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Samy Adghirni: ‘É muito difícil se manter neutro diante de uma criança queimada numa explosão’

Ex-correspondente da Folha de S. Paulo no Irã fala sobre a experiência de cobertura de guerra

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Tunísia, Líbia, Egito, Síria, Irã, Marrocos, Iêmen, Israel, Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jordânia, Afeganistão e Iraque. Esses foram os países por onde o jornalista passou fazendo reportagens numa das regiões mais turbulentas do mundo – e, mais recentemente, no “olho do furacão” com a chamada “Primavera árabe”.

De malas prontas para encarar seu próximo desafio – o posto de correspondente na capital da Venezuela, Caracas – Samy Adghirni, de 35 anos, conversou com estudantes e jornalistas sobre sua experiência ao cobrir conflitos armados na região do Oriente Médio e do norte da África. No encontro, mediado pela jornalista Claudia Rossi, Adghirni também detalhou sua passagem pelo Irã, onde esteve baseado por mais de dois anos. Nesse período, além das matérias enviadas à Folha de S. Paulo, manteve o blog Um brasileiro no Irã – seu período no país persa gerou um livro com o sugestivo nome Os iranianos.

Experiência e desafios

“Esqueci de ensinar ao meu filho o que ensino aos meus alunos da Universidade de Brasília: O jornalismo é uma profissão altamente letal. Cuidado!” Essas são as palavras de Zélia Leal Adghirni, jornalista e mãe de Samy, em um texto produzido por ela no momento em que o filho se embrenhava pelo ainda incerto destino da revolta no Egito, caminho da derrocada do ditador-presidente Hosni Mubarak.

As preocupações da mãe não eram exageradas: haviam invadido o quarto de hotel onde Adghirni estava hospedado, revirado seus pertences e levado equipamentos de trabalho, numa clara tentativa de intimidação, além, é claro, dos conflitos sangrentos que aconteciam na capital, Cairo. “Guerra é isso. Ninguém vai ser bonzinho com você”, explica Samy.

Tunísia, Líbia, Egito, Síria, Irã, Marrocos, Iêmen, Israel, Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jordânia, Afeganistão e Iraque. Esses foram os países por onde o jornalista passou fazendo reportagens numa das regiões mais turbulentas do mundo – e, mais recentemente, no “olho do furacão” com a chamada “Primavera árabe”.

E pensar que Adghirni quase sepultou seu sonho de jornalismo. Apesar de nascido na França, não possui cidadania francesa, reservada apenas àqueles que tem algum parente de sangue. Filho de mãe brasileira e pai marroquino, desde cedo transitava pelo universo árabe (é fluente no árabe falado na região do Magrebe, do qual fazem parte Marrocos, Sahara Oriental, Tunísia e Argélia). Decidiu que seria diplomata. Entretanto, um dia, teve uma “epifania” e, vendo o trabalho jornalístico desenvolvido pela mãe, resolveu se aventurar pelo mundo das redações. “Jornalismo não estava no script. Estava debaixo do meu nariz, mas eu não via”, conta.

Estudou Jornalismo nas escolas de Lannion e de Grenoble, na França. Atuou como freelancer na Europa, mas, depois dos atentados de 11 de setembro, os trabalhos minguaram no Velho Continente. Sem poder ser contratado por jornais franceses por não ter a cidadania do país, resolveu voltar ao Brasil, em 2002. Achou que por ter estudado fora do país as portas das redações estariam escancaradas. Mas não foi bem assim. “Tentei os programas de trainee da Folha, do Estadão e da Abril e não passei em nenhum. Daí naquele ano, desisti do jornalismo. Virei tradutor de português-francês, intérprete. Com a autoestima no chinelo.”

Já no final de 2002 sua sorte começou a mudar. Abriu uma vaga de repórter no Correio Braziliense para Cidades. “Olha como o destino ajuda. Não cheguei a trabalhar nenhum dia em Cidades, porque no dia em que eu fui assinar o contrato, abriu uma vaga para Mundo”, lembra. “O Correio me escalou como setorista do Itamaraty.” Lá, permaneceu por cinco anos. Até que apareceu uma oportunidade na Folha de S. Paulo.

“Não estava muito a fim de mudar, mas fui passando nas etapas. Pedia folga lá do Correio e vinha escondido para São Paulo. Depois eu descobri que o meu maior concorrente era um colega do Correio”, relembrou aos risos.

Em 2004, ainda pelo Correio Braziliense, visitou a primeira zona de conflito acompanhando parlamentares à Palestina. “Caramba, estou aqui no olho do furacão. E era uma época muito tensa, quando o Hamas ainda conseguia fazer atentados em Israel.” A experiência prática serviu para configurar o reconhecimento de armas, tanques, além de observar caças e helicópteros de combate em primeira mão, atuando no conflito.

Cinco anos depois, viaja ao Iraque, por intermédio do contato do vice-ministro do interior do país, que visitava o Brasil. O funcionário iraquiano simpatizou com o jornalista. Travaram o seguinte diálogo:

– Ministro, se eu quiser ir para o Iraque, o senhor me consegue um visto?

– Consigo.

– E uma entrevista com o primeiro-ministro, o senhor consegue?

– Consigo sim.

Contato arranjado e chefia informada, lá se foi Adghirni ao país árabe.

Correspondência de guerra é antagônica ao glamour

“Gostar, eu gosto, claro. Se não, não estaria fazendo isso, mas de glamour não tem nada”, diz taxativo. E exemplifica com a guerra civil na Líbia, que levou à derrubada do ditador Muamar Kadafi: durante a queda de Trípoli, capital do país, a cidade passou uma semana sem água. “Ficamos cinco dias sem tomar banho e sem escovar os dentes e sem água para beber. Agora, vocês imaginem o hotel com 150 jornalistas estrangeiros sem água. No primeiro dia onde as pessoas fazem suas necessidades? E no segundo dia? E no terceiro?”, recorda com incômodo. “E não tinha comida também. Só tínhamos uns biscoitos de sal e umas latas de atum. O glamour é um mito. Você passa fome, vê coisas absolutamente pavorosos. Condições de trabalho muito adversas, um estresse intenso.

Fotografia de Goran Tomasevic. “Personagem lendário das coberturas de guerra. Grande fotógrafo da Reuters, um sérvio completamente louco. Eu já vi ele nas dunas: ataques, mísseis pra todo lado, todo mundo saindo correndo, se escondendo e ele lá, de pé, olhando; daí ele pegava a máquina e ‘pá pá’. É um cara que abstrai, sublima o medo. Então alguém me explicou que ele viveu a guerra dos Bálcãs desde pequeno, viu atrocidades no quintal da casa, então ele está meio imune.”

Novo rumo

Desligar-se do Oriente Médio não é fácil. E, agora, a situação é outra. O conflito trocou de roupa. O que fazer? “Nunca estive na Venezuela, não tenho amigos venezuelanas. Então o que me resta? Ler. Entender economia, política, contexto. Eu não tenho medo de Bagdá, tenho medo de Caracas, porque eu não conheço”, expõe o correspondente que no próximo domingo voará para o país do falecido Hugo Chávez e do fragilizado Nicolás Maduro em busca de notícias.

Adghirni deixa à plateia alguns sábios conselhos. “A nossa profissão é dinâmica, a gente tem que ser polivalente. O talento só não basta. Tem que lutar. A situação é adversa. O ambiente das redações é muito competitivo.”

E fecha com uma frase recheada de complexidade e bula para o jornalista:

– O conhecimento está nos livros. Preparem-se intelectualmente.

Ampolas

-> “Pensar e decidir rápido fazem a diferença entre a vida e a morte”.

-> “O medo você tem que administrar. Ele é útil, porque faz você manter a cabeça no lugar.”

-> “O Robert Capa, grande fotógrafo de guerra, dizia assim: ‘se sua foto de guerra não está boa o bastante é porque você não está perto o bastante’”.

-> “Fotógrafo e cinegrafista se arriscam mais.”

-> “Se quebrar a perna numa cobertura dessas você está ferrado.”

-> “Nunca brigue com os americanos. Eles que tirarão você do lugar se você precisar.”

-> “Risco: Cálculo refeito a cada minuto.”

-> “Se você está lá tem que fazer render. Se eu vou, vou. Seja o que Deus, ou Alá, quiser.”

-> “Tentar não pirar, não só com as situações de perigo, mas com as situações de dor e sofrimento que você vê ali. É muito difícil se manter neutro diante de uma criança queimada numa explosão e que acabou de perder os dois pais. E a criança te pede dinheiro. E os enfermeiros pedem alguma ajuda sua, pedem que você faça matéria pra avisar sobre aquilo. E não pode, porque se não você cria um vínculo emocional com o objeto. Isso é fácil falar.”

-> “Você fica num estado de adrenalina tão alto, que você fica sem comer, sem dormir, mas quando você sai do seu contexto de guerra você desaba fisicamente, emocionalmente.”

-> “Cheiro de guerra é muito pesado.”

-> “Tem que ter inglês fluido, ágil, e é sempre bom saber uma segunda língua.”

-> “Você às vezes deixa de fazer coisas pra investir numa pauta que é incerta.”

-> “O barato dessas coberturas são as histórias exclusivas.”

-> “O cenário ideal é ter uma equipe em cada lado do conflito.”

-> “Tem que pensar no que eu quero dizer com essa matéria, qual o significado. Nunca é preto no branco, sempre tem que ter uma explicação, um contexto.”

-> “Tem que pensar na dignidade das pessoas. O sensacionalismo é um instinto que nós todos temos.”

-> “Quanto mais longa uma cobertura mais ela se parece com uma rotina.”

-> “A guerra é, antes de tudo, um estado de espírito. Ela afeta a cabeça das pessoas, mas a vida prevalece.”

-> “É caríssima uma cobertura de guerra. Pode custar 600, 700 dólares por dia.”

-> “A cobrança do jornal está implícita, e eu me cobro muito.”

-> “O Irã é uma Suíça comparado aos seus vizinhos.”

-> “Ser correspondente é emergir no país.”

-> “Você tem que saber pra onde está indo.”

-> “De todas as coisas que eu vi a única que me tirou o sono foi o enforcamento em praça pública.”

-> “Os iranianos tem a arte de dizer que um gato não é um gato.”

-> “Às vezes você fica no dia a dia e não vê algo que pode ser interessante.”

-> “A vida faz parte do trabalho, isso aumenta seu contato com o país e aumenta seu network.”

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