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Vitórias Pírricas, Derrotas Públicas

Vitórias Pírricas, Derrotas Públicas

A semana na Câmara dos Deputados teve diversas manobras, violência e reviravoltas surpreendentes, onde cada vitória é conquistada a duras penas e dura apenas algumas horas.

GABRIEL CARRASCO

DE BRASÍLIA

 

Pirro de Épiro derrotou os romanos na Batalha do Ásculo. “Mais uma vitória como esta e estou perdido”, teria dito o rei. Estava cunhada a expressão Vitória Pírrica, obtida às custas de muitos homens e recursos.

Mais de 2000 anos depois, Pirro e os romanos viraram História. A República, de Roma, tornou-se um conceito importante e é o sistema de governo mais utilizado ao redor do globo. A Vitória de Pirro, por sua vez, tornou-se expressão para uma vitória inútil, efêmera.

Pois a República do Brasil tornou-se palco de Ásculos diários. Brasília está em combustão, com batalhas travadas entre seus Deputados, suas bancadas e seus Poderes

Êxitos iniciais de Cunha e o irredutível Picciani

Na segunda-feira, o Conselho de Ética da Câmara deveria se reunir para abrir o pedido de cassação do Presidente da Casa, Eduardo Cunha. Ao mesmo tempo, Cunha abriu os trabalhos na Comissão Especial que analisará o pedido de Impeachment da Presidenta Dilma Rousseff.

A ação do Presidente da Câmara deu certo e derrubou o quórum necessário para a abertura de seu pedido de cassação. Cunha havia vencido, mas sua manobra gerou críticas pesadas. “Ele, que nunca teve escrúpulos, elevou isso à décima potência”, declarou Chico Alencar, do PSOL.

O Salão Verde lotou de repórteres e assessores, a temperatura subiu. Seja pelas luzes das câmeras e flashes, seja pelo calor do Planalto Central ou pelas discussões travadas.

Ainda havia mais: os nomes das comissões, via de regra, são indicadas pelas lideranças dos partidos. Depois, esse conjunto de nomes é submetido aos votos do Plenário. Porém, nova manobra feita, para surpresa geral, e havia duas listas de nomes concorrendo à Comissão.

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Deputado Paulinho da Força, líder do Solidariedade, presta apoio ao presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB). Foto: Carolina Piscina

Heraldo Pereira, da TV Globo, exclamou: “Vim aqui só para pegar a lista com os nomes da Comissão. Fiquei surpreso ao chegar aqui e encontrar duas chapas! É uma semana imprevisível!”.

Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara, não aceitou a manobra de seu colega Eduardo Cunha. “O acordo era a definição de chapa única (a indicada pelas lideranças partidárias)”, disse. Ele ainda acrescentou que manteria suas indicações para a Comissão.

A atitude de Picciani contrariou Cunha, que sofreu um duro golpe vindo de dentro de seu próprio partido. Apesar disso, declarou que poria as duas chapas para votação em Plenário no dia seguinte. Chico Alencar volta à carga: “O Conselho de Ética será novamente adiado”.

Orlando Silva, do PC do B, completou: “A judicialização é um caminho, mas por enquanto, não”. O deputado acabara de sair, apressado, de uma reunião com lideranças governistas.

Confusão, votação e reviravolta

Terça-feira, como esperado, o Conselho de Ética não se reúne – em mais uma vitória de Cunha. A Ordem do Dia colocou em pauta a votação das chapas que comporiam a Comissão Especial para o Impeachment. Para surpresa de todos a votação foi secreta – em outra determinação do Presidente da Câmara.

Horas de espera no Salão Verde e de confusão no Plenário, com quebra de urnas, troca de empurrões e acionamento da Polícia Legislativa, deram vitória à Chapa 2, de Eduardo Cunha e seus aliados. Questionado sobre a confusão, Paulo Maluf, do PP, respondeu: “Isso é democracia”.

O resultado dividiu o público presente na saída do Plenário. Enquanto alguns comemoravam aos gritos “Vai ter Impeachment, sim”, outros respondiam “Golpistas”. Os parlamentares também dividiam-se, entre exultantes e irados com os resultados.

A votação das chapas (272 x 199), trouxe preocupação aos governistas, que viam uma margem apertada em caso de votação de um eventual Impeachment. Menos para Sílvio Costa, recém-saído do PSC e agora membro do PT do B, que disse que “tranquilizará a Presidenta, pois a margem não garante Impeachment” e que “em votação aberta os traidores terão vergonha de fazer isso”.

A quarta-feira seria o dia em que os deputados votariam a presença de mais alguns nomes para completar a Comissão. Seria, não fosse uma decisão do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Facchin, anulando a Sessão Plenária do dia, em ação movida pelo PC do B. A decisão se baseou na reclamação de que a votação deveria ser aberta. Ao apagar das luzes de terça, Cunha sofrera uma grande derrota.

A vingança

Porém, ao amanhecer de quarta, uma revanche: Grande parte da bancada do PMDB, próxima à Cunha, protocolou um abaixo-assinado afastando Leonardo Picciani da liderança do partido. Picciani foi trocado por Leonardo Quintão, homem de confiança de Cunha e favorável ao processo de Impeachment.

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Leonardo Picciani, ex-líder do PMDB na Câmara; foi trocado da liderança por não concordar com Eduardo Cunha. Foto: Carolina Piscina

Darcísio Perondi, do também PMDB, foi enfático ao falar sobre Picciani: “Ele não respeita homens da envergadura de Michel Temer e de Eduardo Cunha”. O racha na bancada do PMDB era assunto de corredores, do cafezinho.

A decisão do STF atrasou os planos de Impeachment, abrindo brecha para o Conselho de Ética ter quórum. O processo de cassação de Eduardo Cunha, poderia, finalmente, ser aberto. Entretanto, Waldir Maranhão, do PP, vice-presidente da Câmara destituiu o relator do processo, Fausto Pinato, do PRB.

Discussões e Cunha na mira

Na sessão de quinta, o Conselho de Ética teve uma reunião tensa. Marcos Rogério, do PDT, novo relator do processo, declarou ser favorável à continuidade do processo. Porém, opositores e aliados de Cunha travaram debates acalorados, paralisando a sessão por alguns minutos.

Novamente um dia de dedos em riste. E muita confusão.

Ao final do dia, Alessandro Molon, da Rede, pediu o afastamento de Eduardo Cunha, por “continuar usando sua força de Presidente para impedir tramitações contrárias”. Cunha respondeu que se defende “na legalidade”.

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Eduardo Cunha afirma que está se defendendo na legalidade, sem abusar do cargo. Foto: Jacqueline Moraes

Uma sexta esvaziada

Depois de uma semana tensa, na sexta o Salão Verde permaneceu vazio. Não havia aquele grande número de Deputados, assessores ou jornalistas circulando. O Plenário estava aberto a quem quisesse entrar e participar. Ocorria no local uma sessão em homenagem à uma universidade de Minas Gerais pelos seus 50 anos. O comando da sessão ficou a cargo de Fábio Ramalho, do PTB, único Deputado presente.

Ramalho declarou, durante seu pronunciamento, que “a Casa está aberta à todos e em todos os momentos, para trazer suas alegrias e amarguras”, numa sessão que durou pouco mais que 15 minutos e no único dia em que o Plenário esteve realmente aberto aos populares e curiosos.

Cícero, 100 anos depois de Pirro, refletiu sobre a República, onde afirma que um de seus pilares é o Communio, a reunião de interesses em comum da multitude. Centrando esforços em se destruírem, deputados, bancadas e poderes conquistam Vitórias Pírricas, efêmeras, mas derrotam o público, os interesses populares.

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