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Barras Bravas: Futebol, Violência E Política

Barras Bravas: futebol, violência e política

Como as torcidas organizadas argentinas viraram exércitos particulares de políticos e sindicalistas?

NICOLA FERREIRA

DE BUENOS AIRES

As torcidas argentinas antes conhecidas pela sua cantoria e sua violência, agora fazem parte de um esquema muito maior. Crédito: M Carroll/ Clarín

Buenos Aires é uma das capitais do futebol no mundo. A capital da Argentina possui 21 clubes sediados em seus bairros. Times como River Plate e Boca Juniors recebem turistas do planeta inteiro em seus estádios e respectivos museus. Um dos principais aspectos que a modalidade no país exporta é a festa de suas torcidas, comandadas pelas suas organizadas, conhecidas aqui como Barras Bravas ou Las Barras.

Estas são tão fundamentais para o futebol e para a sociedade em modo geral, que sindicatos e partidos políticos observaram dentro delas um nicho onde poderiam ganhar força e, principalmente, adeptos.

A história das barras

Eduardo «Flaco» Martinez trabalhou cobrindo as Barras pelo jornal La Nación e hoje trabalha na Telam (Agências de notícias do governo argentino). O jornalista conta que esta torcida começou por volta dos anos 50 após o futebol ganhar popularidade nas periferias de Buenos Aires, conhecidas como cidades do conurbano. Estes bairros ganharam tamanho após a revolução social organizada pelo ex-presidente Juan Domingo Perón.

Muito semelhante ao início das torcidas organizadas brasileiras, os Barras começaram com grupos de amigos que queriam demonstrar de forma mais ordenada seu amor pelos clubes que torciam. Neste período, apenas a paixão era importante para eles. No entanto, a partir de 1958, após a morte do torcedor do Boca Juniors, Alberto Mario Liniker em um jogo que não envolvia seu clube, a sociedade conheceu o poder dos barras bravas.

No decorrer dos anos, o amor se transformou em violência. Amílcar Romero, em seu livro «Muerte en la cancha», afirma que entre 1958 até 1985, cerca de 100 pessoas morreram em decorrência de brigas pelo futebol. Segundo o mesmo, grande parte destas mortes aconteceram no período da ditadura (1976-1983). Além disso, foi neste período que os pequenos grupos formados por jovens se tornaram cada vez mais institucionalizados até o ponto de se tornarem marcas tão famosas quanto os seus clubes.

Barras Bravas e a política

Uma das principais formas de institucionalizar estes torcedores é a participação cada vez mais ativa de políticos ou de interlocutores dentro das torcidas. Eles usam as Barras e/ou os clubes como trampolim em sua carreira política. Esse foi o caso do atual presidente argentino, Mauricio Macri, que por 12 anos foi presidente do clube mais popular do país, o Boca Juniors. A partir desse processo, Macri se tornou conhecido, facilitando seu caminho para ser prefeito da cidade e depois presidente do país.

Outro aspecto muito comum dentro do cenário político argentino é que os barras bravas se transformaram em verdadeiros soldados particulares destes políticos que estavam inseridos no ambiente do clube. Muitos desses torcedores acabam por ganhar empregos próximos aos seus «comandantes» seja como motoristas, porteiros ou seguranças. Segundo Eduardo, através desses «militantes», que funcionam como verdadeiras tropas de choque, os políticos organizam protestos e amedrontam rivais. 

Fora dos grandes clubes, o poder político se torna cada vez mais evidente.  «As barras de ascenso [divisões inferiores do futebol argentino] estão sempre ligados a alguns punteros, mediadores dos povos mais carentes com os políticos», afirma Eduardo. 

Barras e os sindicatos

Uma das formas utilizados para fazer essa interlocução são os sindicatos. Organização muito forte na Argentina, que cada vez mais vem exercendo sua força em todos os setores das canchas argentinas. Um dos principais exemplos é Luis Barrionuevo, atual líder sindical da UTHGRA (União dos trabalhadores de Turismo, Hoteleiros e Gastronômicos). O sindicalista foi presidente do modesto clube, Chacarita Juniors. Equipe da cidade de San Martín, região metropolitana de Buenos Aires e que em alguns anos atrás teve uma das mais famosas e temidas barras da Argentina: La famosa banda de San Martín.

Barrionuevo, que não é torcedor do Chacarita, mas do River Plate, usou suas influências dentro do clube para utilizar os torcedores como apoiadores do governo do presidente Carlos Menem. Eles participavam das manifestações cantando e tocando músicas em homenagem ao governante que o sindicalista era apoiador.

Assim como os políticos, os sindicalistas costumam utilizar os barras bravas como grupos de choques contra a polícia e outras autoridades. Uma das relações mais modernas e mais importantes entre os trabalhadores e os hinchas é a de Hugo Moyano. Presidente do maior vencedor da Taça libertadores da América, Independiente. O mandatário é o líder sindical dos caminhoneiros e secretário-geral da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores). Hoje ele é o sindicalista mais forte da Argentina e um dos principais nomes dentro da AFA (Associação do Futebol de argentino). Inclusive seu genro, Cláudio (Chiqui) Tapia é o atual presidente da AFA. 

Hugo Moyano utilizou os serviços de Bebote Álvarez, ex-líder dos Barras do Independiente, para realizar movimentos contra a reforma trabalhista liderada por Macri. No entanto, Bebote nos últimos meses vem acusando Hugo e seu filho Pablo de corrupção dentro do clube.

Hugo Moyano, ao centro, é o líder sindical mais importante da Argentina e também presidente do Independiente. Crédito: Instagram Independiente

Geralmente, quando não há um sindicalista ou político por trás, as barras não contam com uma classe favorita. Entretanto, de acordo com o jornalista do Diário Olé, Juan Pablo Mendez «eles vão aonde dão mais dinheiro».

As barras bravas no governo Cristina Kirchner

As Barras sempre foram apoiadoras dos governos kirchneristas, principalmente o de Cristina Kirchner. Foi no período da ex-presidente que foram criadas ações que foram vistas com bons olhos pelas torcidas. A primeira medida foi a criação do Fútbol para todos, ação que estatizou os direitos de transmissão do futebol argentino, tirando os direitos do grupo Clarín, rival de Cristina e dos barras. Nesse momento, segundo Flaco e Juan Pablo, torcedores do River e do Boca se uniram para segurar uma faixa contra o Clarín. 

Outra medida foi a criação da Hinchadas Unidas, grupo patrocinado pelo governo para ir torcer pela Argentina nas Copas do Mundo da África do Sul e do Brasil. Nestes grupos, vários barras que estavam proibidos de ir aos estádios se infiltraram, resultando em um fracasso do projeto.

Mesmo com ações e falas favoráveis, a ex-presidente também proibiu qualquer jogo com torcida visitante e acabou com uma das principais formas desses grupos ganharem dinheiro, e de brigarem no campo com outras torcidas.

De acordo com Juan Pablo, a barra do Racing (La Guardia Imperial) foi contratada pela política peronista para fazer a segurança de vários comícios de Cristina em Avellaneda. Em um desses dias, Kirchner foi fotografada tirando fotos com muitos desses barras bravas.

O movimento Hinchadas Unidas foi apoiado pelo governo Cristina Kirchner. Crédito: CEDOC/ 442 Perfil

Las Barras hoje

Rafael Di Zeo, um dos barras mais perigosos do país, afirmou para o canal «Canal +» que «hoje as brigas acontecem entre si». A provável causa dessas confusões internas é a possibilidade de obter o poder. O torcedor enfrentou um desses problemas ao ser protagonista de um racha na La 12.

Hoje, ter o poder das Barras Bravas é fundamental, já que dentro desses grupos circula muito dinheiro. Seja com suas vestimentas, na venda de «tour» pelos jogos para turistas e principalmente no mercado de flanelinhas. «Nos últimos anos elas [as Barras] estão cada vez mais fortes economicamente», Eduardo Martinez vê que esse novo modelo de negócio empregado pelas torcidas está gerando cada vez mais resultados benéficos economicamente.

Rafa Di Zeo e Mauro Martín, o do centro e da direita respectivamente, brigaram pelo posto de líder da La 12, mais famosa torcida da Argentina. Crédito: TELAM

Muitas vezes, principalmente em clubes de menor expressão, as Barras têm mais força econômica que o próprio clube, gerando assim equipes reféns de seus hinchas. Nesses casos, o Barras Bravas acabam por emprestar dinheiro para o time que, por sua vez, utiliza para pagar jogador, conta e até mesmo a segurança.

Hoje, os Barras Bravas se mantém poderosos e ativos pela conivência e participação de grupos políticos e sindicais. Muitos desses e outros tantos torcedores observam que independente da violência e da corrupção, os Barras Bravas continuam e vão continuar sendo um mal necessário para o futebol argentino.

*A reportagem tentou encontrar em contato com Barras Bravas mas não obteve resposta.

Nicola Ferreira é participante do IX “Jornalismo Sem Fronteiras”  que leva jornalistas e estudantes de comunicação e áreas correlatas a Buenos Aires para um mergulho de 10 dias no trabalho de correspondente internacional.

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