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Memória Do Que Não Se Viveu

Memória do que não se viveu

O que os jovens argentinos pensam sobre a última ditadura?

ETHEL RUDNITZKI

DE BUENOS AIRES

 

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Imagens dos desaparecidos. Foto por: Ethel Rudnitzki

Em meados do século passado, grande parte dos países latinoamericanos viveram um período sombrio de suas histórias: a ditadura militar. No caso da Argentina, foram 7 anos de regime (1976-1983), com saldo de uma economia falida, guerra perdida e mais de 30 mil pessoas desaparecidas. Um passado traumático como esse não pode ser esquecido tão facilmente, a dor passa de geração em geração.

Os jovens argentinos que nasceram depois do fim da ditadura são a prova disso. Conhecem a história como se a tivessem vivido.

 

“A ditadura foi o período em que os militares foram ao poder e perseguiram todos que pensavam de maneira diferente da deles. Eu não concordo com isso.” – Maria, 17 anos

 

“A ditadura foi algo que por sorte eu não conheci e que não quero conhecer jamais na vida. O maior retrocesso que um país pode ter. Algo inimaginável para mim. Não concebo não viver na democracia.” – Sofia, 24 anos

 

Panorama histórico

 

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A última ditadura argentina teve início no dia 24 de março de 1976, em um golpe de estado contra a então presidente Isabel Perón. O país já tinha vivido regimes militares antes, mas esse foi o mais agressivo deles.

Com a ajuda dos Estados Unidos, por meio do Plano Condor, a ditadura argentina foi implantada para combater os pensamentos de esquerda que haviam se intensificado desde 1950. Em um contexto de Guerra Fria, esse foi um golpe para que a potência americana garantisse suas áreas de influência no continente.

Para conseguir seus objetivos de impor seus pensamentos conservadores, o regime tratou de eliminar todos os que agiam de maneira divergente. Primeiramente, eliminou os partidos políticos e o direito ao voto, acabando com a democracia. Depois, partiram para sequestrar pessoas, torturá-las e matá-las. Em toda a Argentina, foram mais de 300 centros de tortura clandestinos e planos de extermínio foram desenvolvidos. Por útlimo, o papel prensa foi estatizado ou vendido para mídias seletas, e as estações de radio foram tomadas pelos militares como forma de controlar os meios de comunicação.

 

“A ditadura foi um plano sistemático para buscar corromper o sistema econômico popular e impor seu sistema, trazendo como consequência o fim dos partidos politicos e dos meios de comunicação livres” – José, 24 anos

 

Com tantos desaparecimentos e repressão, a insatisfação popular tomou conta da população. Mães de presos políticos se organizaram em um movimento que existe até hoje: Mães da Praça de Maio. Elas circulavam, pois reuniões não eram permitidas pelos militares, na principal praça do país, em frente ao palácio presidencial, para pedir pela volta de seus filhos. Elas formaram uma grande força para o fim da ditadura em 1983.

 

“Houve muita tortura, muitas mortes e nós, jovens, choramos por isso, por mais que não o tenhamos vivido.” – Lucas, 21 anos

 

“Os crimes são algo que repudiamos. Foram mais de 30 mil desaparecidos.” – Emiliano, 22 anos

 

Além disso, outros fatores fizeram com que o regime fracasasse, apesar do extermínio da oposição. Em 7 anos com os militares no poder, a inflação chegou a 343% ao ano e a dívida externa aumentou de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões. Assim o país entrou em um enorme retrocesso e população empobreceu, gerando grande insatisfação popular.

Para tentar salvar a aprovação do governo, os militares declararam guerra à Inglaterra invadindo as Ilhas Malvinas em 1982. O território sempre evocou o sentimento patriota e deveria trazer a lealdade da população de volta ao governo nacional. Porém, a revolta popular era grande demais e o país perdeu a guerra, enfurecendo mais ainda os argentinos. Assim, sem poder resistir mais, os militares deixaram o poder em dezembro de 1983.

 

Anistia, Julgamentos e Conscientização

Nos primeiros anos do fim da ditadura após algumas investigações esparsos dos crimes cometidos, o então presidente Raul Alfonsin sancionou as leis Ponto Final (1987) e Obediência (1988), que garantiram anistia para quase 2.000 militares envolvidos em torturas e assassinatos de 30.000 pessoas e sequestro de 500 crianças.

Apenas em 2003, após grande pressão popular, a Anistia foi anulada no governo de Nestor Kirchner e iniciaram-se os julgamentos. Aproximadamente 400 pessoas foram condenadas desde então, incluindo o ex-presidente militar Rafael Videla.

 

“O fim da anistia foi uma reivindicação histórica do povo, porque para que se viva em um bom país, deve se começar pela justiça e o fim dos crimes contra a humanidade.” – Juan, 22 anos

Além disso, como forma de conscientização sobre os crimes cometidos durante o regime militar, centros de tortura e extermínio foram transformados em museus, centros culturais e memoriais. Também a data de início da ditadura virou feriado nacional do dia da memória.

Porém, os julgamentos não estão nem próximos do fim. Apenas algumas pessoas diretamente ligadas ao regime foram julgadas, sendo que empresas e veículos midiáticos contribuiram muito para acobertar torturas e financiar os militares.  

 

Memória coletiva

O fim da anistia, os muitos crimes violentos e as falhas no regime contribuem muito para a memória coletiva que os jovens tem da ditadura. O correspondente internacional na Argentina há 20 anos, Ariel Palácios, explica que ninguém esquece do período militar, pois “nunca se deixou de falar da ditadura, o assunto nunca deixou de estar na mídia e quase todo mundo conhece alguem que foi torturado”.

De fato, com 30 mil mortos e torturados, mobilizações constantes das Mães e Avós da Praça de Maio pelos desaparecidos, centenas de memoriais e julgamentos em andamento, o assunto está sempre em alta.

Por mais que haja pessoas de pensamento mais conservador que por vezes alúdam ao regime militar, a repercusão dessas vozes não é grande.

 

“É horrível a falta de informação e de empatia pela causa social das pessoas que defendem a ditadura. Me parece uma falta de valorização da condição humana” –  Olívia, 22 anos

 

“Por sorte não são vozes que eu tenha escutado muitas vezes na minha vida e cada vez que escutei que alguém dizia isso [pela volta dos militares], imediatamente vi como a gente que rodeava essa pessoa se enfurecía. Já não há lugar para essas opiniões.” – Sofia, 24 anos

 

A  juventude argentina repudia a ditadura e não quer viver para vê-la.

 

“A ditadura foi uma opressão que não pode voltar a acontecer!” – Paula, 19 anos

 

“Foi um processo que mudou a história da Argentina e algo que lutamos para que não volte a ocorrer.” – Emiliano, 22 anos


“A democracia tem que estar na política, na polícia e em tudo.” – Ana, 23 anos

 

ETHEL RUDNITZKI é jornalista e participou do “Jornalismo sem Fronteiras”, que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Buenos Aires para um mergulho de 10 dias no trabalho de correspondente internacional.

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