OLIVIA STEED, DE MADRI

Quando vamos à uma cidade como turistas, muitas vezes deixamos de lado elementos muito importantes para compreender aquilo que estamos vendo e vivenciando. Costumamos absorver a cultura de seus povos de forma superficial e estereotipada, sendo marcados pela grandiosidade daquilo que nos é diferente. E com isso, deixamos passar elementos que, ofuscados por toda nossa euforia, se escondem e escondem aspectos até mais importantes do que nosso próprio deslumbre.

Uma grande cidade, seja ela na Europa ou em qualquer outro canto do mundo, carrega consigo histórias, problemas, culturas, crenças, misturas e tradições seculares. E, principalmente, quando falamos em Europa, pensamos em algo milenar, com formações sociais, políticas e culturais que datam de muito antes do século XV[1]. E que carregam em suas entranhas uma formação política e social complexa (ainda mais complexa do que estamos acostumados na América Latina), com territórios consolidados através da sobreposição de povos distintos, e onde todos esses aspectos não podem ser dissociados da formação de seu povo, nem de seu encanto.

Mas além de toda essa profundidade histórica, existe algo que sempre insistimos em esquecer. Entender a grandiosidade do que se está vendo, é também ter que compreender que algo foi perdido, escondido, camuflado ou ficou para trás. Afinal, existe muito por trás das aparências! E me atrevo a dizer que, atualmente, a Europa vive muito das aparências que nós, turistas, construímos sobre ela. E com quase um mês vivendo aqui do outro lado do oceano, passei a perceber que por trás de toda a maravilha que fomos acostumados a ver, existe um imenso universo de problemas.

Vivo na França, mas no caso da Espanha nada disso é diferente. Andar por sua capital é observar um povo marcado por longos períodos de sofrimento, de uma guerra civil que até hoje não foi esquecida pelos mais velhos – com sua longa expectativa de vida, e cujos jovens – que tomam a cidade por todas as partes, buscam compreender o comportamento e a importância que um acontecimento como esses tem nas suas vidas até os dias de hoje (mesmo que na realidade, não o compreendam).

Hoje, viver na Europa é conviver com um medo constante, que os espanhóis também carregam consigo desde o atentado na estação de Atocha, em 2004 – ainda relembrado pelas pessoas em seu dia a dia. Um medo que até descansou, mas jamais dormiu. O medo do terrorismo, de ser um alvo em potencial e que com os recentes ataques em países como França, Alemanha, Bélgica e Turquia, reacendeu um estado de atenção permanente. Uma cidade, que como tantas outras da Europa, incorporou no seu dia a dia policias armados da cabeça aos pés, que encaram à tudo e à todos.

Nos chama atenção também, em meio aos tantos debates sobre à abertura da Europa aos refugiados, uma faixa de boas vindas em frente ao Banco de España e que, como simples faixa, divide tantas opiniões e gera inúmeras polêmicas. Fato que nos faz pensar sobre o quanto o país e seu povo está realmente aberto e receptivo. E o que pensa, de fato, um povo que luta contra o desemprego, que passa por intensas crises políticas e económicas, e vive sobre um grande estado de tensão? Vale lembrar que por toda a parte, se espalham discursos anti-imigrantes, contra a entrada de refugiados e sobre o fechamento das fronteiras europeias, além de tantos outros discursos nacionalistas que tem aparecido por todos os lados.

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E como perceber tantas coisas em uma cidade, estando apenas há dois dias nela? Tenho certeza que estar na França há um mês ajudou a modificar meu olhar e minha forma de analisar uma cidade por outro ângulo. Uma coisa que acostumei a fazer em Paris, procurando entender a cidade “do avesso” – como eu costumo dizer.

Mas nem tudo são problemas, claro! Caminhar por Madrid é uma experiência única e seus bairros são pequenos universos que merecem ser desvendados. Um exemplo é o charmoso Bairro das Letras, um dos preferidos dos jovens e que já se tornou o meu preferido também, que encanta por suas pequenas ruas, seus bares e suas frases gravadas pelo caminho.

Dona de uma vida cultural intensa e rica, que dispõe de atrações para todos os gostos e idades, penso nesse como um de seus aspectos mais relevantes e um de seus principais atrativos. E frente às intensas discussões no Brasil sobre as mudanças na grade curricular dos nossos jovens, onde se propõe a retirada de disciplinas como sociologia, filosofia e artes, destaco a grande importância que (na minha perceção) a cultura tem na formação das crianças espanholas.

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Por fim, o que realmente existe por trás do país que possui o 23o melhor IDH do mundo? É isso que eu espero descobrir!

[1] 1469 – Unificação do Reino Espanhol

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