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Matando A Fome De Quem Precisa

Matando a fome de quem precisa

Os refeitórios populares estão aumentando na Argentina. Conheça a iniciativa da Cáritas Buenos Aires que está ajudando a melhorar a situação dos mais pobres da capital argentina

BEATRIZ DE DEUS

DE BUENOS AIRES

 

A Praça da Constituição é o retrato de que Buenos Aires está longe de ser a capital próspera como a Avenida Nove de Julho demonstra ser. Andando em direção ao número 1407, a pobreza vai ganhando espaço na figura de pessoas simples que estão pela rua. Ao chegar, a porta de metal está fechada e três homens e uma mulher perguntam se desejamos entrar. Após a confirmação, batem com força e somos atendidos por voluntários que terminam mais um dia de trabalho.

Este é o caminho para chegar ao refeitório San Vicente, um dos mais de 60 espalhados por toda a capital argentina. Com mais de cem anos de existência, o refeitório popular é mantido pela congregação religiosa Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo e atende uma média de 100 pessoas por dia.

Mantidos pela Cáritas de Buenos Aires, os refeitórios funcionam de forma independente e cada um deles possui um público específico para atendimento e dias e horários diferentes de funcionamento. Segundo Daniel Gassmann, vice-presidente da Cáritas Buenos Aires, a estrutura é grande para conseguir atender toda a demanda. “Há mais ou menos mil voluntários nos refeitórios, já que são dez ou quinze por refeitório”, comenta.

A responsável pelo refeitório San Vicente é a irmã Solange Ostane, haitiana que está na Argentina há apenas quatro meses. Com um avental de seu país de origem e um sorriso no rosto, Solange conta que nunca viu uma ação como os refeitórios nem no Haiti e nem em nenhum dos países em que morou desde que se tornou freira, há 35 anos.

Irmã Solange conta que o refeitório San Vicente recebe uma verba diária do governo municipal para se manter e que sempre há um cardápio programado. Segundo ela, o refeitório atende somente homens por causa de sua origem, já que começou atendendo trabalhadores de fora que chegavam a Buenos Aires. Porém, com a crise que atinge a Argentina, ela diz que notou uma mudança no número de homens atendidos: “É evidente que há aumento da pobreza. A sociedade está mudando, há mais situação de rua”.

A porta do refeitório San Vicente já estava fechada meia hora após o início da distribuição das refeições. Foto por: Angélica Almeida

A porta do refeitório San Vicente já estava fechada meia hora após o início da distribuição das refeições. Foto por: Angélica Almeida

Martha Frassinelli trabalha no refeitório San Vicente há 11 anos como assistente social. Além de ajudar em questões práticas como documentos e até mesmo com verba financeira, ela conta que, muitas vezes, a necessidade material não é a mais importante. “Há aqueles que necessitam ser escutados. Alguns não querem conversar, porque quando terminam somente agradecem por ter escutado”, diz.

 

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Martha Frassinelli presta assistência no refeitório San Vicente há 11 anos. Foto por: Angélica Almeida

No refeitório, os voluntários também são homens atendidos pelo serviço. Eles chegam perto das sete da manhã para arrumar o espaço que serve, além do almoço, o café da manhã. Porém, a rotina de Irmã Solange já começou antes. Ela trabalha desde as seis horas e é a primeira a chegar para começar a preparar os alimentos que serão distribuídos no dia.

Daniel Gassmann ressalta que os refeitórios são iniciativas importantíssimas para a sociedade e não acredita que a Argentina seja pioneira no serviço. “Em todos os lados as pessoas precisam comer e em todos os lados a comida é básica”, comenta o vice-presidente da Cáritas. Segundo ele, ainda não há dados atualizados do ano de 2016, mas os refeitórios estão aumentando muito no país por causa da crise econômica.

 

O refeitório San Vicente é pequeno, mas recebe uma média de 100 pessoas diariamente. Foto por: Angélica Almeida

O refeitório San Vicente é pequeno, mas recebe uma média de 100 pessoas diariamente. Foto por: Angélica Almeida

 

O trabalho da Cáritas

Não foram somente os refeitórios que ganharam notoriedade da população nos últimos anos. Segundo Gassmann, a forma de divulgação do trabalho da organização religiosa mudou.

“Há muitos anos a Cáritas faz esse trabalho, não só na Arquidiocese de Buenos Aires como no país. A Cáritas fez esse trabalho muitos anos em silencio, mas hoje tem a virtude de ter convertido a solidariedade em um valor social”.

E foi através dessa mudança e da divulgação nos veículos de comunicação que Mabel Arce conheceu o trabalho da Cáritas. Mabel é voluntária e atua em um projeto que busca unir pessoas que procuram empregos domésticos às pessoas que querem contratar esses trabalhadores.

Segundo Mabel, a crise mudou o perfil das pessoas que buscam emprego com a ajuda da Cáritas. O perfil majoritário são mulheres de 20 a 60 anos de idade, porém o cenário se alterou e homens jovens também estão se oferecendo para serviços domésticos em Buenos Aires.

Mabel é cosmetóloga e trabalha na Cáritas do centro de Buenos Aires duas vezes por semana, no período da manhã. Questionada sobre o motivo de estar desenvolvendo esse trabalho, ela responde com voz calma e expressão serena: “Dar meu tempo com carinho é muito gratificante”.

 

Mabel Arce doa seu tempo para a Cáritas desde fevereiro. Foto por: Angélica Almeida

Mabel Arce doa seu tempo para a Cáritas desde fevereiro. Foto por: Angélica Almeida

 

 

BEATRIZ DE DEUS é jornalista e participa do “Jornalismo sem Fronteiras”, que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Buenos Aires para um mergulho de 10 dias no trabalho de correspondente internacional.

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