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Hasta nunca mais!

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Há mais de 37 anos, a Argentina viveu um dos períodos mais marcantes e obscuros de sua história. Aos poucos a sociedade se vê expondo fraturas do passado, cicatrizando e debatendo assuntos que jamais deveriam ser esquecidos. Não foi a primeira intervenção militar no país, mas espera-se que tenha sido a última.

Confira a matéria produzida por nossa correspondente Isabela Yu durante o Programa Jornalismo sem Fronteiras em Buenos Aires

Na última década em Buenos Aires,  descobriu-se o que se espera ser o último centro de detenção clandestino, resquício do regime militar vivido no país durante sete anos. De 24 de marco de 1976 a 10 de dezembro de 1983, a Argentina viveu a ditadura militar mais recente e mais impactante entre os regimes autoritários da América Latina. A elite responsabilizava a então presidenta Isabelita Perón pelo caos e a crise econômica.  Os militares a retiraram do poder, que exercia no cargo dentro da constituição e instituíram uma junta militar, constituída pelos comandantes das três Forcas Armadas: Jorge Rafael Videla (Exército), Emilio Massera (Marinha) e Orlando Agosti (Forca Aérea).

O “Clube Atlético”, localizado debaixo de um viaduto no bairro San Telmo, região sul da cidade,  recebeu esse nome por estar situado perto do Clube Atlético Boca Juniors. No lugar existia um edifício público que foi demolido para construir a auto-estrada 15 de Mayo. Posteriormente,  o governo ao se deparar com as ruínas,  começou o processo de escavações o que  depois  seria  um monumento histórico da cidade. O asfalto é coberto de desenhos representativos dos desaparecidos e  familiares.  Tornou-se  um lugar de respeito a memória dos torturados e assassinados pelo regime. No local   há uma escultura monumental, colocada em homenagem aos desaparecidos. Na cidade de Buenos Aires foram descobertos 45 centros de detenção e no país inteiro são contabilizados 500 centros clandestinos.

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Centro clandestino de detenção

O Processo de Reorganização Nacional , como a ditadura se autodenominou, tinha dois objetivos claros: extirpar o peronismo do país e eliminar qualquer tipo de subversão. Estima-se que cerca de 30 mil vidas foram tiradas, com a chamada “guerra suja”. Quando, menos controlada, os desaparecimentos, sequestros de crianças e todas as técnicas de tortura eram cometidas. As mães e avós da Plaza Del Mayo,  desde a década de 1970 até cerca de três anos atrás,  peregrinavam a praça religiosamente todas as quintas feiras. A Plaza foi escolhida por ser um lugar representativo e democrático, há e haviam naquela época,  pessoas a favor e contra o regime,  que iam protestar no lugar. Na frente existe a Casa Rosada, sede do governo, o edifício do parlamento, o banco nacional e uma Igreja.  Característica principal dessas mulheres é o lenço branco em suas cabeças, e estima-se que 95 crianças foram localizadas pelo apelo deste  movimento.

Fracasso econômico, político e social

Além da excessiva violência, o regime pode ser caracterizado pelas diversas medidas contraditórias que pioraram a qualidade de vida da população. A dívida externa subiu de U$ 8 bilhões para U$45 bilhões de dólares. O governo contraiu empréstimos externos para dinamizar a economia, em contrapartida as medidas de Perón contra o capital estrangeiro. Na tentativa de conter a inflação,  que antes do golpe era alta, de 182% ao ano, a ditadura terminou com um valor impressionante de 343%.

E também os índices de pobreza dispararam de 5% para 28%, sendo que os “culpados”do caos do país eram os trabalhadores. Então os militares proibiram  greves, manifestações e iniciaram  perseguição constante dos sindicatos e associações. A Doutrina de Segurança Nacional existia para combater os subversivos que propunham mudanças voltadas a população. A lógica da Guerra Fria era de eliminar a oposição a qualquer custo, logo,  os centros de detenção eram geridos por suboficiais, diferentemente no Brasil, onde  os centros eram órgãos oficiais.

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Durante o regime, dois momentos distintos marcaram culturalmente o povo argentino: A Copa em 1976 e a Guerra das Malvinas em 1981. Em 2013 se um turista passar na frente da Casa Rosada verá pessoas ocupando o local a favor da retomada da invasão as Ilhas Fauklands, que pertencem ao domínio britânico. Há diferentes teses sobre as razões dos militares em decidir retomar o território no Oceano Pacífico:  com o regime desgastado,  acreditavam ser a melhor maneira de restaurar a moral e a forca do exército. Nada une mais uma nação do que um inimigo  comum para todos torcerem contra e esquecerem as atrocidades que aconteciam no país. A Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher  mobilizou  o exército inglês e o exército argentino,  humilhado.  Ao término da guerra, os militares acabaram desmoralizados e a estrutura em frangalhos. Somado as mobilizações populares e a pressão externa,   culminaram na abertura do regime. Grande traço cultural, o futebol é a uma das maiores paixões argentinas. Depois da política, o esporte é o segundo assunto mais comentado entre a população. Dizem as más línguas que a Copa de 76 foi comprada e um grande trunfo político, que garantiu extrema popularidade a Ditadura.

A política pública de memória sobre o período da Ditadura, retoma o assunto constantemente seja na mídia ou em debates de ONGS e organismos de defesa dos Direitos Humanos. Ironicamente os militares afirmam que assassinaram cerca de 8 mil civis. O Estado,  com a abertura política, recebeu 10 mil pedidos de indenizações vindo dos parentes. Em certo ponto existiu  caso de policiais que acabavam encarcerados  devido a brigas internas, com  os próprios militares que matavam uns aos outros.

No dia 17 de maio de 2013, um grande capítulo da história do país se encerrou com a morte do comandante Jorge Rafael Videla. Aos 87 anos de idade, o idealizador de um dos regimes autoritários de maior violência na América Latina, gerou comoção mundial em todos os veículos de comunicação. Durante as décadas seguintes ao fim da Ditadura, ele sofreu represálias e foi julgado como culpado das mortes dos civis. Um período marcante e triste da história da Argentina, vai recuperando-se  aos poucos com as       novas gerações.

 

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