Todos aprendemos de modo diferente. Alguns preferem ler e fazer anotações, outros realizar atividades práticas ou debater. Existem inúmeras formas de aprender, assim como existem milhares de oportunidades para isso todos os dias, e não estamos falando de aulas, de livros técnicos ou cursos online. Cada experiência cotidiana, cada conversa, cada interação pode ser uma fonte inestimável de conhecimento, se nos abrirmos para essa possibilidade.

E oportunidades para aprender é o que não faltam, mesmo quando achamos que o dia já está encerrado e mais nada pode acontecer. Às vezes, essas oportunidades surgem de uma situação difícil. Já era depois das 23h no nosso primeiro dia aqui, todos já haviam se despedido para ir para os quartos e trabalhar em seus textos para o blog quando chegou a notícia de que o motorista da Uber havia se atrapalhado e deixado a Thais na quadra errada, longe do local onde está hospedada. Na noite seguinte, a mesma coisa, dessa vez com a Luiza.

O que começa como um momento de angústia e raiva, xingando o motorista e o planejamento organizado-caótico de Brasília, se transforma em calma e na necessidade de resolver um problema – procurar sua localização no mapa, chamar outro carro, acompanhar o trajeto. Finalmente cai a ficha de que estamos em um lugar diferente, que tem sua própria lógica, e que ela não vai mudar para se adaptar a nós. Somos nós que precisamos sempre ser flexíveis e nos adaptar. E isso não vale apenas para quando nos perdermos, mas a todo momento.

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Às vezes, o próprio ambiente pode nos ensinar. O voo do Augusto atrasou – duas vezes – o que fez com que ele perdesse as atividades do primeiro dia (ele compartilhou toda essa aventura em seu blog, dá uma olhada lá!). No segundo, com algumas horas livres, saiu para caminhar pela cidade, indo até o estádio e depois refazendo o caminho até o Congresso, para participar por conta própria da visita que havia perdido no dia anterior. Há coisas que aprendemos sobre uma cidade apenas ao caminhar por ela, vivenciando seus trajetos, seus tons e cheiros, e flashes das vidas das pessoas que moram e trabalham aqui. Segundo Augusto, a primeira coisa que aprendeu foi que as distâncias aqui enganam, que parecem perto, mas não chegam nunca. Da próxima vez, já combinaram que vão sair é de bicicleta.

Às vezes, aprendemos com pessoas que não têm dezenas de anos de experiência e um currículo rebuscado, mas sim com aqueles que estão próximos a nós. Em idade, em situação de vida e em mentalidade.

Quem acompanhou o último Jornalismo Sem Fronteiras talvez se lembre do Victor Gomes. O objetivo dele como jornalista sempre foi trabalhar com política, por isso saiu de Maceió e veio estudar em Brasília, com o sonho de um dia trabalhar com Fernando Rodrigues, expoente máximo do jornalismo investigativo político no Brasil, repórter da Folha de 1984 a 2014 e colunista do UOL desde 2000, mas que recentemente abriu seu próprio portal, o Poder 360, além de manter uma newsletter, a Drive Premium, cujo público alvo são políticos e empresários, que contém notas curtas sobre todos os acontecimentos importantes do mundo político e econômico.

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E ele conseguiu, quando o repórter abriu as vagas para que outros jornalistas o ajudassem nessa nova empreitada. Há 8 meses Victor trabalha como estagiário na equipe do Poder 360, e falou com nossos participantes como um deles: alguém na faculdade tentando encontrar seu lugar e se firmar nesse mundo do jornalismo político. Conversar com alguém mais próximo da nossa própria realidade, mas com uma experiência diferente, também é um aprendizado muito importante.

Ele foi um dos convidados que mais fizeram sucesso na história do programa. Todos queriam fazer perguntas, saber como ele havia conseguido o emprego, o que fazia exatamente, como era cobrir o Congresso e falar com deputados e ministros sem ainda ter suas fontes formadas ou um nome conhecido, como era trabalhar para o Fernando, sua rotina, como se mantém atualizado, como funciona o sistema da newsletter, como foi a passagem do blog UOL para o site, TUDO.

A primeira coisa que Victor nos disse foi que Brasília não é uma cidade incrível, mas para quem gosta de política e macroeconomia não tem lugar melhor. A segunda, foi que cobertura política é algo muito estranho. Como tudo é acompanhado 24h por dia e documentado detalhadamente, é necessário buscar muito para encontrar uma informação que não seja algo que todo o mundo tenha. As informações exclusivas, os furos, são muito valiosos, principalmente na redação do Poder 360.

Após o presidente do Senado, Renan Calheiros, ter sido afastado para que não pudesse entrar na linha de sucessão à presidência, Victor teve um estalo de descobrir quantas vezes já havia realmente acontecido de Calheiros assumir a presidência. Ao entrar em contato com o Senado, eles passaram a informação (Dica: qualquer um pode requisitar documentos e informações sobre as ações dos políticos nas secretarias, pois são dados de domínio público) e no mesmo dia uma nota sobre isso já saiu na Drive Premium, algo que apenas eles deram. Uma curiosidade, mas o importante é ter esse olhar diferenciado, sair da bolha e pensar em algo diferente.

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Sobre se acostumar ao ritmo e aos jargões da cobertura política, Victor disse que não tem jeito, o negócio é ir pegando o jeito com o tempo, mas na busca de pautas para o programa deu uma dica valiosa: “Olhem nos sites de todas as secretarias a agenda da semana e procurem os relatórios de reuniões e decisões para comparar com a proposta original, às vezes têm discrepâncias que valem a pena investigar, ligar para o redator do relatório e ver se é isso mesmo.”

E como a vida não é fácil, muito menos a de estagiário, Victor contou também sobre os perrengues e dificuldades que passou, como a vez em que precisava entrevistar o deputado Fernando Giacobo no mesmo dia, mas ele dizia que só podia no dia seguinte, então ele teve que fazer plantão na sala de espera do deputado por horas até que ele saísse de uma reunião para tentar convencê-lo a falar naquela hora. Conseguiu, ufa, mas fica a lição: é necessário trabalhar muito e mais um pouco e nunca desistir para conseguir alcançar seu objetivo.

A conversa foi longe, em um bate-papo descontraído, e acabou em um restaurante próximo ao hotel, discutindo Brasília, política, a vida e o universo, mais uma oportunidade para aprender.

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Mas não é necessário chamar alguém de fora para termos essa oportunidade. Seja nas nossas reuniões de pauta, trocando experiências e refletindo sobre tudo o que passamos no dia, seja nos momentos em que ficamos todos juntos na redação (leia-se, o restaurante do hotel) trabalhando nos nossos blogs e matérias, revisando nossos textos e trabalhando juntos, ou seja em rodas de conversa que começam comentando a corrida que teria em Brasília no dia seguinte e terminam em teorias da conspiração sobre se Neil Armstrong pisou ou não na lua, estamos aprendendo a todo o momento.

Somos muitos, vindos de lugares distantes, com histórias diferentes, bagagens diferentes e visões de mundo diferentes. Quando conversamos, trocamos ideia, ou lemos os blogs um dos outros, percebemos que, apesar de termos estado todos no mesmo lugar, escrevemos sobre coisas completamente distintas, saímos de nossa própria bolha, de nosso próprio senso comum e aprendemos com outros olhares.

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Aprendemos muito hoje, e ainda vamos aprender muito mais, pois nosso mergulho no coração da crise está apenas começando.

Amanhã voltamos para compartilhar um pouco mais de tudo o que aprendemos, sabendo que, assim, outros também podem aprender.

Até mais!

 

Dica:

Nossa participante Helena Leirner contou em seu blog sobre uma iniciativa do Senado Federal, em conjunto com o Instituto Legislativo Brasileiro, de oferecer cursos online à distância em diversos assuntos relacionados à política e economia. Nas palavras dela “É fundamental aproveitar as oportunidades oferecidas pelo Estado, ainda que menores, como esta”. Dá uma olhada no blog dela e aproveite mais essa forma de aprender!

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