HELENA CENEVIVA, DE BUENOS AIRES

A manhã mais parecia noite quando, às 6h, levantei para tomar banho. Queria reler minhas anotações sobre a Argentina para garantir que fosse ter propriedade na hora de pensar e falar sobre o assunto. Tudo estava silencioso e o dia ainda estava escuro quando recolhi minhas coisas para sair pela porta. Encontrei o grupo às 8h na sala de reuniões de um hotel bem perto de onde estou. O caminho foi curto, poucos minutos à pé em um vento agradavelmente gelado. Nos reunimos para anotar os avisos iniciais, compartilhar pautas e conversar um pouco sobre pontos importantes sobre a história argentina.


Depois do almoço, nos dirigimos ao Clarín, jornal argentino fundado por Roberto Noble em 1945. De grande repercussão nacional, também tem projeção internacional importante, encontrando-se na posição de terceiro veículo impresso de maior circulação na língua espanhola.

Pudemos conhecer a redação do jornal e conversar com Juan Marcos, jornalista responsável pela produção móvel do Clarín. Com uma forma bastante piorneira de enxergar as novas formas e necessidades de comunicação, reiterou constantemente a necessidade de experimentar. Em uma área que se desenvolve e se transforma a velocidades difíceis de se acompanhar, colocou o poder do sucesso nas tentativas e nos erros.

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Juan Marcos, editor de plataformas móveis do Clarín desde 2015, conversou conosco sobre as possibilidades e as necessidades dessa nova tecnologia no jornalismo. Foto: acervo pessoal.

Outro dos pontos para mim mais interessantes levantados por Juan foi a questão da qualidade dos cliques. No mundo digital, o alcance não necessariamente é a prioridade: diferente do que diz o senso comum, pode ser mais benéfico investir um público mais interessado do que optar por massas de cliques rápidos. Nesse sentido, é possível até realizar uma espécie de curadoria dos públicos digitais: selecionando grupos específicos, os conteúdos e suas formas assumem tal forma que são capazes de reduzir significativamente as taxas de rejeição.

Depois de inúmeras anotações e reflexões (muitas delas que certamente levarei a meu trabalho em São Paulo), nosso grupo se separou. Parte de táxi e a outra parte em direção ao metrô, íamos seguir com as atividades do dia. Ainda era cedo, então, à pé, fomos explorar a cidade. Em uma longa caminhada desde o Clarín, passamos pelo charmoso bairro San Telmo até a Plaza de Mayo. Conhecemos o exterior da Casa Rosada, uma espécie de casarão de cor curiosa toda protegida por grades de metal pichadas com palavras de ordem.

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Caminhamos pela Nove de Julho, avenida que impressiona por seu cumprimento e sua largura. Ampla, decorada por um grande obelisco e por duas grandes letras “BA” (iniciais da cidade) em alguns momentos cheia de outdoors, parecia uma espécie híbrida de grandes vias de diferentes partes do mundo. Ouvindo a buzinas incansáveis e sendo atropelados por portenhos que tinham pressa, a volta para nossas acomodações nos ajudou a compreender mais um pouco do portenho que estamos tentando conhecer.

Com o saldo do final de dia, dentre tantas novidades, sei que duas delas me saltaram aos olhos com mais força. Em primeiro lugar, me impressionou o caráter político dos moradores de Buenos Aires. Com cartazes e impressões de protestos das ruas aos corredores da redação, com lojas de rua que homenageiam Perón ou com centros de apoio a Cristina Krichner, as mais distintas manifestações políticas parecem ilustrar o exercício cidadão diário dos argentinos.

Nesse sentido, não deveria me impressionar com as homenagens públicas às vitimas da ditadura militar argentina (1976-1983), mas não pude deixar de me surpreender. Tanto aqui quanto no Chile (mais especificamente na capital, Santiago, onde estive há poucos dias), o passado militar, longínquo ou não, deixa marcas no espaço físico e reforça um imaginário de lutas democráticas.

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Entre a Casa Rosada e o Congresso Nacional, a Praça de Maio é um local eminentemente político. Palco de inúmeros protestos, é símbolo da luta das abuelas de Plaza de Mayo e de ex-combatentes da Guerra das Malvinas (1982). Foto: Acervo pessoal.

Ainda que algum distraído possa não ver os lenços pintados no chão em homenagem às avós da Plaza de Mayo, a localização estratégica da pequena estátua do lenço branco faz com que seja mais difícil ignorar a homenagem. Para ver bonita paisagem da alameda arborizada com a abóboda do Congresso Nacional ao fundo, é preciso colocar-se ao menos ao lado dessa peça central.


A moral do dia de hoje, quem diria, já teria sido enunciada logo no começo. Durante a tarde, Juan Marcos nos dissera: é preciso experimentar. Se à época da mais recente crise argentina o povo compartilhava um desejo pouco esperançoso (“¡Que se vayan todos!“), eu espero poder introduzir um novo mote: ¡Que se experimente a todo!

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