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Um Dia De Sonho

Um dia de sonho

HELENA CENEVIVA, DE BUENOS AIRES

As pessoas têm paixões muito diferentes, e perceber isso, para mim, é sempre uma surpresa deliciosa. Me parece tão óbvio que um coração se encheria de alegria ao ler um bom livro ou ao passar em frente ao Congresso Nacional, que sempre me surpreendo quando percebo que o que me emociona geralmente não impacta os outros da mesma maneira. Acho lindo saber que enquanto me deslumbro com a política, a pessoa do meu lado pode sentir algo especial pelo som do violino ou pelo mundo circense; pelos átomos ou pelas ideias que nos formam; pelos números ou pelas palavras que traduzem o mundo.

Hoje, meu dia foi um sonho. Por obrigação, começou logo cedo, mas, por delícia, me deu mais vida a ser vivida. Em manhãs como essa, acordar às 6h é quase como embrulhar algumas horas em uma linda caixa de presente e me dar a oportunidade de viver por mais tempo longe de Morfeu. Agora, por exemplo, já passa das 23h e, apesar do cansaço, ainda me sobre um gostinho de quero mais deste dia.

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No frio e na chuva, partimos juntos até a redação da Perfil. Com direito a um motorista de ônibus que fechou a porta na nossa cara, e a surpresa de não poder pagar (nem com moedas) a passagem dentro do ônibus (coisas que fazem parte da aventura) chegamos à rua Califórnia. Com uma redação gigantesca, o espaço me pareceu ainda maior por sua altura: com um pé direito gigantesco, se você parasse para observar com cuidado parecia que poderia se afogar com tanto ar.

Fiquei pensando naquele espaço repleto de vozes e cliques: uma redação cheia deve parecer um formigueiro.

As salas do mezanino eram todas envidraçadas. Sentado na ponta de uma grande mesa de reunião, com caricaturas de personagens políticos atrás de si como havia em todas as salas, Alejandro Rebossio era o objeto de nossa primeira conversa do dia. Com ampla experiência jornalística, falava pausadamente em português (uma forma de praticar o idioma) e quando chegava ao espanhol caía em uma linha mais dinâmica de raciocínio. Ali, me encantei com seu jeito: Rebossio tem a sagacidade trazida pela experiência, aliada à uma curiosidade tipicamente jovem. Com essa combinação de sucesso, que inevitavelmente resulta em uma exploração mais madura do desconhecido, falou, dentre tantos outros assuntos, sobre a vontade de aprender e de desenvolver-se sempre.

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A Claudinha nos relembrou no começo da viagem: “Toda escolha é uma renúncia”. Depois de pegar o número de Alejandro para ver se não conseguia entrevistá-lo em breve, tinha duas opções: ir à visita do La Nación ou ir dar a cara a bater no Congresso Nacional. Eu jamais deixaria a oportunidade de ver Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, com a chance de poder ouvi-lo ao vivo (essas coisas são ver a história acontecer!). Minha escolha pela segunda opção era tão óbvia, uma renúncia tão clara e sem hesitação que me diverti com as paixões alheias: curiosamente, a maior parte do grupo preferia visitar o jornal.

Fomos eu, Gabriel e Fábio, companheiro de andanças lá em Brasília, até o Congresso Nacional. Fomos literalmente batendo de porta em porta: “aqui não, é na porta do lado”. Fizemos isso tantas vezes que imaginei que acabaríamos dando a volta pelo prédio e retornaríamos ao ponto de partida. Apreensivos com nossa escolha indumentária, encontramos a entrada e fomos nos dirigindo aos locais que nos encaminhavam. De repente, não mais que de repente, fez-se de feliz o que se fez surpresa. Sem perguntarem nosso nome, pedirem documento ou olharem com desconfiança, passamos por todas as etapas do caminho como se no quintal de casa.

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Despidos de qualquer credencial oficial, entramos pela porta da frente como se fosse velha rotina. Ao passar pelo batente, a euforia se misturou com o deslumbramento e a incredulidade: eu, no Congresso Nacional argentino, em um fórum sobre Diplomacia e Relações Internacionais, rondada por jornalistas, a alguns metros de mim Rodrigo Maia, e eu de vestido de bolinhas! Ver o deputado entediado em seu canto claramente nada habituado a esses tipos de cerimônia, foi incrível. Vi Maia sem intermédio: pelos olhos, não pelas telas, observei-o como se deve: ao vivo.

Estigmatizamos pessoas da vida pública. Um político, portanto, sempre será um político. Acontece que ali, olho no olho, nas cinco dimensões dos sentidos, entendi que Maia, antes de ser deputado, é também uma pessoa – todos somos. Assim como jogadores de futebol não parecem mais que pecinhas minúsculas em uma partida transmitida pela TV, os agentes da vida pública são achatados em seu papel, como se sua existência dependesse dessa característica definidora. Mas, Maia, ainda que peça central da política brasileira contemporânea, é gente: no seu canto da mesa, parecia suado, um pouco despenteado, entediado e deslocado.

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Como se não bastasse nossa incredulidade em conseguir entrar no Congresso com uma facilidade ridícula, ainda reparamos que não havia muitos jornalistas brasileiros, o que significava que talvez conseguíssemos falar com Rodrigo Maia. Dito e feito: conseguimos, de pertinho, gravar em áudio e vídeo suas declarações. Mas a sorte estava ao nosso lado e nossa história não parou por aí. O Gabriel, conforme os jornalistas foram ficando para trás, alcançou o deputado e conseguiu que ele lhe respondesse duas perguntas só para ele. Só para ele! E Maia sequer perguntou de qual veículo ele era! Fiquei tão feliz que, não fosse minha incredulidade, corria sérios riscos de ter um ataque de riso.

Saímos do Congresso com a esperança de publicarmos uma matéria com as informações que apenas obtivéramos. Na chuva, desbravamos os meandros dos metrôs, nos separamos para então nos reencontrarmos no hostel do Fábio. No trajeto, suada pelo calor do metrô e molhada pela chuva que caía, não podia tirar o sorriso do rosto. Não só pelo que acabara de passar, claro, mas também porque pensei em um amigo meu da faculdade. Se eu mandasse uma foto para ele de onde eu estivera minutos antes, ele diria por detrás dos óculos: “olha, que chique!” Ri, porque ele jamais imaginaria que de glamouroso ali não havia nada: eu estava nas ruas molhadas, com sapatos, calça e casacos ensopados.

Conforme fazíamos nossa matéria, o Fábio ia tentando mobilizar seus contatos para ver se conseguíamos publicá-la em algum lugar. Cheguei a achar que naquela tarde realizaria o sonho de publicar algo no El País, mas não foi dessa vez. Enquanto saía correndo da Viamonte para chegar até Palermo Viejo, onde faria uma entrevista recém-marcada com Alejandro, nosso texto foi publicado pelo Congresso em Foco (isso, no entanto, eu só saberia ao chegar no metrô e conseguir wi-fi).

Minha segunda com o jornalista, então, foi privada. Falei com ele pela tarde e ele me disse que poderia em breve, naquela mesma tarde. Como não poderia ser diferente, eu fui, claro. Corri para chegar no pequeno intervalo de tempo que tinha até chegar no ponto de encontro, um bar recém-inaugurado perto de sua casa, momentos nos quais agradeci imensamente por minha capacidade pulmonar.

No caminho, só conseguia pensar na Cláudia falando sobre a importância de chegar mais cedo. Vendo o caminho passando rápido, via também a Claudinha passando do meu lado e falando sobre o horário, enquanto imaginava o Alejandro sentado me esperando, me imaginando nada profissional. Eu cheguei 10 minutos atrasada simplesmente porque não havia meio de transporte que poderia me deixar lá em tempo. Me desculpei buscando não parecer estabanada e creio que minha tentativa teve sucesso.

Depois de entrevistá-lo sobre Maurício Macri e Cristina Kirchner, nos fomos. Voltei para casa animada. Cansada até o último fio de cabelo, não poderia estar mais feliz.

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