Saber como usar dados para reportar histórias continua sendo uma habilidade em demanda para jornalistas em todo o mundo, disseram especialistas no 12º Congresso de Jornalismo de Investigação da Abraji. O evento contou com mais de 10 oficinas, painéis e palestras sobre os últimos desenvolvimentos no jornalismo de dados, bem como muitos conselhos para aqueles que estão começando neste campo.

“Mesmo em países onde é difícil obter dados decentes, há pessoas explorando, encontrando alguma coisa”, explicou Simon Rogers, editor de dados do Google. “Todo governo no mundo tem dados, até mesmo o Afeganistão.”

Marco Túlio Pires, líder do Google News Lab para o Brasil e a América Latina, disse que os jornalistas têm a responsabilidade de explorar bases de dados de código aberto, buscando histórias que de outra forma não seriam evidentes, e ao mesmo tempo pressionar o governo para disponibilizar mais dados online.

“Não esperamos que nenhum cidadão comum vá para estes bancos de dados, mas os jornalistas estão sendo pagos para isso”, disse ele. “Como jornalistas, não podemos desistir, temos que pressionar e pressionar o governo para liberar [conjuntos de dados]. Esse é o nosso trabalho, certo?”

Marco Túlio recomendou que os interessados ​​em começar no jornalismo de dados deveriam fazer cursos online para aprender o básico. Organizações como a Internews na África e na Ásia, a Escola de Dados, o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, a Universidade de Hong Kong e outras no Oriente Médio podem ser pontos de partida úteis para encontrar esses cursos.

“Se um jornalista não tiver acesso fácil à internet, será um pouco mais complicado, mas algumas organizações oferecem cursos itinerantes”, afirmou Marco Túlio. “A Escola de Dados e Internews são dois exemplos. Eles vão para lugares como o Afeganistão e a Somália para treinar jornalistas locais.”

Marco Túlio também enfatizou que conhecer os conceitos básicos de codificação está se tornando uma necessidade para os jornalistas que trabalham com dados.

“Eu recomendaria Python porque é fácil de aprender, mas pode ser qualquer linguagem, seja JavascriptRuby ou C++“, disse ele. “O jornalista não precisa ser um especialista, mas se sabe falar com o computador, vai ter uma autonomia sem precedentes.”

Um exemplo de usar a codificação para conduzir uma investigação é um aplicativo de 2013 da ProPublica, que analisa o conteúdo que mais provavelmente será censurado no site de mídia social chinês Sina Weibo. Uma equipe da ProPublica criou um software que monitorou 100 contas do Sina Weibo durante um período de 12 dias e descobriu que mais de 5 por cento de suas postagens foram excluídas pelos censores.

Este é o tipo de matéria que seria impossível de fazer se os jornalistas não soubessem como criar e depois usar o software necessário, disse Marco Túlio.

Expandir o leque de matérias que os jornalistas podem buscar é uma das razões pelas quais é tão crucial para as organizações de notícias investirem no treinamento de jornalismo de dados, ele argumentou. Fazer isso “vai colocar o jornalismo dentro da revolução tecnológica”, acrescentou.

Saber como codificar também pode ajudar jornalistas a enfrentar projetos com conjuntos de dados maciços (o Excel pode incluir mais de um milhão de linhas de dados, mas isso pode não ser suficiente para algumas matérias). A codificação também pode ajudar jornalistas a automatizar processos repetitivos, como baixar inúmeras planilhas.

“Eu não tive instrução de codificação”, disse Natália Mazotte, cofundadora do Gênero e Número, um site de notícias brasileiro que usa dados para explorar a desigualdade de gênero. “Mas aprender a codificar é o mesmo que aprender um novo idioma. Isso leva anos, mas se você pelo menos entender o que o código está dizendo para você, ótimo. Muitas pessoas desistem no primeiro passo.”

Jornalistas devem tentar “entrevistar” seus conjuntos de dados exatamente como fariam com uma fonte humana, recomendou Natália. Antes de decidir se você vai contar sua história através de mapas, gráficos ou outros tipos de visualizações, é crucial que os jornalistas compreendam primeiro a história que querem contar, disseram outros especialistas.

“Você deve entrevistar seu banco de dados primeiro”, disse Marco Túlio. “Quando você entende as respostas, esse é o ponto em que vai pensar: ‘Como eu vou contar essa história?'”

E se você ficar atolado, procure os especialistas que podem ajudá-lo.

“Faça perguntas aos jornalistas de dados”, Simon aconselhou. “Eles são muito amigáveis, gostam de falar sobre o que fazem e como fazem isso.”

Imagem cortesia de Alice Vergueiro

 

Fonte: IJNet

Por: Jéssica Cruz

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