O tradicional mercado em Madrid têm narrativas que marcam gerações

LAYANE SERRANO E CLOVES TEODORICO

MADRID

Crédito: Helena Pacheco
Crédito: Helena Pacheco

Todo domingo e feriado, a partir das 9h, diversos comerciantes se reúnem no bairro de La Latina, em Madrid, para montar o “El Rastro de Pulgas” – um comércio ao ar livre de diversos produtos como roupas, artesanatos, bens antigos, música e até planta medicinal. Segundo os próprios comerciantes, a feira tem mais de 400 anos e costuma atrair turistas de vários cantos do mundo devido ao preço baixo e a diversidade cultural dos produtos ofertados.

A demanda de oferta para cidadãos espanhóis é tão fundamental para a continuação do negócio quanto ao turismo. O madrilenho Frederico diz que costuma vir ao mercado de pulgas uma vez por mês, pois é um lugar onde encontra roupas boas e com preços acessíveis para a família, além de brinquedos para as suas duas filhas.

A tradição da feira no país não se deve apenas por causa da demanda, mas também pela capacidade de sobreviver e ser adquirida por gerações. Os irmãos Cristiana e Jorge, por exemplo, possuem uma tenda de artigos indianos que herdaram do pai, o qual adquiriu toda a experiência de vendedor com os avós.

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Já Manoel Ruiz, 51 anos, iniciou esse processo de obter uma “tienda” e passar para a próxima geração. No El Rastro, ele trabalha, ao lado da filha mais velha, há mais de 30 anos. Durante a semana, ele é bancário e aos domingos realiza a comercialização de souvenirs (objeto que recorda a visita no lugar). Para ele, trabalhar no espaço é um hobby. “Conheci a feira por conta de um primo. Acabei ficando e gosto demais disso aqui, é uma diversão para mim”, disse.

 

DSC_6501Enquanto Manoel trabalha por hobby, Carlos se transforma em “Willy Wonka” (protagonista do filme “Fábrica de Chocolate”) não apenas por se achar parecido com o personagem, mas pelo espetáculo ser uma forma de melhorar sua renda familiar. Com 47 anos de idade ele representa boa parcela dos trabalhadores autônomos mundiais. Ele vive há 15 minutos da feira e, quando surge demanda, realiza serviços de eletricista, encanador e pedreiro. Com um filho e esposa, consegue manter o pão de cada dia com os euros que ganha pelo trabalho performático.

A diferença de nacionalidade entre os vendedores não é um impedimento para trabalhar na tradicional feira espanhola. Natural da Nigéria, Cris é mais um que ganha a vida com os lucros de suas vendas. Há 15 anos residindo em Madrid, vender está em seu sangue: “Comecei aqui numa pequena taboa, comercializando acessórios para mulheres. Hoje aumentei a estrutura e vendo produtos variados. Gosto disso aqui, é desse trabalho que tiro meu sustento e, mais que isso, tenho prazer no que faço”, enfatizou.

El Rastro de Pulgas de Madrid é indicado para turistas e moradores que buscam marcar gerações, sejam com os brinquedos que traz alegria para as filhas de Frederico ou com as lembrancinhas de Manoel e de Cristina que vão alegrar famílias em outras partes do mundo; o que importa é se vestir bem com as roupas do vendedor Cris e se preparar, como Carlos, para o teatro da vida.

Porque o evento tem o nome relacionado com “pulgas”?

O primeiro “mercado de pulgas” surgiu no norte de Paris, França, e recebeu o nome de Marché aux puces de Saint-Ouen. O título “mercado de pulgas” está relacionado com o próprio inseto, que infestava as roupas que eram vendidas nesta feira ao ar livre.

Layane Serrano é estudante de jornalismo e participa do programa “Jornalismo Sem Fronteiras Madrid”, que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Espanha para uma imersão como correspondente internacional.

 

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