Apenas em 2016, mais de 75 milhões de pessoas visitaram o país e gastaram uma quantidade recorde de dinheiro

FERNANDA MIRANDA 

DE MADRI

Inglês, alemão, francês, italiano, japonês, chinês, árabe, norueguês… Andar pelas zonas turísticas de Madri é ter os ouvidos assaltados constantemente por uma diversidade tão grande de línguas, dialetos e sotaques, que em pouco tempo perdemos a capacidade de identificar todas, e não é pra menos: apenas no último ano a cidade recebeu 5,74 milhões de turistas, 2 milhões a mais do que o atual número de habitantes da cidade.

Seja em feiras de rua, restaurantes ou lojas, turistas na Espanha gastaram mais de 77 bilhões de euros em 2016.
Seja em feiras de rua, restaurantes ou lojas, turistas na Espanha gastaram mais de 77 bilhões de euros em 2016.

É uma situação que reflete a realidade de todo o país espanhol. A quantidade de turistas que visitam a Espanha por ano vem crescendo gradativamente desde 2012 e no ano passado bateu mais um recorde, chegando a 75,6 milhões de turistas estrangeiros, um aumento de 10,3% em relação ao ano anterior. E não apenas a quantidade de pessoas aumentou, como a quantidade de dinheiro também. Os gastos dos turistas esse ano bateu a marca dos 77 bilhões de euros, 8% a mais do que em 2015, segundo os dados liberados pelo Ministério do Turismo Espanhol no começo desse ano.

Apesar da região da Catalunha continuar como o destino principal dos turistas no país, 12 das outras 16 comunidades autônomas da Espanha também experimentaram aumentos no número de visitantes. As regiões de Andaluzia, das Ilhas Canárias, de Baleares e de Madri continuam entre as mais procuradas, mas agora até outras regiões menos exploradas estão ganhando popularidade, como é o caso das regiões de Aragon, que viu um aumento de 55% no número de turistas em comparação ao ano passado, e de La Rioja, que recebeu 86% mais turistas e foi a zona de maior crescimento nesse setor.

Esse aumento constante do número de visitantes à Espanha se dá, em parte, ao clima de insegurança que se vive em vários destinos turísticos fora e dentro da Europa, mas o Ministro da Energia, Turismo e Agenda Digital espanhol, Álvaro Nadal, disse em conferência que atribuir apenas a isso o sucesso do turismo no país não é algo justo: “Dizer que nosso crescimento se dá pelos problemas de segurança dos outros países é uma mensagem que contradiz todo o nosso esforço e o trabalho de nossos empresários do setor. Se estamos acima da média, o difícil é nos mantermos acima, e com discursos como esse não contribuímos para que o setor turístico mantenha esse nível”.

Durante os últimos anos, a Espanha vem investindo de forma pesada no setor, com vantagens fiscais e redução de impostos, além da criação de pacotes de turismo, que tinham o objetivo de fazer com que a demanda não se concentrasse em apenas uma época do ano ou em determinadas regiões, uma iniciativa que parece ter dado resultados.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) da Espanha, a maior parte dos turistas que visitaram o país (23,6%) vieram do Reino Unido, totalizando 17,8 milhões de pessoas que gastaram uma média de 911 euros por visitante. Esse resultado mostra que o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia no ano passado, não teve um impacto negativo nos gastos dos turistas britânicos na Espanha.

Depois do Reino Unido, os dois países que mais enviaram turistas à Espanha foram a França e a Alemanha, mas também houve crescimento expressivo no número de visitantes vindos da América – em especial dos Estados Unidos, Canada e Argentina – e da Irlanda. O país também é a sede de uma das maiores feiras de turismo do mundo, a Fitur, que só em janeiro desse ano atraiu 245 mil visitantes.
Ainda segundo Nadal, o turismo na Espanha é “um setor aberto, exportador, mas também de intensa mão de obra, com uma capacidade de criar emprego no dobro do ritmo do que os demais setores da economia espanhola”.

 

Problemas à vista
Apesar do que disse o ministro, a Espanha registrou em janeiro desse ano 57.257 desempregados a mais que em dezembro, em particular nos setores de turismo e agricultura, segundo o ministério do Emprego. A Espanha é o 2º país da União Europeia com maior número de desempregados – atrás apenas da Grécia – com 3,76 milhões de pessoas sem emprego.

Além disso, reações recentes contra a vinda de turistas ao país vêm preocupando o ministro Álvaro Nadal. Além de tentativas de instituir “taxas turísticas”, o ministro nota também um crescente antagonismo à presença de visitantes no país, o que ele classifica como “turismofobia”.

“As colocações contra o turismo feitas ultimamente por alguns caem diretamente na “turismofobia” e levam as pessoas a pensar que os turistas não são bons porque não trazem riqueza e apenas complicam a vida cotidiana, o que não é verdade. A história econômica da Espanha não seria o que é sem o turismo e também nunca fez parte da cultura desse país rechaçar aqueles que são de fora. Somos um país extremamente hospitaleiro, e determinadas políticas injustas e prejudiciais não podem ter um discurso contrário a essa ideia”, defendeu ele em coletiva no começo de janeiro, logo após o anúncio de que o setor havia batido números recordes no ano anterior.

Related Posts


El Rastro de Pulgas e suas histórias de vida

O tradicional mercado em Madrid têm narrativas que marcam gerações

31.01.2017

Uma tolerância frágil

O que pensam os espanhóis sobre imigração

26.01.2017

“Madrid es negra”: jovens afrodescendentes movimentam espaços culturais de Madri

Chamados de “afroespanhóis”, filhos de imigrantes lutam pela valorização da cultura negra

26.01.2017

Comments


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *