skip to Main Content
Entre em contato: +55 11 95133-2600

Os dois mundos de 78

Os-dois-mundos-de-78

 

 Elisa Espósito

Dois quilômetro separam dois mundos distintos: a ESMA (Escola de Mecânica Armada) e o Estádio Monumental, do River Plate. De um lado aquele que foi o maior campo de concentração do continente com gritos de tortura e assassinatos; do outro, gritos de torcedores, encontro entre nações, festa nas arquibancadas.

Em meio a esse cenário antagônico, a Copa do Mundo se firmava como um véu para a censura. Era a chance de se reverter a imagem do governo e cenários de horror. A população esperou 40 anos para ter a disputa do mundial em seu solo. Porém, o que era para ser um acontecimento histórico foi apropriado pelos militares. A Copa tornava-se questionável, ofuscada pela política. Tirou-se do povo até mesmo o direito à comemoração.

 

“A vergonha de todos”*

 

No congresso da FIFA em1966, a Argentina celebrava o sonho de realizar uma  Copa do Mundo em casa. Dez anos depois, um cenário conturbado ameaçaria a realização do evento: um golpe de estado levaria ao poder a junta composta por Emilio Eduardo Massera, Orlando Ramón Agosti e Jorge Rafael Videla, considerado o presidente de fato.

A importância do futebol na política da Argentina era evidente. Assim que chegou ao poder, a Junta Militar passou a gerenciar a programação das emissoras de televisão que, a partir de então, só exibiam programas estatais, com exceção, é claro, das partidas de futebol, que puderam ser apresentadas livremente. Além disso, o futebol era um grande motor da popularidade de um indivíduo; de sorte que, há apenas um ano na política, os aspirantes iniciavam sua carreira como líderes de times de futebol, assim seu reconhecimento estava garantido.

O preço propagandístico custou caro à população: cerca de 700 milhões de dólares. Mas não tão caro quanto os 500 bebês sequestrados, as 30 mil mortes e inumeros desaparecidos. Por todo o período militar, o Estado se absteria de falar desses números, não conhecidos na época, mas questionados frequentemente.  Sobre os desaparecidos, disse José Rafael Videla:

“O desaparecido, como tal, é uma incógnita. Se reaparecem, terão um tratamento X. E se o desaparecimento se transformar na certeza de seu falecimento, terá um tratamento Z. Mas, enquanto estiver desaparecido não pode ter um tratamento especial é uma incógnita, é um desaparecido, não tem entidade, não está nem morto nem vivo, está desaparecido”. 

Se por um lado os pais estavam desaparecidos, por outro, os bebês foram apropriados e distribuídos a entidades ligadas ao governo. “Eles estavam condenados a amar o assassino de seus pais”, declara Buscaria Roa que demorou  cerca de 5 anos para encontrar sua neta , mas venceu pela insistência, como declara. “É como se quisessem apagar qualquer possibilidade de oposição ao governo, mesmo que presente nas gerações futuras”, completa.

 

“O orgulho de todos”

 

Em um cenário tão conturbado, surge a oportunidade aos militares de recrear a população com um evento classe mundial. À seleção argentina cabia a obrigatoriedade de vencer sua primeira Copa em casa: seja para os militares, como objeto propagandísitco, seja para a população, como uma alegria ao cenário de horror da época.

Com um padrão de jogo definido, uma defesa forte e um ataque criativo, o treinador César Menotti tinha um grupo que poderia conquistar a Copa. Seu único erro, no entanto, foi não dar espaço para um garoto prodígio de 17 anos que já era destaque no futebol do país: Diego Maradona, “muito imaturo” segundo Menotti.

Mesmo com jogadores de muito talento e na flor da idade como o ágil e seguro goleiro Fillol, o soberbo zagueiro Daniel Passarella, o talentoso meia Bertoni e o atacante Kempes, a equipe não empolgava pelo fato de os argentinos ainda viverem os traumas das últimas Copas disputadas e das não disputadas, como a de 1970, quando foram eliminados pelo Peru de Cubillas ainda nas eliminatórias.

Videla e cia fizeram a sua parte fora dos gramados para que esse quadro de insegurança se modificasse. O nacionalismo foi exaltado como nunca, até mesmo no uso do mascote Gauchito, nome derivado de ‘Gaucho’, que designa o nativo dos Pamapas.  O menino com lenço, chapéu, chicote de gado em sua mão direita e a camisa alviceleste, ressaltava o estereótipo argentino. A seleção local também foi a que disputou o mundial em menores distâncias permanecendo entre as regiões de Buenos Aires e Santa Fé.

A “solidariedade”militar não esteve somente presente nas arquibancadas. No jogo contra Peru, Videla realizou uma visita pessoalmente ao vestiário da equipe adversária. “Em meio a cuecas”, como diria Ariel Palacios, jornalista correspondente de Buenos Aires, o ditador teria feito uma visitinha, em busca de “solidariedade aos irmãos latino-americanos”.

Na partida, os argentinos precisavam vencer por 4 a 0 na semifinal, para impedir o Brasil de chegar à decisão. Acabaram ganhando por 6 a 0, num jogo em que os adversários mostraram apatia e falhas evidentes.  Para os brasileiros, que perderam o campeonato invictos, a seleção alviceleste foi considerada como uma campeã “imoral”.

Não são apenas os hermanos brasileiros que consideram suspeita a vitória argentina. Para Ezequiel Moores, um dos mais importantes analistas de futebol do país, é bastante provável que a seleção peruana receberia dinheiro pela derrota. “Nenhum jogador me confirmou que havia recebido pagamento ou que sofreu ameaça. Mas o Oblitas [Juan Carlos Oblitas, atacante peruano] disse que também suspeita. O Peru também vivia uma ditadura, na época, então é bem provável que tenha se envolvido. Mas não há documentos que comprovem esse fato ”.

 

A trave militar

Era 25 de junho de 1978, dá-se a disputa da final de Copa do Mundo. Mais de 70 mil torcedores estavam presentes no estádio El Monumental, aguardando um final grandioso. Festas de papel picado, serpentinas e cantos. Valia de tudo para empurrar a seleção alviceleste em busca de um inédito título mundial, ou melhor, quase tudo…Ver Brasil e Uruguai como únicos sulamericanoss campeões do mundo doía demais no orgulho dos argentinos, tão fortes com seus clubes e em torneios de seleções no continente, mas ainda sem um título mundial. Era aquela a grande chance do país de sair da sombra dos vizinhos e entrar no seletíssimo grupo dos campeões. Mas, para isso, era preciso derrotar a Holanda, então vice-campeã da Copa de 1974, mas já sem a intensidade e o brilho de quatro anos antes, principalmente pelas ausências de Cruyff em campo e de Rinus Michels como treinador. O duelo prometia equilíbrio e muitos gols. E foi mais ou menos isso que aconteceu.

A partida foi bastante acirrada. A Holanda não facilitaria para a seleção da casa vencer, pondo em prática suas letais armas ofensivas, sempre com Neeskens e Resenbrink como pivôs nos lances perigosos. Para alívio de todos ali presentes, inclusive as três cadeiras cativas militares, Kempes abriria o placar alviceleste. A Holanda, valente, foi em busca do empate e conseguiu com Nanninga, de cabeça, aos 37 minutos. Os nervos dos argentinos ficaram à flor da pele e a Holanda quis porque quis virar o placar. Foi então que no último minuto de jogo, Resembrink teve a chance de dar o título mundial para a Holanda, mas seu chute bateu na trave, para alívio dos argentinos e desespero dos holandeses. Na prorrogação, o time da casa lançou-se para o ataque e Kempes salva a pátria: 2 a 1. Argentina era campeã.

Quando soou o apito final, longe dos muros da famigerada ESMA, o povo festejava nas ruas. Ouvia-se gritos “Argentina! Argentina!” por todos os lados e até mesmo os líderes ditatoriais foram ovacionados. “Por um momento a população argentina esquecia-se do que ocorria em seu país. Os militares haviam conseguido atingir seu objetivo. ”, lamenta Pablo Llonto.

Por traz dos muros, torturados e torturadores assistiam a final do mundial em um minúsculo quarto dos fundos.  Ao balançar das redes, o sentimento nacionalista não cabia no peito até mesmo para aqueles que tiveram seus corações destroçados. Gritos de euforia, dor e angústia se misturavam. Militares gritavam “Ganhamos!”. Mas o próprio futebol já nos ensina que só há um vencedor. E naquela Copa, de certo modo,  a seleção derrotada foi a própria nação Argentina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *