Ex-atacante reflete sobre as mudanças no futebol 60 anos após desembarcar na Espanha

LUIZ FERNANDO TEIXEIRA

DE MADRI

 

Evaristo de Macedo com algumas recordações da época em que jogou no Barcelona. Crédito: FCBarcelona
Evaristo de Macedo com algumas recordações da época em que jogou no Barcelona.
Crédito: FCBarcelona

“Com uma forte compleição atlética, era o típico jogador brasileiro de técnica apurada e instinto assassino na cara do gol, com um bom chute com as duas pernas, um cabeceio fatal e uma rapidez e valentia que o fizeram insubstituível no ataque barcelonista durante cinco anos”. Esse trecho da minibiografia de Evaristo de Macedo feita pelo Barcelona dá a ideia do respeito que o brasileiro tem na Catalunha.

Em 2017 se completam 60 anos que o brasileiro deixou o Flamengo para jogar na Espanha, onde se tornou uma lenda nos dois maiores clubes do país, Barcelona e Real Madrid. Evaristo de Macedo conquistou quatro Campeonatos Espanhóis, duas Taças das Cidades com Feiras (precursora da Liga Europa) e uma edição da Copa da Espanha nos sete anos em que atuou no país ibérico.

O atacante chegou na Espanha como uma aposta Josep Samitier, então secretário técnico do clube, e se transformou em um dos maiores artilheiros da história do Barça, com 178 gols marcados em 226 partidas. Ele é o brasileiro com mais gols marcados com a camisa do clube – considerando apenas jogos oficiais, ele tem 105 e Rivaldo o ultrapassa com 130.  

Quando Evaristo trocou o Barcelona pelo Real Madrid, ele se transformou no quarto brasileiro a vestir a camisa merengue, depois de Fernando Giudicelli, Didi e Canário. Considerado uma lenda do futebol madrilenho, sua carreira foi menos estrelada do que no Barcelona, mas ainda assim seu “chute habilidoso e grande faro de gol” são exaltados pelo clube.

Na entrevista a seguir, Evaristo reflete não só sobre sua carreira, mas sobre a evolução do futebol nos últimos 60 anos, a valorização que tem na Espanha e o fato de, apesar de ser um dos maiores atacantes do Brasil à época, não ter disputado uma Copa do Mundo: “Não me arrependo de nada do que fiz e sempre agradeço a Deus pela oportunidades e pelo o que conquistei. Como joguei as eliminatórias de 57, classificando o Brasil para a Copa de 58, me sinto também um campeão”.

Crédito: Divulgação / Real Madrid
Crédito: Divulgação / Real Madrid

 

 

Em 2017 se completam 60 anos desde que o senhor se transferiu para a Espanha. Na época, esse tipo de transferência era incomum. O senhor poderia dizer como soube do interesse do Barcelona e qual foi sua reação?

O Barcelona queria renovar sua equipe montada no início dos anos 50. Buscavam um centroavante na América do Sul, especialmente aqui no Brasil. Assistiram alguns jogos do Flamengo e da Seleção Brasileira em que participei. No primeiro jogo das eliminatórias de 57 (Lima, Peru) a proposta se concretizou e ficou muito difícil não aceitá-la pois realmente era irrecusável do ponto de vista financeiro. Após a minha chegada, a renovação do time continuou com a contratação, se não me engano, dos húngaros Kocsis e Czibor.

O que o senhor sabia sobre o Barcelona antes de se transferir? 

Como disse, desde o início dos anos 50 o Barcelona tinha um grande time liderado pelo genial Kubala, ídolo eterno, com quem joguei no Barcelona tendo sido posteriormente meu treinador no próprio Barcelona. Foram muitas as conquistas desse time e essas notícias corriam o mundo pelos jornais.

O senhor sabia falar espanhol? A língua acabou sendo um fator importante em sua adaptação? 

Viajando pelo Flamengo e pela Seleção Brasileira na América do Sul comecei a entender e a falar o idioma espanhol. Chegando à Espanha já falava alguma coisa e realmente isso facilitou minha adaptação ao clube. Mas realmente o catalão foi mais difícil. Hoje é tudo mais fácil!

 

Crédito: Divulgação / Barcelona
Crédito: Divulgação / Barcelona

Como foi deixar o Barcelona e ir para o Real Madrid? 

Difícil. Estava muito bem adaptado à cidade de Barcelona e ao clube. Foram cinco temporadas vitoriosas e de muitos gols. Mas o clube queria que me naturalizasse espanhol para que pudesse abrir uma vaga para a contratação de outro estrangeiro. Esse não era o meu desejo. Ao longo das negociações para a renovação do contrato com o Barça, o Real Madrid me fez uma proposta irrecusável. Em meados de 64 decidi voltar ao Brasil para encerrar a carreira no Flamengo, rescindido amigavelmente o contrato com o Real Madrid. Na época, havia propostas de clubes da própria Espanha, de Portugal, da Itália e do Brasil.

Hoje em dia muito se fala da diferença de estrutura e investimento entre o futebol brasileiro e o futebol europeu. Na época, como era a diferença? 

A diferença sempre foi a seriedade como os europeus encaram o profissionalismo. Direitos e deveres muito bem definidos e cumpridos entre as partes. Contratos cumpridos à risca. Principalmente no que diz respeito ao pagamento em dia dos salários aos profissionais. Outro diferencial era a disponibilização de condições materiais para o desenvolvimento do futebol. Estádios, Centros de Treinamento e Concentrações de primeira linha. Havia um respeito muito grande dos jogadores para com os treinadores e dirigentes, e vice versa.

Qual a lembrança mais marcante que o senhor tem do tempo em que jogava em Barcelona? E em Madri? 

Em Barcelona, sem dúvida, as maiores saudades são da cidade, dos amigos e do Estádio Camp Nou ao qual tive a honra de participar do jogo inaugural inclusive marcando um gol. Em Madrid, deixei muitos amigos. Por curiosidade, meu filho mais velho é nascido em Barcelona e minha filha mais nova nascida em Madrid. O do meio é brasileiro. Fico muito feliz em ter deixado boas recordações aos culés e aos merengues e até hoje ser lembrado por eles!

Soube que recentemente o senhor foi convidado para uma homenagem em Madri, mas acabou declinando do convite. Acha que os clubes de lá valorizam os ídolos mais do que os do Brasil? 

Sim. Não se esquecem dos antigos ídolos, inclusive dos estrangeiros. Fiquei sabendo que até hoje sou o atacante brasileiro com mais gols pelo Barça em jogos oficiais e amistosos. Mas acho que o Neymar vai quebrar essa escrita. Faço parte das duas associações de ex-jogadores dos clubes e sempre sou chamado para festividades e reuniões. Essas associações ajudam os ex-jogadores mais necessitados. Infelizmente nem sempre posso comparecer às solenidades. Recentemente fui homenageado pelo Barcelona e estive presente mas o convite do Real Madrid não pude comparecer por motivos familiares. Uma pena. Há pouco tempo o consulado da Espanha no Brasil reuniu alguns jogadores do Barcelona em bonita festa.

O senhor poderia ter disputado Copas do Mundo com a seleção brasileira, mas por atuar fora do país acabou não sendo convocado. Se arrepende de perder esta oportunidade? 

Não me arrependo de nada do que fiz e sempre agradeço a Deus pela oportunidades e pelo o que conquistei. Quando fui para o Barcelona em 57 minha convocação estava certa para a Copa de 58. Mas como a Espanha não se classificou para o Mundial o campeonato espanhol teve prosseguimento durante a copa. Por isso, o Barcelona não me liberou, descumprindo, inclusive, uma trato assumido anteriormente. Em 62, em um jogo pelo Real Madrid, antes da Copa, tive uma séria contusão em jogo na Itália e fiquei me recuperando por um bom tempo. Da Espanha torci muito pelos amigos campeões mundiais, mas fiquei triste em não ter participado. Como joguei as eliminatórias de 57, classificando o Brasil para a Copa de 58, me sinto também um campeão.

Em 60 anos o futebol mudou bastante. Que avaliação o senhor pode fazer sobre a evolução do esporte nesse período? Seja no estilo de jogo até a parte de bastidores, treinamentos e preparação dos envolvidos para além dos jogadores. 

Muita coisa mudou. O futebol é mais rápido. Muito mais rápido! A preparação física se modernizou e a tecnologia na medicina e na fisiologia ajuda muito. Antes, você não tinha os cartões e nem a substituição. A bola era pesada e as chuteiras machucavam bastante os pés. Se o jogador não fosse forte e bem preparado não conseguia jogar e, por isso, aqueles que aliavam a força e a inteligência eram os verdadeiros craques. Mas os estádios viviam lotados. A tática também mudou. Muita teoria. Os pontas sumiram etc. A mídia, muitas vezes, cria o jogador e também o destrói. Os empresários dominam o cenário. Hoje, basta ser professor de educação física para ocupar um cargo de treinador de futebol. Mas nada contra. A realidade é que, infelizmente, a experiência vivida dentro do campo, às vezes por 20 anos, ficou em segundo plano. Talvez culpa dos próprios jogadores que não se preparam para a sequência de vida no futebol. Ao encerrar a carreira de jogador iniciei a universidade de Educação Física me formando pela antiga UFRJ já pensando em me tornar treinador de futebol, atividade que exerci de 1967 a 2005. Como treinador, sempre segui minhas próprias convicções e conhecimentos vividos e adquiridos ao longo do tempo.

 

Luiz Fernando Teixeira é jornalista e participa do “Jornalismo sem Fronteiras”, que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Madri para um mergulho de 10 dias no trabalho de correspondente internacional.

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