcionistas e garçons nos clubes.

As milongas oferecem muito mais que as principais casas de show de tango da capital argentina, como o Café Tortoni ou a Esquina Carlos Gardel. Ao invés de ter apenas apresentações, elas são frequentadas, principalmente, por argentinos amantes do tango que vão dançar até de madrugada. Caso de Alberto Garcia, um senhor de 75 anos que, desde criança, vai todas as semanas dançar tango em alguma milonga.

Legalização do clube de tango

Alberto Garcia, de 75 anos, frequenta clubes de tango desde criança. Foto de Juliana Américo.

 

A brasileira Nida Chalengre também foi uma das que foram conquistadas pela dança. “Há seis anos eu vim para Buenos Aires fazer um curso de tango e conheci o meu atual marido em uma milonga, em seis meses já estava me mudando para a Argentina”, conta a arquiteta.

Julia Doynel, organizadora da milonga Sueño Porteño, revela que existe um código de conduta para se seguir dentro dos locais, que vem desde os primórdios dos clubes de tango. “O rapaz, antes de tirar uma moça para dançar, deve acenar com a cabeça e se ele for correspondido pode ir até a mesa dela para levá-la para a pista. Além disso, o casal dança um bloco de quatro músicas e, quando tem o intervalo, deve trocar de par, sendo que não é bem visto continuar dançando com a mesma pessoa”, explica.

 

O caso Cromañón
A rigidez com o sistema de segurança dos estabelecimentos portenhos se intensificou após o incêndio em dezembro de 2004 na discoteca República Cromañón, que provocou a morte de 194 pessoas e deixou mais de mil feridos.

Durante as investigações descobriu-se que o local infringia numerosas medidas de segurança e que a liberação de funcionamento, além de vencida, estava sendo assinada por um agente que recebia propina.

 

JULIANA AMÉRICO é jornalista e participa do “Jornalismo sem Fronteiras”, uma iniciativa da Link Consultoria que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Buenos Aires para um mergulho de 9 dias no trabalho de correspondente internacional.

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