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Empreendedorismo: Uma Saída Para A Crise Argentina?

Empreendedorismo: Uma saída para a crise argentina?

Com Buenos Aires eleita a Cidade do Empreendedorismo em 2015, governo Macri busca federalizar incentivos

VICTOR RECHE

DE BUENOS AIRES

 

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Argentina ajusta sua economia pouco a pouco. Foto por: Victor Reche

Neste bicentenário da independência argentina, o país não vive um de seus melhores momentos na economia. Segundo o banco JP Morgan, os argentinos amargarão 38,5% de inflação neste ano e mais 23% em 2017. O consenso é de que o PIB encolherá em 1% e a taxa de desemprego passa dos oito pontos percentuais atualmente.

Para enfrentar esse cenário, o governo Macri está lançando programas de incentivo ao empreendedorismo [Veja no infográfico]. De um lado gera renda para quem não consegue uma ocupação e de outro, estimula a economia local e gera empregos a longo prazo. Segundo o subsecretário de empreendedores do Ministério da Produção argentino, Esteban Campero, as pequenas e médias empresas (PyMEs, na sigla em espanhol) serão importantes para a reconstrução da economia: “Para mim, as PyMEs são um fator fundamental para a recuperação da economia do país. Na Argentina, nós falamos que as PyMEs são responsáveis por 90% do tecido produtivo nacional. Então elas serão fundamentais e o nosso maior desafio é apoia-las para melhorar a produtividade e a competitividade. Também queremos aumentar a quantidade de PyMEs, por isso estamos trabalhando com os empreendedores. Melhorar as que já existem e gerar novas”.

 

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Ainda de acordo com Campero, hoje o empreendedor sofre com a burocracia. Segundo ele, são nada menos que 14 trâmites e 60 dias para abrir um novo negócio atualmente, algo que pretende se mudar em breve com um novo Marco Regulatório: “Mandamos para o Congresso um pacote de medidas que tem um impacto impressionante nas contas das PyMEs e que melhora a relação [delas com o Estado], juntamente com a melhora da arrecadação e também estamos esperando para discutir o projeto de lei de empreendedores, que definirá, entre outras coisas, a criação de uma empresa em um dia”.

A burocracia argentina também incomodou o belga Nicolas Berenfeld, 32, quando abriu há dois anos a fábrica de impressoras 3D Trideo, juntamente com outros dois sócios franceses: “Nós, quando começamos, para abrir uma sociedade anônima demorava 4 ou 5 meses em um processo de mais de 25 trâmites. Uma loucura tremenda”, conta.

Ele também discorre sobre como a inflação atrapalha a operação da empresa: “Para uma empresa ter um país com uma inflação de 30% ao ano é muito complicado porque você não pode guardar dinheiro na sua conta, já que o dinheiro está perdendo valor. Então você sempre tem que investir o dinheiro em material, porque o estoque de material, sim, ganha valor com a inflação. Então fica muito mais difícil ter segurança financeira, já que não se pode ter reserva de dinheiro”, completa Berenfeld.

Apesar do ambiente de negócios conturbado, o que estimulou o empreendedor a abrir um negócio foi a abundância de oportunidades no país: “Não nos interessa vender impressoras na Europa ou Estados Unidos, que são mercados maiores, mas que têm muito mais competição, estão um pouco saturados. Vamos aproveitar um pouco a ausência dos líderes mundiais aqui”. Dentro de seu escritório, que também é a linha de montagem, o belga relembra de quando desembarcou no país há seis anos, em plena crise econômica mundial: “Para conseguir um trabalho em finanças [na Europa] em 2009 ou 2010 era quase impossível, e a ideia era vir para cá e ver o que havia”. “Eu tinha vontade de conhecer o continente e a Argentina, por ser um pouco parecida com a Europa, é uma boa porta de entrada. Então quando cheguei aqui, não estava totalmente perdido, há muitas coisas que são similares. Então vim para conhecer, não vim com a tecnologia ou um projeto já armado. Os três sócios se juntaram aqui e todo o projeto começou aqui”, relembra.

Também há uma expansão nos horizontes da Trideo: “O Brasil é o primeiro da lista e a ideia é estar em São Paulo até o fim do ano. Fazer uma oficina produtiva fora de São Paulo e um escritório no centro. Mas também há outros mercados que são muito interessantes, talvez Peru, Colômbia, que são economias em crescimento”, almeja o sócio.

A empresa vende entre quatro e dez máquinas ao mês. Foto por: Victor Reche

A empresa vende entre quatro e dez máquinas ao mês. Foto por: Victor Reche

Outro empreendedor que decidiu apostar no país foi o americano Todd Johnsen, 23. Ele realizou um intercâmbio no país em 2013 e também identificou oportunidades de negócios: “Antes eu pensava a Argentina como um lugar para estudar, para saber algo diferente. Apesar de ver os erros que o governo cometia aqui, havia muito potencial. Há muito mercado e há muitos conceitos ainda não realizados aqui e que já existem nos Estados Unidos”.

Desde janeiro, Johnsen toca duas empresas na Argentina, a revendedora PriceWise Celulares e a AtHome, um site onde se pode contratar desde serviços domésticos até enfermeiras sob demanda. Ele acredita que o país é atrativo, principalmente, para empresas de tecnologia: “Conceitos diferentes são especialmente os negócios online, porque o uso de internet na Argentina é bastante alto comparado a outros países da América Latina. As pessoas estão a todo tempo usando celulares e todos os tipos de tecnologia”, analisa.

Ambos os empreendedores iniciaram com recursos próprios, sem qualquer ajuda do governo argentino ou incubadoras. Com os planos recentemente anunciados, espera-se impulsionar negócios locais através de investimentos financeiros e também educação segmentada. O consultor e professor Diego Salazar, que trabalha na Secretaria de Produção e Desenvolvimento Econômico do município de Morón, na Grande Buenos Aires, diz que o dinheiro é apenas parte do necessário para se construir negócios sustentáveis: “O empreendedor precisa ter ferramentas, não só estímulos econômicos, mas também de formação e capacitação. Por exemplo, um empreendedor pode ser um expert em sua área de negócio, mas o empreendedor precisa ter uma compreensão global do negócio, precisa entender de recursos humanos, de finanças, de como elaborar um plano de negócios, de como fazer a comunicação do seu projeto”, argumenta. De fato, isso foi incluído na plataforma online Academia Argentina Empreende, que faz parte do novo plano de empreendedorismo do governo federal.

Esteban Campero diz que serão lançados dez fundos diferentes em quatro anos: “Nós queremos que os próximos governos se apoiem nessas ferramentas e que o empreendedor argentino que queira ter o seu negócio não tenha apenas a opção de fazê-lo em outro país”.

Nota: É possível obter mais detalhes dos fundos no site do Ministério da Produção: Fundo SemillaAceleradorasFundo de fundos e PAC empreendedor.

 

VICTOR RECHE é estudante de jornalismo e participou do “Jornalismo sem Fronteiras”, que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Buenos Aires para um mergulho de 10 dias no trabalho de correspondente internacional.

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