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Um sonho possível

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A Argentina é um país atrativo para os que desejam recomeçar ou até mesmo melhorar de vida. Para alguns, o sonho se torna realidade. Para outros, o paraíso imaginado fica um pouco mais distante.

Deborah Rezaghi

 

Nem mesmo uma manhã chuvosa em Buenos Aires – daquelas que nem os pesados casacos conseguem passar imune, com poças de água inundando todos os cantos da calçada – faz com que a fila na Direção Nacional de Migração fique menor. Localizada na Avenida Antártida Argentina, passam por lá cerca de 1.500 pessoas por dia para retirar os documentos que legalizam os estrangeiros em solo argentino. A chuva pesada e o vento frio não faz com que eles deixem o local, mas é necessário que se apertem para que caibam todos embaixo de um toldo que os protege. E nesse momento, eles estão juntos não só para fugir dos pingos d’água, mas também no sonho de ter uma nova vida na Argentina.

E por que querem mudar?    De modo geral, buscam o bem estar para toda a família e boa educação para os filhos. Encontrar algo melhor do que se conseguiu no país de origem. Recomeçar. Os motivos podem ser os mais variados. Mas alguns desses citados são os principais que levam muitas pessoas a migrarem para a Argentina.

No local onde se retiram os documentos migratórios, enquanto aguardam apreensivas o número da senha a ser chamado, mãe e filha cochicham entre si. As duas são da região de Cochabamba, na Bolívia, e estão há quatro anos em Buenos Aires. Mudaram-se com toda a família para tentar uma vida nova no país. Lizbeth López é a filha de 22 anos que consegue contar, com bastante timidez, a história da família. A mãe, desconfiada, olha de soslaio para a filha, mas segue sem dizer uma palavra. Liz, como é chamada, diz que atualmente trabalha vendendo verduras junto com a mãe. Elas gostam da Argentina e pretendem continuar no país por mais alguns anos até de voltar para o país de origem. Antes de continuar, Liz olha para a senha anunciada. Ainda não é a sua. Mas o olhar da mãe sinaliza que é hora de parar de falar.

 Pessoas e números

A porcentagem de imigrantes é pequenase comparada aos habitantes do país – de acordo com o Censo realizado em 2010, de 40.117.096 habitantes, apenas 1.805.957 eram imigrantes – ou seja, 4,5% da população. Mesmo sendo poucos, eles representam uma importante fonte de enriquecimento e troca cultural, além de  impulsionarem  a economia.

Dados da Comissão Católica Argentina de Migração apontam que no ranking das nacionalidades que mais migraram para o país estão os paraguaios, seguidos dos bolivianos e peruanos. Os brasileiros ocupam a sétima posição. “A Argentina tem um bom mercado de trabalho, escolas públicas de qualidade e bons hospitais. Além disso, a legislação para a imigração é bastante favorável”, explica Hugo Mouján, chefe do departamento de imprensa da Direção Nacional de Migração.

Para ele, a Argentina é um país que cresceu e se fortaleceu com a vinda de imigrantes. “A imigração é algo positivo. Os países que recebem pessoas de fora sempre têm crescimento econômico”. Mouján diz que é um mito acreditar que os imigrantes tiram trabalho dos argentinos, pois eles geralmente estão em funções que os nativos não aceitam. Não é regra, mas um grande número de bolivianos, por exemplo, realiza trabalho braçal e estão presentes na área de confecção têxtil e no campo. Os paraguaios são encontrados principalmente na construção civil.

De acordo com Mouján, a exploração do trabalho do imigrante pelo empregador – que paga salários mais baixos e exige maior carga horária – é rara de acontecer em Buenos Aires por conta de uma legislação que coíbe esse tipo de prática. “O problema do trabalho forçado não é comum pois há uma multa grande. Mas as vezes acontece”, explica. “Contudo, argentinos são explorados na Argentina e brasileiros no Brasil. Não se pode colocar esse estigma nos imigrantes”, completa.

Edson Teixeira, representante da Legião da Boa Vontade na Argentina, instituição brasileira que tem contato com imigrantes, diz que já houve vários casos de pessoas resgatadas em situação de trabalho escravo. “A exploração muitas vezes acontece de um boliviano explorar um próprio boliviano”. Como assim?

Exemplo:

Situação real

 Em algumas áreas rurais mais pobres da região de um país (ou até mesmo nas grandes cidades) as pessoas querem sair da onde estão para melhorar de vida. Nesse local, um próprio cidadão do local (que está trabalhando para um empresário dono de uma indústria têxtil em Buenos Aires) convence os trabalhadores de lá para seguir rumo à Argentina – prometendo emprego e moradia. A pessoa que trabalha para o empresário recebe um bom salário para conseguir aliciar os trabalhadores, e como tem muitos contatos e conhece as regiões mais pobres de seu país, não encontra dificuldades em recrutar trabalhadores. “Muitas pessoas estão em La Paz, por exemplo, porque já migraram do interior para a capital. E como essa mudança não deu certo, ela decide mudar novamente para outra cidade grande, e pode acabar indo para outro país”.

Teixeira explica que alguns imigrantes vêm para a Argentina com um trabalho e um local já garantidos. Contudo, alguns arriscam e vem sem nem mesmo ter onde ficar. “Nesse caso, eles ficam no quartinho de algum conhecido ou na casa de alguém da própria família que já veio antes e se estabeleceu por aqui”. Encontrar uma casa para ficar ou um trabalho nem sempre é fácil, e voltar para o país de origem por vezes é muito difícil. E muitos deles se veem desamparados. A Legião da Boa Vontade faz um trabalho com crianças de baixa renda – e por isso atende muitos imigrantes – oferecendo escolas onde elas podem ficar e receber atenção, alimentação e estudo. “Quando nada dá certo para o imigrante, se ele tem um local para deixar a criança tudo fica mais fácil, pois assim ele tem mais tempo para tentar arrumar um emprego”, afirma.

O mínimo que o imigrante consegue na Argentina – mesmo uma casa dividida com alguém ou um emprego na indústria têxtil, por exemplo – já é para ele uma condição de vida muito melhor daquela que ele tinha antes.

“Nós” e “eles”

Além de todas as dificuldades que a mudança de um país para o outro acarretam, a adaptação ao novo lar acaba sendo bastante complicada. Novo clima, comida diferente, outros comportamentos, tudo isso causa certo estranhamento inicial. O idioma também é um obstáculo. Mesmo quando se vem de países que falam a mesma língua, algumas gírias são comuns em um e em outro não. Àngela Montes é colombiana, tem 18 anos e veio para a Argentina para estudar psicologia na Universidade de Buenos Aires. Ela veio junto com uma amiga, Lina Carpintera, 17, que veio estudar arquitetura. Segundo ela, as universidades argentinas são melhores que as colombianas. Há apenas dois meses em Buenos Aires, Àngela já estranhou a forma de falar dos argentinos. “Eles se expressam de uma maneira diferente. Algumas palavras que usava na Colômbia aqui são palavrões”. Ela acha que os argentinos são mais frios e os colombianos mais alegres, e também sente falta da comida de casa: “A minha mãe sempre me manda muitos doces e chocolates” conta.

Teixeira explica que esse momento inicial é bastante complicado. “Os primeiros três meses são os mais complicados. É preciso tentar experimentar coisas novas, o que nem sempre é fácil para aqueles pouco flexíveis”. Ele explica dando o próprio  exemplo , já que é brasileiro (nascido em Minas Gerais) e está há 19 anos na Argentina.

E os argentinos? Como recebem os novos moradores? “Os imigrantes são muito bem recebidos”, diz Hugo Mouján, explicando que a xenofobia não é um problema tão grave no país como é na Europa.

“Nunca fui discriminado”, conta Teixeira. “Os argentinos tratam os imigrantes dependendo da maneira como cada um se porta. Quando você respeita o outro, ele também te respeita. Mas os argentinos se sentem superior em muitas coisas sim, e isso pode por vezes causar algum conflito”.

Já Ángela teve uma experiência bastante desagradável.  Quando seguia para casa em um ônibus encontrou uma senhora que a começou a insultá-la e dizer que os colombianos não deveriam estar na Argentina. “Ela me disse que todos os colombianos eram ladrões e traficantes. Eu disse que ela estava equivocada e que me insultava falando aquilo. A senhora não parou e eu desci do ônibus para não discutir mais”. Esse foi um caso isolado. De maneira geral, ela disse que os argentinos a tratam bem e que só às vezes percebe uns olhares meio tortos de desconfiança. “Mesmo assim, adoro a cidade e depois de formada pretendo continuar morando e trabalhando aqui”.

“Todas as pessoas que você conversa no fundo, bem lá no fundo, tem a esperança de voltar para o seu país de origem. Há a ideia de, no fim, pelo menos morrer em seu país”, conclui pensativo Edson.

Legislação

 “A Argentina aspira a livre circulação de pessoas e trabalho”, diz Mouján. Ele explica que o país sempre foi flexível com os imigrantes e as leis nunca foram tão rígidas. Em 2004, a Lei 25.871 estabeleceu que migrar é um direito humano.

A Direção Nacional de Migração é o órgão responsável pela aplicação da lei. Nesse local se registram as pessoas que entram no país que adquirem os documentos necessários para poder trabalhar e se identificar.

 Um pouquinho de Brasil

A distância entre física entre o Brasil e a Argentina não é grande. Um voo de Buenos Aires a São Paulo dura em média 2h30 min (mais rápido do que ir de São Paulo até Manaus). Por conta disso, nas férias é comum brasileiros visitarem o país vizinho (assim como os argentinos lotam as praias brasileiras, principalmente as do sul do Brasil).

Mas alguns turistas que vem para a Argentina decidem que não querem mais ser meros visitantes de alguns dias… E decidem fazer da terra do tango a sua terra natal.

Os motivos que levam os brasileiros para a Argentina é diferente dos imigrantes paraguaios, bolivianos e peruanos. Hugo Mouján explica que o Brasil hoje é um país rico, que tem baixo desemprego e apresenta uma situação econômica favorável. E por conta disso, não há motivo para os brasileiros saírem.

“O Brasileiro que vem para cá não está escapando do Brasil – ele vem por algum motivo, geralmente o trabalho em  alguma empresa”, diz.

A motivação para muitos deles, além do trabalho, é o estudo. Edson Teixeira conta que há muitos estudantes em Santa Cruz. “Uma das carreiras mais procuradas é a de medicina”.

Para ele, não há o motivador econômico que faz com que brasileiros queiram vir pra Argentina. E pelas dimensões continentais do país, se alguém pensa em recomeçar provavelmente vai mudar para outro estado e não para outro país.

Por conta da proximidade com o Brasil e por virem pra cá com objetivos bastante diferentes, a comunidade brasileira não vê a necessidade de se juntar. “Não há um bairro específico onde os brasileiros moram. E por estarem aqui com objetivos diferentes, não há união como nas outras comunidades. É difícil juntá-los até mesmo no dia 7 de setembro”.

Para tentar reverter essa situação e unir os brasileiros em torno de sua cultura é que surgiu a Turma da Bahiana…

Sergina Boa Morte

 O modo calmo de falar e a maneira como mexe as mãos são cativantes. Uma tarde inteira de conversa não seria suficiente para resgatar todas as lembranças das histórias vividas em Buenos Aires. Entre uma frase e outra, quando lembra do Brasil, cantarola com uma voz suave e melódica músicas brasileiras. “Isso aqui ó ó, é um pouquinho de Brasil ia ia…”

Sergina Boa Morte – cujo nome veio do pai, que foi batizado em homenagem à Nossa Senhora da Boa Morte, um dos títulos católicos dados à Nossa Senhora – é uma figura ímpar na capital portenha.

 “Ainda hoje estou conhecendo Buenos Aires”, começa. Como muitos que mudam de um país para outro, ela chegou com muitos sonhos. “Cheguei no dia 2 de setembro de 1971”, diz sem hesitar a data que está gravada na memória como se tivesse acontecido ontem. A sua história na Argentina teve dois começos. Em 1971, no dia 26 de outubro, pouco tempo depois de ter se estabelecido, um grave acidente de carro na Praça San Martín fez com que ficasse durante um mês no hospital. O impacto do acidente foi tão grande que alguns cacos de vidro acabaram entrando em seu olho, o que fez com que perdesse a visão do olho esquerdo.

Nesse momento, ela voltou para Brasil. Contudo, o seu coração continuou na terra da parrilla. A família não queria que ela voltasse. Mas o sonho de voltar continuou. Com apenas alguns minutos de conversa, logo se percebe que Sergina é forte e determinada. E busca a todo custo transformar o sonho em realidade.

Um dia, junto com uma amiga, foi fazer turismo na fronteira, na região de Foz do Iguaçu. E por lá ficou. O objetivo era ir descendo cada vez mais até chegar em Buenos Aires. “Comecei a trabalhar na loja de uma pessoa que conheci lá e a juntar todo o dinheiro que ganhava. Queria voltar de qualquer jeito”. E ela voltou.

A paulistana que virou “bahiana”

Com dinheiro suficiente, ela pôs em direção ao Obelisco. “Quando voltei, por aqui sobrava trabalho. Trabalhei em casas de família e oficinas de costura”. No início ela diz que sofreu preconceito. “Ser negra naquela época era ser exótica. Algumas pessoas vinham e tocavam em mim pois achavam que tocar uma pessoa negra trazia sorte”. Segundo ela, as mulheres brasileiras não eram bem vistas. “Havia um estereótipo de que as mulheres brasileiras vinham aqui para se prostituir. Logo, isso acabava deixando todas com essa marca”.

Contudo, apesar de passar por algumas situações difíceis , que a fizeram várias vezes querer voltar para o Brasil, ser brasileira se mostrou uma vantagem.

No lançamento em Buenos Aires do filme “Dona Flor e seus dois maridos”, a embaixada brasileira receberia o ator José Wilker (que interpretava um dos maridos no filme). Para o evento, Sergina foi chamada para participar da festa, que teria comidas típicas e danças, vestida  com os trajes de baiana (os mesmos trajes que as baianas do acarajé usam em Salvador). E foi o maior sucesso!

“Até José Wilker brincou e disse que eu era o quindim da festa” conta às gargalhadas ao relembrar do episódio.

E a partir daí, Sergina, que é paulistana, virou baiana. “Começaram a surgir convites para fazer shows e participar de festas vestida de baiana. Tinha trabalho 24 horas por dia”, conta.

 Quando bate aquela saudade

Há cinco anos ela não pisa em solo brasileiro. E sente muita falta do país. Mas disse que no começo foi difícil superar as saudades. “Com os amigos que foi conhecendo e com o carinho que as pessoas demonstravam nos shows, essa sensação foi passando”, conta.

Sentir o cheiro e o gosto da comida brasileira. Essa era uma das sensações que não tinha. “Hoje em dia há muitos produtos brasileiros em vários lugares. Mas na época que cheguei aqui não se encontrava tantas coisas com facilidades. Morria de saudades do feijão e do guaraná”, conta.

Para matar as saudades do país, utiliza uma ótima técnica: ouve músicas brasileiras. “Me transporto para o Brasil”. E o seu repertório de músicas se faz tão presente, que até mesmo em suas falas, entre uma frase e outra, acaba cantarolando um pedacinho de algum ritmo brasileiro.

Turma da Bahiana

Com o objetivo de manter e fomentar a cultura brasileira, além de unir os brasileiros para “matar as saudades do Brasil”, Sergina criou junto com um grupo de colaboradores a Turma da Bahiana. “Para conseguir reunir os brasileiros é sempre com muita festa”, diz. Ela tenta fazer um encontro pelo menos uma vez por mês para reunir todo mundo, o que não é uma tarefa fácil, já que os brasileiros estão muito separados, cada um em um canto da cidade. “A embaixada também não coopera muito com projetos para unir a comunidade”. Segundo ela, os argentinos preservam mais a cultura brasileira do que os próprios brasileiros. “Há associações de argentinos que ensinam as pessoas a lutarem capoeira e até dançar forró. Eles gostam mais da nossa cultura que a gente”, diz.

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Deborah Rezaghi

Estudante do 3º ano de jornalismo da Cásper Líbero. Trabalha com televisão, na reportagem, edição e produção do programa Edição Extra, da TV Gazeta. Tem interesse em trabalhar com audiovisual, seja na televisão ou no rádio.

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