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Existem Feministas Negras Na Argentina?

Existem feministas negras na Argentina?

No país, a narrativa de desaparecimento da população afrodescendente parece unanimidade e sobrevive em um contexto no qual a criação da realidade ignora estas existências.

HELENA CENEVIVA

DE BUENOS AIRES

Protagonizado por movimentos feministas, a Argentina vive hoje um importante processo pela defesa ao aborto legal. É a primeira vez que um projeto de lei desse tipo passa a plenário e adquire chances reais de concretizar-se. Depois de passar pela Câmara de Deputados no dia 13 de junho sob a vigília de hordas feministas, a proposta de interrupção voluntária da gravidez agora deverá tramitar no Senado e será votada em agosto.

Os debates vêm mobilizando feministas e amplos setores da sociedade civil em um movimento aparentemente gregário e solidário. Por um lado, isso não é mentira: 59% da população apoia a iniciativa. O problema é que se consideram apenas atores brancos neste processo. As feministas negras estiveram e estão no processo de legalização do aborto, embora sigam invisibilizadas.

“Para eles [os argentinos], se não existem negros, não vão existir negras no processo do aborto. Se não existem em geral, não vão existir em parte alguma”, explica Maryoris Pacheco, arteterapeuta e fotógrafa colombiana, negra e feminista, que vive em Buenos Aires.

Embora a manifestação feminista seja histórica e de ampla repercussão na região, sua história é contada desde uma perspectiva hegemônica branca e de “esquecimento” das questões raciais. No país, é muito comum o discurso de desaparecimento da população afrodescendente (e consequente apagamento da população afroargentina), mesmo dentro dos discursos feministas.

Para Lisa Maria, ativista feminista, negra e jornalista, “as feministas argentinas, em sua maioria, vão dizer que ‘não há negros aqui porque os afroargentinos ou as pesoas negras que foram escravizadas da Argentina morreram todos na Guerra do Paraguai, nas guerras de independência, e os que não morreram na guerra foram mortos pela febre amarela’. Tristemente elas, ainda que estejam militando, são encarregadas de invisibilizar ainda mais a luta da mulher negra e, claro, do feminismo negro”.

“Não há negros na Argentina”

Diz-se que Carlos Menen, enquanto presidente nos anos 1990, afirmou que a Argentina não era um país racista, pois ali não havia negros. Este discurso, embora absurdo, não é inusual. Pelo contrário, a narrativa de desaparecimento dos negros (e a consequente impossibilidade de existência de qualquer forma de racismo) faz parte de uma crença comum muito enraizada.

É verdade que incontáveis corpos negros caíram na Guerra do Paraguai e nas subsequentes guerras de independência, assim como caíram os adoecidos pela febre amarela. Para Gladys Rosa Flores, uma das precursoras do movimento feminista negro na Argentina, negros, afrodescendentes e afroargentinos foram usados como “bala de canhão” pelo Estado no processo de criação de uma Argentina branca e europeia. “Nada disso é casual”, explica Maryoris.

Bruna Stamato, feminista negra como Gladys e a fotógrafa, descreve a Argentina como um caso bem sucedido de eugenia, mas faz uma ressalva: “aqui é como se o projeto de eugenia, de apagar todos os afrodescendentes, tivesse dado mais ou menos certo, pelo menos no discurso. Muita gente continua comprando esse discurso, assim como o de democracia racial no Brasil, e é uma mentira. Não morremos todas”.

Não à toa que a Argentina é chamada “Paris da América Latina”. Para além de um projeto de Estado que tratou por invisibilizar todos aqueles que “não eram agradáveis aos olhos”, conforme explica Bruna, a população argentina também se branqueou ao ignorar numericamente sua população afrodescendente.

Foi somente em 2010 – há menos de uma década – que, pela primeira vez, o Indec (o equivalente a um IBGE argentino) passou a considerar a questão da afrodescendência em sua medição demográfica. Até então, não havia estimativas do Estado acerca desse grupo populacional no país.

O censo, todavia, não foi aplicado em todos os lares do país. É por isso que “o resto dos argentinos e argentinas vão dizer que não existimos”, crítica Gladys.

“Sou negra e não me diga outra coisa”

A violência discursiva que nega a existência de afroargentinos e afrodescendentes também afirma uma forma de superioridade branca. Para dizer que algo está uma bagunça, é comum que argentinos refiram-se à desordem como “quilombo”, organizações de resistência negra à época da escravidão; quando uma coisa está mal feita, é “coisa de negro”; ou, depois de um dia de muito trabalho, o que se diz é que se “trabalhou como um negro”.

Bruna relata que “não é porque você é negra que não vão usar expressões racistas com você”. Para Maryoris, o pior é quando tentam se redimir e fazem comentários como “você é minha negra favorita”. No fundo, explica, “fazem isso pela comodidade de dizer ‘olhe, não estou me juntando com negras’” e, de verdade, reforçam ainda mais o racismo.

Não é incomum que vejam alguém disfarçando para pegar em seu cabelo ou que sejam paradas no meio da rua para serem fotografadas. “Eu não sou um obelisco para que fiquem tirando fotos de mim […] Às vezes, tudo o que a gente quer é não sermos vistas”, conclui Bruna.

Mulheres afroargentinas e afrodescendentes também são obrigadas a lidar com estereótipos de gênero profundamente ligados à negritude. São exotizadas e sexualizadas a todo tempo.

“Argentina también es afro”

Em 2013 a frase se consagrou como símbolo da luta pela visibilidade afroargentina e afrodescendente no país, marcada pela promulgação do Dia Nacional dos Afroargentinos e de Cultura Afro. Nas vidas de Gladys e Maryoris, foi o que as juntou, durante o tradicional Encontro Nacional de Mulheres, em 2014. A busca por companheiras afro resultou em uma performance no ano seguinte, 2015, data de celebração dos 30 anos do Encontro Nacional de Mulheres.

Hoje, a Tertúlia de Mujeres Afrolatinoamericanas, grupo que formaram na ocasião, tem três anos e é o primeiro coletivo feminista negro da Argentina. Bruna, Maryoris e Gladys sabem da importância que sua ação tem. Entre olhares cúmplices, Gladys conta que “às vezes, quando estamos em reunião, falo às companheiras ‘vocês percebem que estamos colocando a pedra fundamental do feminismo negro na Argentina?’”.

E se pudessem dizer algo ao mundo todo? Bruna é a primeira a dizer: “ei, estamos aqui!”, ao que Gladys completa: “estivemos, estamos e estaremos”.

 

HELENA CENEVIVA é graduanda em Relações Internacionais e participou do “Jornalismo sem Fronteiras” de 2017, bem como de 2018. Também foi à Brasília pelo “Jornalismo e Poder”.

 

A matéria foi originalmente publicada no portal Alma Preta. Para ler a publicação no site, clique sobre a imagem.

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