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Um abraço com palavras

Dentre as mazelas enfrentadas pela população, vítima de um sistema pautado na corrida pelo dinheiro, o individualismo prevalece soberano. Fernando Rios, difusor do projeto Acción Poética, busca por meio da poesia e pintura valorizar iniciativas coletivas, a fim de aproximar pessoas.

 

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Confira a matéria produzida por nossa correspondente Gabriela Rodriguez durante o Programa Jornalismo sem Fronteiras em Buenos Aires.

Com pincel, tinta e crença de que uma cidade não pode ser separada da poesia, Armando Alanís Pulido, 44, saiu às ruas há 16 anos para reivindicar a ausência poética no mundo contemporâneo. Afetada negativamente pelas grandes cadeias econômicas, a poesia começou a reaparecer, desta vez nas paredes da cidade de Monterrey, México. O artista começou escrevendo nos muros da cidade textos grandes, de sua própria autoria, os quais tinham intuito de provocar impacto sobre as pessoas que os liam. No entanto, a vida acelerada, característica da atualidade, não permitia que as pessoas pudessem parar para ler o conteúdo poético pintado nas paredes. Armando, depois de notar que seu trabalho não estava tendo êxito, passou a dar forma a seu texto, isto é, começou a utilizar poucas palavras para expressar o que queria dizer. Com menos letras, a poesia finalmente teve seu espaço na correria vivida pelos mexicanos de Monterrey. De textos compridos a pequenas frases, nascia o movimento Acción Poética.

Durante 15 anos, o movimento literário, que não utiliza papel para exibir sua poesia, ficou restrito à cidade de Monterrey. O que ninguém esperava era que um morador de Tucumán, província localizada no noroeste da Argentina, fosse capaz de mudar a história do movimento e difundi-lo para todo o mundo. Ator e apaixonado por teatro, pela cultura e pela palavra, Fernando Rios Kissner, 49,

Fernando Rios Kissner / Crédito: Gabriela Rodriguez

Fernando Rios Kissner / Crédito: Gabriela Rodriguez

através de um amigo em comum ao do criador, conheceu o Acción Poética. De cara, o tucumano teve enorme admiração pelo trabalho iniciado por Armando. Sentindo necessidade de apresentar a iniciativa para as pessoas de sua cidade, Fernando pediu para que o mexicano lhe permitisse levar o Acción Poética para a América do Sul. Em março de 2012, o movimento iniciado no México deu a luz a Acción Poética Tucumán.

Respeitando o limite de no máximo oito palavras em cor preta e fundo branco, a cidade argentina teve suas primeiras pinceladas poéticas. Ter a permissão do dono da parede para escrever – última e principal regra do Acción Poética – não foi um problema em Tucumán. Fernando diz que os tucumanos são receptivos a esse tipo de movimento, possibilitando que o projeto se propagasse rapidamente. “A verdade é que esta ação é muito aceita e querida no meu estado. Eu sempre estou atenta para ver se encontro um novo muro pintado com poesia. Ler os muros de Acción Poética te faz ‘viajar’, pensar e refletir. Faz-te se sentir bem. Espero que tudo isso continue e os muros pintados sejam mais vistos nas ruas.”, relata a tucumana Huerto Bianchi.

Fernando diz que a autorização de um vizinho para que sua parede seja pintada pelo grupo, é o que os permite pintar de dia. Assim, o movimento ganha sentido e elimina a ideia de uma arte, ou expressão social, que necessite a escuridão noturna para ser realizada, como é o caso das pichações, por exemplo. O fato de ser uma província menor, também contribuiu para que o movimento sucedesse em Tucumán, uma vez que municípios maiores são muito restritivos, e a preservação da estética da cidade se sobrepõe à vontade do dono de pintar, com frases, sua própria parede. Tendo como maior objetivo a valorização da palavra, isto é, do efeito que esta tem sobre o outro quando lê uma poesia, o movimento Acción Poética não é contestador. Desta forma, para evitar o oportunismo de partidos políticos ou grupos religiosos, não é permitido que os muros sejam pintados com conteúdos deste gênero, tampouco com frases que sejam discriminativas ou preconceituosas.

O Acción Poética é um projeto que preza pelo ato coletivo e pode fazer parte de qualquer cidade, uma vez que os interessados se comprometam a cumprir as regras básicas. Difusor do movimento, Fernando ressalta que este não pode ser utilizado como ferramenta para arrecadar dinheiro, assim, o único incentivo que podem receber são insumos. Além disso, é permitido que os grupos que instaurarem o projeto em suas respectivas cidades vendam produtos personalizados, com a condição de que a renda seja revertida em subsídios como tinta, pincéis e rolos para pintar. “Ás vezes fazemos empanadas para vender na rua, outras vezes promovemos rodas de poesia, onde no final passamos a cartola para pegar algum trocado. Tudo para que as pinturas sejam realizadas.”, comenta Fernando.

Parede e palavra: matrimônio criativo

Em Tucumán, muro pintado ao contrário, como propõe a frase

Em Tucumán, muro pintado ao contrário, como propõe a frase

 

As frases poéticas propagadas nas paredes vão de sugestões de crianças a autores de renome. Um ponto chave é que não seja revelado o inventor de um texto, tendo em vista que a palavra vale mais do que quem a escreveu. Um objetivo do movimento é a dessacralização da poesia e a abertura para que mais pessoas conheçam e produzam textos. A eleição de uma determinada frase para um determinado muro deve acontecer por parte de quem o cede. O proprietário pode sugerir uma frase, tal quanto o grupo. O Acción Poética Tucumán (APT), assim como outros grupos, é responsável por organizar oficinas em escolas, hospitais, centros divinos, dentre outros locais de uma determinada comunidade.

Nestes eventos, além da apresentação do movimento, o que ocorre é um exercício prático por meio dos locais, sejam eles crianças, jovens, adultos ou idosos, no qual as pessoas escrevem suas próprias frases, livre e criativamente. Devido à rotina turbulenta, o movimento criou o Acción Poética em casa e na escola, uma vez que muitas pessoas gostariam de participar do projeto, mas não têm disponibilidade. Deste modo, os que querem compartilhar suas frases podem tirar uma foto de seus cartazes, ou da lousa, e enviar para a página do grupo no Facebook.

Assim que um vizinho cede sua parede para o grupo, inicia-se o processo de escolha para a frase poética mais adequada ao local em que a parede se encontra. Em relação ao conteúdo, são prioridade as frases que toquem a emoção e o sentimento de quem a lê, em geral? coisas bonitas. “Quando vamos a uma região pobre, não queremos falar sobre a pobreza, sobre a qual as pessoas a vivem e sabem como é ruim. Queremos frases bonitas, que façam com que, ao lê-las, as pessoas possam sorrir.”, relata o coordenador do Acción Poética Tucumán.

Ainda ainda que o grupo seja administrado por oito pessoas, nunca foi possível reunir todos os oito em uma ação, devido à rotina de trabalho e família de cada um. No entanto, o tucumano diz que a atividade, além de um vício, torna-se um ato público. Quando vai

Pintar em Tucumán: Atividade para todos os graus de experiência / Crédito: Acción Poética Tucumán

Pintar em Tucumán: Atividade para todos os graus de experiência / Crédito: Acción Poética Tucumán

pintar alguma parede, pessoas que por ali passam juntam-se ao grupo para pintar. “O mais incrível é ver avós com seus netos, pais com seus filhos, que ao passar e ver o grupo pintando, automaticamente chegam mais perto para nos ajudar.”, relata. Fernando diz que o movimento só é possível, e só toma sentido com o olhar das pessoas sobre ele. “As frases só causam efeito com o olhar de quem passa e lê.”, comenta, afirmando que é impossível sentir-se indiferente ao ler uma frase pintada pelo grupo. “Pode ser bom, pode ser ruim, mas sempre se sente algo ao ler uma poesia.”.

Muito além da tela do computador

 A paixão do tucumano pelo projeto, junto com sua vontade de revalorização da poesia, foi uma das principais razões da expansão do movimento. Atualmente, o Acción está presente em toda a América Latina, na Angola, na Espanha e nos Estados Unidos. Contudo, para Fernando, a difusão do movimento só foi possível devido à ascensão das redes sociais. “Começaram a tirar fotos das paredes de Tucumán, e depois as postavam no Facebook, o que nos deu maior visibilidade.”, diz.

Para o coordenador do grupo, a importância do movimento é muito maior do que alguém que vê uma foto de uma parede pintada por eles e se comove. “A questão é o que acontece por meio disso tudo.”, relata ao mencionar os benefícios que o Acción Poética teve sobre determinados lugares e situações. Um de seus grandes impactos se viu em uma ONG espanhola, cujo objetivo é a prevenção da AIDS.  A organização pediu permissão ao grupo para usar fotos e frases pintadas por eles nos muros, e utilizá-las como embalagem de preservativos a serem distribuídos gratuitamente.

Segundo entrevistada dada por Fernando ao site El Esquiú, o tucumano se surpreende também com os jovens que começaram a pedir para que suas professoras o contatassem para realizar oficinas em suas escolas. O incentivo à poesia, proposto pelo Acción Poética, também esteve presente em uma instituição de ensino para cegos, onde o grupo, em conjunto com os alunos portadores da deficiência, produziram frases em macro braile, para que pudessem ser lidas não mais com o polegar, mas com a mão dessas pessoas. “O movimento vai muito mais além das fotos postadas no Facebook”, insiste Fernando, criador da página do APT, que conta com mais de 188 mil seguidores.

Parede pintada pelo Acción Poética Ramos Mejía na Av. Córdoba – Buenos Aires / Crédito: Gabriela Rodriguez

Parede pintada pelo Acción Poética Ramos Mejía na Av. Córdoba – Buenos Aires / Crédito: Gabriela Rodriguez

 

Estado poético

 

Em novembro do ano passado, estimava-se que cerca de 150 muros da província de Tucumán já teriam sido pintados pelo Acción Poética. A poesia impressa nas paredes despertou não só um estado argentino, como a alma de seus moradores.  Os proprietários das paredes são livres para apagar as frases escritas nelas quando quiser, e se estiverem cansados da mesma poesia em sua casa, podem pedir para que o grupo volte para pintar novos versos.

A quantidade de vizinhos que oferecem suas paredes para que o grupo as transforme em arte escrita nem sempre foi grande. O coordenador do APT, diz que o “Romantismo nos dias de hoje gera suspeita”, e que o Acción Poética é como uma pessoa que vem para abraçar as outras, sem ao menos conhecê-las. “Muita gente no começo suspeitava: Por que me abraça? O que ganha fazendo isso?”, relembra Fernando ao dizer que o grupo é justamente o ato de fazer algo para o outro sem esperar nada em troca. Com o reconhecimento do grupo, e com a percepção de que seus objetivos são genuínos, os vizinhos acabaram interagindo com os membros do Acción Poética, tal como compartilhando suas histórias de vida.

De parede em parede, o vazio das cidades cinza logo é preenchido com frases acolhedoras. Fernando Rios não se cansa de dizer que a palavra tem uma magia e é “uma experiência para ser compartilhada”. O que o difusor do movimento quer dizer, é que o grupo abraça as pessoas com as palavras, de modo que há uma integração entre quem faz e pinta a frase, com aquele que a observa. O Argentino que propagou o movimento pelo mundo, abraçou as pessoas com sua inciativa, assim como fez pessoas abraçarem sua causa. Quem conhece o Acción Poética, ou lê um de seus muros, não tem como seguir indiferente.  Os corações que pulsam todos os dias, sobretudo na América Latina, jamais foram tão tocados – e abraçados – com apenas um olhar sobre as paredes.
É poesia em ação.

Qual é a sua tribo?

Além de promover tal interatividade entre as pessoas e estimular a leitura e produção de poesia, o Acción Poética preza pela preservação da cultura das cidades e dos países onde o grupo está instalado. Um exemplo de tal preocupação pode ser visto no Peru, no Chile e no Paraguai, onde além de serem escritas em espanhol, as frases também apresentam versões em

Parede Quechua/Espanhol – Accion Poética Ayacucho / Crédito: Acción Poética Ayacucho

Parede Quechua/Espanhol – Accion Poética Ayacucho / Crédito: Acción Poética Ayacucho

Quechua, Mapuche e Guarani, respectivamente. “Nós fazemos isso, pois achamos que é esse o lugar onde a cultura local deve estar. Preservar a cultura é extremamente importante.”, diz Fernando que acredita em uma América Latina prejudicada culturalmente por seus colonizadores. 

Brasil em poesia

As poesias começaram a surgir nas paredes brasileiras em fevereiro de 2013. Maria Jose, 23, estudante tucumana de Sociologia e Ciências Políticas da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, conheceu por meio de uma amiga de sua cidade natal o movimento Acción Poética. Maria, com a ajuda de brasileiros, paraguaios e argentinos estudantes da UNILA, fundou o Ação Poética da Tríplice Fronteira (AP3F). A primeira parede foi pintada no bairro de Cidade Nova, em Foz do Iguaçu, com os seguintes dizeres: “Sem poesia não há cidade”, mensagem que todos os grupos do Acción Poética devem escrever em seus respectivos países, por ser como a filosofia do projeto.

O grupo AP3F busca escrever frases nos idiomas português, espanhol e guarani, e propõe uma integração entre as nações da região por meio da poesia. Maria ressalta que “o objetivo é o de inclusão, respeitando todas as formas de cultura e expressões artísticas.”. O movimento ainda não recebeu muita participação dos moradores de Foz do Iguaçu, Ciudad Del Este e Puerto Iguaçu. Além disso, alguns políticos da região já apagaram parte de algumas frases pintadas pelo grupo, provando que a censura continua presente nos dias de hoje. A estudante tucumana diz ainda que “a ideia é fazer da poesia parte da paisagem urbana, colocando mensagens de conteúdo cultural à frente dos outdoors carregados com mensagens publicitárias de incentivo ao consumo”.

Parede pintada pelo Acción Poética da Tríplice Fronteira / crédito: Ação Poética da Tríplice Fronteira

Parede pintada pelo Acción Poética da Tríplice Fronteira / crédito: Ação Poética da Tríplice Fronteira

 

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