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Sylvia Colombo conta como descobriu a América

Jornalismo sem Fronteiras dia 2. (Ou sobre como é importante estar inteiro onde se está)

A jornalista Sylvia Colombo, correspondente da Folha de São Paulo em Buenos Aires, tem uma trajetória das mais interessantes. Ouvi-la contar suas histórias e a defesa apaixonada que ela faz do jornalismo é… apaixonante! Ela foi a entrevistada do dia do programa Jornalismo sem Fronteiras e em uma hora de bate-papo nos contou como descobriu a América, primeiro como historiadora e depois como jornalista. E ainda deixou algumas lições.

Sylvia começou no jornalismo querendo não contar o presente, mas o passado. Sua especialização em História, com um pendor para a da Argentina, falava mais alto então. Era 1993, e o jornalismo ali já dava sinais que estava mudando muito. “A minha escola de jornalismo foi a Folha, onde eu fui trainee. Eu fazia jornalismo na PUC, que ainda tinha uma sala de redação com máquina de escrever, enquanto no jornal a gente já editava a página no computador”, ela conta. Pirmeiro na Folha, passou pela Ilustrada, chegou a ser editora deste caderno, fez correspondência em Londres e, em 2010, chegou à Argentina, pronta para contar as histórias deste lugar a partir de suas raízes de historiadora, das que se criaram lendo Facundo, obra de Domingo Faustino Sarniento, o escritor que virou presidente. Ela cita o livro como fundamental para se compreender a Argentina desde a migração de colônia para nação livre.

Existem duas formas de se compreender a história de alguém ou de algum lugar: A primeira é acompanhar de longe, ler, se inteirar, mas sem estar presente. A segunda, é a que Sylvia confessou, sem expressar isso em palavras, ser uma fervorosa adepta: tem que ir onde o fato acontece, pisar nas ruas, sentir o clima, conversar com as pessoas. Porque é isso que um correspondente faz. Quem escreve sobre uma eleição no Equador, um crime em uma favela portenha, o desaparecimento de adolescentes no México, não pode fazer isso sem estar presente, sob o risco de não chegar a riscar a superfície dos fatos.

Alguém que explica a América Latina para o Brasil – e que, ás vezes, tem de explicar o pandêmonio brasileiro para a América Latina – deve ter boas histórias na manga. E a correspondente as tem. Como quando quase foi presa em Cuba porque estava cometendo o crime que é querer saber o que se passa. E quando passou um mal bocado por se arriscar numa favela argentina em busca da foto perfeita. Ou quando teve um dia e meio para decifrar o Equador e fez uma aposta certeira: ir para a rua. Aliás, ir para a rua é – ou deveria ser – o mantra de todo jornalista e um dos pontos fundamentais do bate papo da manhã. Outras dicas de Sylvia, todas sorvidas com grande apreço pela jovem e ávida audiência: conhecer bem o lugar onde se pretende fixar correspondência. Pesquisar antes, falar com jornalistas locais, e, principalmente, não ser um jornalista internacional que só se mistura com os seus iguais. Fazer amigos e adotar o estilo de vida local é importante.

#VemPraRua

Depois de passar parte do dia aprendendo com quem sabe, a tarde foi usada para pôr em prática o que absorvi. Andar pelas ruas de Buenos Aires sob uma chuva fria é para quem está muito enamorado de sua pauta. E eu estou muito apaixonado pelas livrarias da cidade. Para entender como o mercado editorial não sucumbe em um país em crise, fui às livrarias mais simbólicas da capital. Na Atheneo Grand Splendid, ponto turístico por ser instalada nas dependências luxuosas de um antigo teatro, falei com livreiros e leitores. Sempre interrompido por turistas mais interessados em tirar fotos que comprar livros.

A Atheneo é um parque de diversões para quem ama livros como eu. Mas foi na Libreria Alberto Casares que meu coração ficou, entre tesouros antigos, páginas amareladas e capas de alto relevo. O Sr. Casares é uma figura muito simpática, que, como eu e Sylvia, tem paixão pela literatura. Amanhã a busca continua: serão outras livrarias, outros leitores, outras ruas. Mas a lição de hoje será a mesma, pois foi, entre as histórias que a correspondente dividiu, a que mais ficou viva em mim, horas depois: Para descobrir um país, um jornalista tem que ir para a rua.

eu

(Na imagem, jornalistas encantados com as histórias de Sylvia Colombo. Foto: Jack Moraes)

 

Diário Porteño – Junior Bueno especial para Jornalismo Sem Fronteiras

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