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La Nación: Onde A Crise Do Jornalismo Parece Não Existir

La Nación: onde a crise do jornalismo parece não existir

MALU MÕES

BUENOS AIRES

Crédito: Malu Mões

Uma redação imensa, cheia de pessoas e com equipamentos de últimas gerações é um cenário inimaginável quando pensamos na crise mundial que o Jornalismo passa – com a dificuldade de se adaptar ao digital, atrair público e anunciantes ou de pensar novas formas de financiamento.

A realidade do jornalista brasileiro nos últimos anos é muito dura. Redações que antes eram fortes diminuíram suas equipes drasticamente – os famosos passaralhos, como chamam os que trabalham neste ramo. Empresas de notícias – como a Editora Abril – entraram com pedido de recuperação judicial – medida acionada quando as entidades não conseguem pagar suas dívidas. Jornalistas com carteira assinada ou freelancers necessitado trabalhar o dobro, o triplo ou o quádruplo para conseguir dar conta das demandas e recebem, muitas vezes, salários baixíssimos por isso. Além de muitos jornalistas estarem sem conseguir nenhum trabalho.

Enquanto isso, do outro lado da fronteira um jornal argentino que nasceu impresso em 1870 parece não sentir a crise – ou apostar em inovações e grandes equipes justamente para fugir dela. Durante as diversas crises financeiras que a Argentina passou, o La Nación investiu em rádio, televisão e agora possui uma equipe apenas para conteúdos para o Youtube.

Uma equipe de cinco homens liderados pela jornalista Mora Tarnofsky estão desenvolvendo projetos especiais noticiosos em vídeos para a plataforma Youtube. Eles possuem um estúdio de 50 metros dentro da imensa redação do jornal La Nación. Lá realizam gravações e editam os materiais com equipamentos de alta qualidade. O projeto é subsidiado pelo Youtube, isso os ajuda a se financiarem.

Tarnofsky e sua equipe. Crédito: Malu Mões.

“É um jornal impresso, mas há um tempo começamos a nos tornar uma fábrica de conteúdo”, comenta Hernán Cappiello, repórter da equipe. Possuem pautas próprias, sem replicar o que é feito pelo jornal impresso ou canais de TV ou rádio. Os conteúdos do youtube – vídeos de cerca de 10 minutos – são adaptados para outras redes sociais. Cada um produzido para sua plataforma específica: para o Instagram o grupo realiza vídeos de no máximo um minuto e no Facebook apostam em vídeos mais espetacularizados.

Como gancho para seus projetos audiovisuais, aproveitaram que este ano terá eleições na Argentina. Uma web-série que estão realizando é sobre como se fabrica um presidente. Também irão realizar perfis dos candidatos.Todos da equipe vieram da TV. Tarnofsky conta que é muito difícil pensar o conteúdo para o digital, mas afirma que precisam produzir materiais que interessem o público.

O público que os interessa não é apenas os espectadores, mas os anunciante – grande fonte de financiamento. Apesar do impresso captar 60% dos investimentos, atualmente o digital já possuem grandes índices com 40% dos patrocínios.15% dos recursos do La Nación vem de assinaturas nos meios digitais – são 213.764 inscritos. São impressos, aproximadamente, 300 mil exemplares por dia, além de possuírem anúncios em seu canal de televisão. No entanto, a equipe do jornal não se aprofundou sobre outros métodos de angariar fundos para manter uma empresa tão grande.

Há cerca de 400 pessoas trabalhando na redação, todas as mesas estão ocupadas – o local aparenta ter mais de 500 metros quadrados. Poster com frases de militância demonstram a liberdade de imprensa que os jornalista que trabalham lá possuem. No meio do lugar, são montadas câmeras, onde se realizam gravações ao vivo para o canal de TV. Também possuem um estúdio de TV separado, um de entretenimento e mais um espaço para a rádio. Em muitos lugares existem monitores que mostram as audiências do La Nación e dos concorrentes.

Seu maior concorrente é o Clarín, outro jornal argentino, no entanto sua meta de rival é o New York Times. Miram a qualidade de seus conteúdos e métricas no jornal estadunidense. Competem com eles nos prêmios globais e os patrocinadores. Para solucionar a crise do impresso, se baseiam muito nas novidades do NYT – reconhecido mundialmente por encontrar formas inovadoras de atrair público e se manter forte.

Na reunião para decidir os temas que estarão na capa do dia seguinte do jornal impresso, esquecem os concorrentes e se baseiam com as métricas dos seus canais digitais e na experiência dos editores de cada tema. São ao todo nove homens e sete mulheres que compõe o time de chefes de editorias. Quem conduz a reunião é Gail Scriven, secretária geral da redação – cargo mais alto do local. Fora os avanços tecnológicos do jornal, a redação aparenta progresso nas relações de gênero. Um suspiro de alívio tanto para aqueles que enfrentam a crise da imprensa e para as jornalistas. No Brasil, por outro lado, 37% das jornalistas sentem que possuem menos oportunidades de trabalho por serem mulheres, segundo levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em 2017.

Gail Scriven ocupa o cargo mais alto do La Nación. Créditos: Malu Mões.

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