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Segunda-feira – 15 de julho

Sob um amanhecer que despertou tímido, começamos o primeiro dia de trabalhos em Buenos Aires. Parece que Nossa Senhora de Luján – padroeira da Argentina e de sua capital – se alegrou com nossa presença e nos agraciou com um dia lindo. O sol brilhou para nenhum nativo dos trópicos botar defeito e levou embora o friozinho da manhã. Mesmo assim, para quem não está acostumado com essas temperaturas tão baixas, foi estranho sair com tantas luvas e cachecóis, e sentir o ar gélido da capital argentina. Todos se apresentaram com pontualidade inglesa. O café-da-manhã foi embalado por conversas sobre filmes, pautas e os programas que tínhamos pela frente.

Explorando a cidade

Nada melhor para nos inspirar do que fazer o reconhecimento do território. Partimos. Um tour completo pelos pela cidade. Mas não aquele passeio rápido em que se percorre rapidamente os principais pontos da cidade para tirar uma foto e depois postar no Facebook… Nada disso. Nosso passeio foi a pé. Quatro horas a pé!!! E uma coisa a gente garante: foi muito mais proveitoso. Caminhar pelas ruas da cidade nos dá uma outra visão: sentimos tudo de perto, os cheiros, os barulhos, algumas ruas meio esburacadas (mas totalmente planas, o que surpreendeu muitos de nós), esbarramos nas pessoas e nos deparamos com muitos vendedores ambulantes. Muito mais interessante do que um passeio sobre quadro rodas com um vidro te separando da realidade. A caminhada fez com que nos aquecêssemos e observássemos com calma as peculiaridades do lugar.

Explorando o teritório

Explorando o teritório

De cara, percebemos vários detalhes que para qualquer não-jornalista poderia passar despercebido: mensagens talhadas em estátuas, pichações políticas ou arquiteturas multicentenárias. Um que não passou despercebido foi o Obelisco. Era praticamente gritante sua presença, quando cruzamos a Avenida Nove de Julho. Não que o Obelisco seja uma novidade. É um ponto turístico obrigatório para todos que visitam a cidade por estar estrategicamente localizado e todas as ruas daquele interim parecem ter como cabeceira o monumento. Mas, poucos sabem seu real significado – que fora construído sob uma igreja, onde se hasteou a bandeira argentina pela primeira vez.

Sem maiores pausas para fotos ou demais “turistices”, seguimos para o hostel onde encontraríamos nosso guia. O lugar tinha um clima bastante jovem. Nos sentamos, para esperar, no que seria um bar/refeitório/bilhar/área de convivência, bastante aconchegante. O Nacho se apresentou (pensei que havia entendido o nome dele errado, mas em uma rápida enquete que fiz com os colegas vi que era realmente seu nome; curioso. Depois descobri que é um apelido comum em espanhol). Ele começou nos dando, ali mesmo, um panorama histórico e político da Argentina; mostrou dois jornais: Clarín (um dos jornais mais importantes da Argentina) e o El Argentino (um jornal de distribuição gratuita no metrô) e comentou sob a linha editorial de cada um; concluímos que a imparcialidade não necessariamente é pré-requisito na mídia local, e que alguns “periódicos” quase se confundem com panfletos de suas causas. Parece que a mídia daqui é bastante maniqueísta: ou se está de um lado, ou de outro; ou é do bem ou é do mal… Não há meio termo, nem mesmo existe um equilíbrio. O que nos faz refletir um pouco sobre a imprensa brasileira…

Após a teoria, partimos para a prática. Nacho nos levou às ruas e começou a nos apresentar o centro histórico da cidade portenha. Buenos Aires parece coligar um passado glorioso aos traços modernos, que deixaram a cidade com um ar caótico de metrópole do século XXI, mas que não deixou de ser charmosa. Nas ruas de compras, até nos ambulantes era possível perceber cordialidade. As estátuas estão por toda parte. Cada uma com seu significado particular. Muitas tinham relação com as pautas das jornalistas, que ficavam atentas às explicações do nosso guia. Mesmo que não tivessem tanto a ver assim, era um momento impar que valia ser registrado. Assim, além das fotos, houve quem gravou todas as explicações do Nacho para poder produzir a reportagem.

Em um convento já desativado, que hoje dá lugar a uma loja de souvenir, pisamos no local de fundação da cidade. Os casos que Nacho contava mostravam o quão duras foram as batalhas do passado.

Descobrimos que a Casa Rosada era, originalmente, um forte e fora pintada com sangue (calma, de vaca) misturado a cal. A explicação é que a solução era a que protegia da umidade vinda do rio que, naquele momento quase chegava às portas do edifício. Atualmente, é a sede de governo e decidiram deixar as vaquinhas em paz e a pintam com tinta mesmo. O cerne do Poder argentino é cheio de significados próprios e peculiaridades. A começar pela sua transparência, pelo menos do prédio…: aos fins de semana, a presidente vai descansar, mas seu escritório fica a disposição de qualquer um que queira visitá-lo – é bom ela não esquecer nada particular lá. Além disso, para toda a Praça de Maio saber que sua líder-maior está em casa, uma mini-bandeira é hasteada sob a principal para indicar sua presença.

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Casa Rosada

Curioso também é a admiração dos argentinos por Don Diego Maradona. “El Pibe de Oro”, como o chamam, é um dos poucos não-políticos que falou à população do famoso balcão da Casa Rosada, onde Evita discursava para “seus” trabalhadores. Mais que um excepcional jogador; ele é considerado um exemplo de rebeldia, superação, uma junção de todos os valores apreciados pelo seu povo. Diante de tantas informações, os aspirantes a correspondente clicavam, gravavam, escreviam e comentavam em um ritmo quase frenético.

O tour ainda passou pelo museu Evita, a figura mais bem quistos da Argentina. O local é a sede da Central Geral dos Trabalhadores (CGT). As garotas se surpreenderam com o estado de conservação do local, muitos móveis e cômodos são os originais. Em uma fala um tanto quanto empolgada, mas nem tão isenta assim, um outro guia, do museu, contou todas as histórias que cercaram o casal que incitou os trabalhadores a lutar. Mesmo aos 83 anos, ele era o entusiasmo em pessoa, contando com emoção os dias vividos por ele durante o governo Perón. E falava para aquela dezena de pessoas sentadas, no chão, aos seus pés, como o General discursava em seu púlpito. Nenhum outro guia parecia tão realizado com seu trabalho quanto aquele senhor. E, apesar de contar a mesma história várias vezes por dia, ele se emocionou e seus olhos marejaram.

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Guia do Museu Evita

Os cliques nas câmeras continuavam à medida que o passeio se aproximava do fim. Ainda deu tempo de conhecer um centro clandestino de detenção que funcionou durante a ditadura militar. E, terminamos em uma pracinha aprazível, em San Telmo, com arquitetura clássica, ruas ladrilhadas e um coreto cercado de restaurantes.

Já nos aproximávamos da metade da tarde quando chegamos ao fim da visita que revelou uma Buenos Aires ainda mais emblemática do que imaginávamos. Os quilos de bagagem cultural adquiridas pesavam. Estávamos exaustos! Mas, também serviram de combustível para a prosa até a volta ao hotel.

Organizando os próximos passos

Sempre que nos desligamos da cidade, nos lembramos de nossas pautas – apesar de que, na maioria dos momentos, os dois se desenrolam juntos. Assim, vinha a necessidade de nos conectar, publicar as impressões do que víamos e checar o contato de fontes para as matérias. Com isso, o critério de desempate para a escolha do restaurante era a qualidade de seu wifi. Isso mesmo! A comida é um mero detalhe!

O grupo se reunia, mas duas das meninas – Teresa e Deborah – se atrasaram: o taxista se aproveitou para pegar o caminho mais congestionado em troca de alguns pesos a mais. Mas mesmo assim, o preço dos táxis por aqui são muito mais baratos do que se movimentar de qualquer lugar de São Paulo em direção ao centro da cidade. Já a Fernanda, para fazer uma entrevista, ficou pela pracinha mesmo e apesar de sozinha, voltou com as aspas de sua matéria.

Fernanda ouvindo seu entrevistado, Nacho

Fernanda ouvindo seu entrevistado, Nacho

O sol já se punha quando o restaurante do hotel nos serviu de sala de reunião para afinarmos as pautas. Apesar de ser apenas o final do primeiro dia da viagem, muito já tinha sido idealizado e, mais importante, muito já havia saído do papel. Os assuntos para novas matérias surgiam incessantemente e algumas das meninas já estavam na sua terceira pauta. Sim. Aqui o dia tem 48 horas!!! Além de pensar nas próprias, elas sugeriam opções para a das outras, ou ainda se empolgavam com a ideia da colega e decidiam se juntar à ideia. A reunião já se confundia com uma conversa informal e o tempo disparou. Quando percebemos, já estávamos ali há mais de duas horas. Com a noite veio o tom dourado que ilumina as calles e dão um aspecto vintage, que se confirma com o conjunto arquitetônico e urbanístico análogo.

A partir dali, cada uma teria o resto da noite para administrar seus afazeres. Embora sejam tão jovens, mostram responsabilidade para concluir sozinhos seus trabalhos. Assim, uns partiram para novas entrevistas, alguns foram jantar, outros foram procurar algum café por perto que tivesse WiFi (afinal, no hotel estava BEM complicado acessar a internet e fazer qualquer tipo de pesquisa) e outros se recolheram e encerraram suas atividades por ali. O que o dia teve de movimentado, teve de produtivo. E foi só o primeiro. Melhor deixar bloquinho e caneta no criado-mudo.  Amanhã tem mais.

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