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Sim, Nós Podemos

Sim, nós podemos

Não, não estamos fazendo referência à famosa frase da campanha eleitoral de Barack Obama, apesar de parecer, mas sim a algo que nos disse Álvaro López de Goicoechea, correspondente internacional em Bruxelas, na Bélgica, de DSC_67372008 a 2015 e atual subdiretor da editoria internacional da RTVE, com quem conversamos na tarde de terça-feira.

Era 17h30 da tarde quando nos encontramos todos na sala de reuniões da diretoria da RTVE, a maior rede de rádio e televisão da Espanha. O dia havia sido para produção das pautas e muitas histórias bacanas foram surgindo. Seguindo a dica que haviam nos passado os correspondentes que encontramos na FAPE, uma parte do grupo se encaminhou para a Iglesia de San Antón (Igreja de Santo Antônio), onde estava sendo realizada a festa anual da igreja em homenagem a seu santo padroeiro.

 

Mas não é apenas a festa que fez dessa igreja interessante. A San Anton foi fundada e é comandada pelo padre Ángel com o intuito de ser uma igreja que acolha os mais de 2000 mil sem-teto que vivem nas ruas da cidade. Aberta 24 DSC_6639horas, a igreja disponibiliza abrigo, comida e até televisões e rede wi-fi para aqueles que entram (outra peculiaridade dessa igreja é que ela é super tecnológica, até a confissão é feita por Ipads, imagina!). Panfletos pela igreja fazem propaganda do restaurante Robin Hood, criado pelo padre Ángel e inaugurado no fim do ano passado, e que fica a poucas ruas da igreja para complementar sua proposta: o restaurante oferece comidas a preços baixíssimos para quem não pode pagar e toda a verba recolhida durante o dia é usada para financiar refeições gratuitas para 200 moradores de rua à noite.

Ou seja, apenas a igreja e seu padre já são uma mina de fontes e pautas, além de valer a pena por sua beleza e pelo aspecto convidativo do lugar. Na terça-feira, mais uma curiosidade: durante todo o dia da festa de Santo Antônio, o padre Ángel e demais membros da igreja estavam abençoando os animais de estimação das pessoas, e de longe já se podia avistar a fila de donos com seus cachorros esperando para entrar. Caminhar por entre os bancos da igreja era desviar não só de pés, mas de patas e coleiras, o som de latidos ressoando entre as músicas e orações.DSC_6673

Entrevistas feitas, contatos anotados, fotos tiradas, vídeos gravados, informações recolhidas, não apenas lá na igreja, mas em todas as outras pautas que estão sendo desenvolvidas ao longo do programa, aí sim nos encaminhamos para a RTVE para nos encontrarmos com Álvaro.

De fala rápida, mas apaixonada, nos contou sobre como foi ser correspondente na sede de poder da União Europeia em uma época em que a Europa passava não apenas por uma, mas por duas crises: a econômica e a dos refugiados. “É como se você fosse correspondente de 28 países ao invés de um, é uma loucura”, nos disse.

 

É uma cobertura que demanda muito conhecimento político e econômico, coisa de que Álvaro não entendia quase
nada antes de ser escalado para o trabalho, e que teve que ralar muito para aprender e se acostumar aos termos e jargões e, também, desconstruir algumas ideias sobre o funcionamento interno da União Europeia. A primeira coisa que aprendeu em Bruxelas é que não importa o quanto achamos que sabemos, na verdade não sabemos nada, e a segunda é que precisamos sempre ler e nos informar sobre tudo para entender minimamente as coisas e poder passar uma informação, principalmente sendo correspondentes. Nós literalmente “caímos de paraquedas” nos lugares mais distantes do planeta e precisamos nos virar para procurar as informações e aprender.

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E não há conhecimento inútil! “As coisas que aprendemos e que achamos que não vão servir para nada podem ser as coisas que vão acabar salvando nossa vida um dia,” brinca Álvaro, lembrando de várias situações em que uma notícia de última hora aparecia e a emissora pedia para que ele entrasse ao vivo comentando o ocorrido, coisa que seria impossível se ele não entendesse o contexto em volta da notícia, seja algo político ou uma fofoca em torno dos membros da realeza dos países da região.

Álvaro fala com paixão e saudade de seus tempos de correspondente, pelos quais chegou até a receber um prêmio durante a XXI Premiação de Jornalismo Europeu. De volta a Madri há pouco mais de um ano, ele agora usa toda sua paixão e experiência “do outro lado da mesa” selecionando e coordenando a equipe de correspondentes internacionais da RTVE. São 15 profissionais, locados em cidades estratégicas ao redor de todo o mundo, da Europa, aos Estados Unidos, América Latina, Ásia e Oriente Médio.

Quando se trata de selecionar esses profissionais, ele procura primeiro a mesma coisa que tem de sobra: paixão pela profissão. Algo essencial, pois a vida de correspondente é muito dura, são muitas horas sozinho em um país estranho, tendo de fazer tudo você mesmo, sem nenhum apoio, sem ninguém para corrigir seus erros ou celebrar suas conquistas. Muitas horas de trabalho duro, que exigem disposição e comprometimento. O primeiro sinal que a pessoa não serve para o trabalho é pedir a realização de uma matéria e ouvir um não, o correspondente tem sempre que manter em mente o “Sí, podemos”, que indicamos já no título do artigo.

DSC_6697“O jornalismo é uma profissão muito bonita, mas também é muito vocacional”, afirma Álvaro. A pessoa precisa saber se comunicar bem tanto na escrita quanto oralmente, precisa saber construir as reportagens, contar histórias reais, superar as dificuldades e ser flexível, enfrentando as situações pelas quais passa sem perder a calma. E não é necessário nenhum poder especial para isso. “Acredito que o gênio não ultrapassa o trabalho duro, tudo isso é técnica, é formação e experiência”, continua ele.

Esse é o lado tanto bom quanto ruim para os atuais correspondentes da RTVE em ter um chefe que já esteve do outro lado. Ele sabe o que pode e o que não pode ser feito, sabe se o “não” é justificável ou não, e os cobra por estes padrões, mas pelo outro lado ele também é capaz de ajuda-los e dar dicas quando enfrentam uma situação para a qual não estavam preparados.

“Meus correspondentes são meus olhos naquele país, eu preciso ser capaz de ver tudo através deles, se eles não têm essa capacidade, se não passam essa segurança, então esse não é o trabalho adequado para eles”.

Por fim, Álvaro nos orienta que ser correspondente é um trabalho que exige muita humildade e equilíbrio emocional, primeiro porque não importam seus méritos no país de origem, quando você chega como correspondente ninguém te conhece e você é o último do último na fila para receber qualquer informação até formar seus contatos, e segundo porque podemos passar por situações assustadoras e estressantes, como cobrir um conflito ou uma situação de violência, e não podemos nos deixar abalar, precisamos nos blindar um pouco para poder fazermos nosso trabalho sem desmoronar.

E como encontramos esse equilíbrio mental? Aí, Álvaro já não sabe.

Nos despedimos com um certo pesar por todas as histórias que não pudemos ouvir, mas o dia estava longe de acabar.
Acompanhados por Oscar María Ramos, do departamento de relações públicas da RTVE, fizemos um tour por toda a emissora, passando pelos estúdios, pelas salas de redação e edição e até pelo estúdio da TVE 24h, onde aproveitamos uma brecha na gravação por conta da passagem de uma matéria para entrar e conversar com uma das apresentadoras do canal, Ana Belém Roy, que nos contou que já trabalha na emissora há 20 anos, desde que fez estágio lá. Ela falou sobre a programação da tv 24h, nos mostrou como funciona o sistema que controla o teleprompter usado nas transmissões e que é operado por eles mesmos e, de quebra, ainda nos deu dicas de como podemos conseguir um estágio na RTVE caso venhamos estudar em Madri (caso da participante Rafaella, por exemplo). Nada mal, não?

Fim da visita, volta ao hotel e, depois de uma curta reunião para trocarmos nossas impressões e experiências do dia e falarmos sobre as pautas, nos dispersamos para voltar ao trabalho.

Já chegamos à metade da nossa imersão em Madri, mas ainda temos muita coisa pela frente e muitas oportunidades que vão surgir, e para as quais não vamos dizer não.

Amanhã voltamos!

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