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O Primeiro Dia Dos Próximos 20 Anos

O primeiro dia dos próximos 20 anos

Capital Federal se tornou palco de confrontos e os últimos a saberem disso foram os senadores

FÁBIO BISPO
DE BRASÍLIA

 

No meio da confusão, mulher aproveitou para catar o que sobrou de uma caixa de pequi atirada pelos manifestantes contra os policiais. Foto por: Fábio Bispo

No meio da confusão, mulher aproveitou para catar o que sobrou de uma caixa de pequi atirada pelos manifestantes contra os policiais. Foto por: Fábio Bispo

 

Foi tão relâmpago que quando vimos já tinha passado. Enquanto os 53 senadores que aprovaram a PEC do Teto dos Gastos comemoravam a vitória, ainda que apertada, do governo no Congresso Nacional, milhares que tentavam mostrar sua indignação não puderam avançar pela Esplanada dos Ministérios, onde estava marcado ato de protesto na tarde de terça-feira (13/12). Bombas de efeito moral, paus, pedras e uma verdadeira operação de guerra isolou o eco das ruas dos parlamentares. “Lá de dentro não se ouvia e via nada que rolava na Esplanada. Só ficávamos sabendo da manifestação através dos celulares e relatos de pessoas. Não se comentava sobre a manifestação no salão negro”, contou o jornalista Augusto Valle, que acompanhava a movimentação lá dentro pelo Jornalismo Sem Fronteiras.

Os primeiros a sentirem o efeito do maior ajuste fiscal desde a Constituição de 1988 foram os brasilienses. A cidade, novamente, se transformou em palco de confrontos. O trânsito foi alterado e os ônibus e metrôs afetados. Quem só queria chegar em casa, depois de um dia de trabalho, teve que correr e se proteger. O protesto, que estava concentrado nas imediações da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida, mais conhecida como Catedral de Brasília, não conseguiu avançar em direção ao Congresso Nacional, tendo que recuar para dentro da cidade ao passo em que a Tropa de Choque e Cavalaria aplicavam suas táticas para dividi-los em pequenos grupos.

Eu estava acompanhando o ato pelo programa Jornalismo & Poder, do Jornalismo Sem Fronteiras, quando me vi exatamente no ponto em que a confusão começou. Não havia livre acesso à esplanada, e quem quisesse passar para o lado de lá do cordão de policiais teria que ser revistado. No começo, eram cerca de 100 militares, de bonés, cassetetes e gás de pimenta, incumbidos da revista de mais de cinco mil pessoas –não há números oficiais do protesto e teve quem falou em até 15 mil manifestantes.

Sem conseguir conter o avanço em bloco dos indignados que ignoravam a “ordem” para a revista, a Polícia Militar respondeu primeiramente com cassetetes e spray de pimenta. Logo em seguida a Tropa de Choque avançou com bombas de gás. O contingente foi reforçado com a Cavalaria e viaturas. A esta altura, a crise estava instalada. Tentei me refugiar ao lado de outros colegas da imprensa –estava sem máscara e capacete– e fui um dos primeiros a sentir os efeitos das bombas de gás. Acabei isolado, cercado por policiais que me impediram de cruzar a ponte sobre a via de ligação Se/Ne para chegar ao Museu Nacional. “É para sua própria segurança”, justificou um dos PMs também com os olhos vermelhos do gás.

Cruzei por baixo e encontrei o protesto armando barricadas com tudo que eles encontravam -latas de lixo, cúpulas de telefones públicos e estrutura de contenção até então usada pela polícia. Tentavam impedir o avanço dos agentes, que responderam com mais bombas. Passava das 18h, e o protesto que tentava chegar ao Congresso já havia recuado até o Terminal Central.

 

 

Manifestantes e não manifestantes se confundiam na fila do ônibus. Alguns subiram no viaduto, de onde arremessaram pedras e paus contra os agentes. E as bombas não cessaram e eram arremessadas pela Polícia em meio a carros e pedestres. Quem tentou acessar o terminal rodoviário e o metrô sentiu os efeitos do gás. Mulheres e crianças se protegiam como podiam.

A fumaça preta e densa que tomava conta do céu de Brasília anunciava o caos. Um ônibus da empresa TCB na via S2, próximo à Câmara dos Deputados, foi incendiado. Os grupos se dispersavam, seguidos da tropa que agora também se dividia.

A cena de uma jovem sentada com as mãos para o alto, em meio ao rastro de destruição, nos fazia lembrar que nada impedia ela de estar ali: aliás quem tem o poder de franquear o direito de ir e vir? Uma senhora catava o que sobrou de uma caixa de pequi (fruta típica do Cerrado) lançada pelos manifestantes contra a polícia. Uns aplaudiam a manifestação, outros xingavam. “Eu também sou trabalhador, mas isso que vocês fizeram foi covardia”, justificou um dos PMs daqueles de boné e cassetete.  “Isso é coisa de manifestante, quebrar tudo desse jeito?”, emendou outro que passava por um ponto de ônibus destruído.

A enfermeira Criz Abreu, 24, desabafou: “Estou reivindicando um direito que é nosso. Educação e saúde não podem ser negociadas, tem que ser prioridade. Estão reprimindo a juventude. Não aceitaram que a galera entrasse no Senado, isso é um absurdo. O direito de ir e vir é constitucional”, afirmou.

A noite caiu em Brasília e quase ninguém arriscava cruzar as ruas da cidade desacompanhado. A PEC já era realidade e este foi só o primeiro dia dos próximos 20 anos.

 

 

FÁBIO BISPO é jornalista e participa do programa “Jornalismo & Poder”, que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Brasília para uma imersão de uma semana na cobertura política.

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