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Sexta-feira – 19 de julho

A sexta-feira foi um dia que começou na quinta. E de maneira meio trágica. Explico: o hotel comunicou que iria fazer uma manutenção e, por isso, a água seria desligada às 23h da quinta-feira, 18, e só seria restabelecida às 6h de sexta. Como vimos no diário de ontem, nossa quinta não foi moleza, viramos meia Buenos Aires em um dia que parece ter tido 36 horas. Mas nem isso fez com que parássemos: chegamos no quarto e já corremos para agilizar a produção. Como ninguém se lembrou que não haveria água depois das onze da noite (por estarmos muito envolvidos com o trabalho) alguns continuaram escrevendo e outros foram descansar. Quando percebemos já eram mais de 23h e os chuveiros não tinham mais uma gota de água. Irônico, justo no dia que o Ariel nos contou sobre quando ficou cinco dias sem tomar banho na cobertura do terremoto do Chile. Mas, não sobrou outra alternativa, fomos dormir sem banho mesmo. Porém, a pior surpresa foi ao acordar: ainda não havia água. A recepção informou que em pouco tempo teríamos água novamente, entretanto, esqueceu de falar que ela voltaria, mas o aquecimento não… A partir daquele momento havia água, mas, fria. Os que conseguiram utilizar a água, ainda que congelante, numa temperatura de 8°C, agradeceu por não ter que começar seu dia sujo. Mas logo após se trocarem, o aquecedor voltou. Serviu para vermos, ainda que em menor escala, como é lidar com essas situações adversas e como saber contorná-las. No dia-a-dia acabamos esquecendo como essas coisas básicas fazem falta. Não tê-las causa uma sensação estranha.

Confira todo o relato de Clésio Oliveira.

Alguns aprendizados

Nem todos quiseram descer, por causa dos horários apertados para escrever, mas hoje era dia de reunião. Era o momento de refletirmos sobre o que havíamos aprendido até aqui. Partindo das diferentes atividades que já realizamos, cada um foi relembrando o que os correspondentes compartilharam com a gente sobre suas experiências. Poucas das dicas passaram por questões técnicas. A imensa maioria estava relacionada com postura profissional: ser confiável e colaborativo; ter boa relação com a fonte e com outros jornalistas; pontualidade; apresentação pessoal e forma de vestir-se; humildade.

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Uma base cultural sólida

Todos foram unânimes em ressaltar que temos que ler muito, viajar, viver. Não basta apenas trabalhar. Outra característica fundamental para o bom jornalista é a curiosidade e a capacidade de se assombrar, de se surpreender o tempo todo. Essas vivências e esse olhar ampliam o nosso repertório cultural e nos auxiliam na produção dos textos. Nos permite relacionar fatos, achar explicação para duas coisas aparentemente desconexas e fazer o leitor ir além. Quando pegar o computador para escrever, lembre-se sempre do leitor que está do outro lado. Isso vai mesmo instigá-lo? Você é capaz de ser os olhos dele naquela situação?

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Aprendemos também que, mesmo sendo experiente, o jornalista (imagino que todos os profissionais passam por isso) nem sempre faz o que quer, da sua maneira. Faz parte do jogo. Como nos disse a Janaína Figueiredo: se não estamos de acordo com suas regras, melhor sairmos enquanto há tempo. E assim foi nossa reunião: um assunto puxou o outro. Até mesmo quem não costuma falar dessas coisas compartilhou seu aprendizado conosco. Deu para perceber que fizemos bem o trabalho de absorver, como pequenas esponjas. Dá para ter certeza de que sairemos daqui completamente cheios de conhecimento e experiências memoráveis.

Uma ressalva

Exatamente por estarem todos mega envolvidos com a finalização das  pautas, boa parte da “equipe de correspondentes” ficou “presa na redação” e não tivemos acesso a todos os relatos do que rolou no dia. O diário de hoje é parcial. Contem apenas as atividades de uma parte dos participantes.

Correspondente de portas abertas

O Clésio e a Deborah tinham uma missão muito especial depois da reunião: ir até à casa da Janaína Figueiredo, correspondente do jornal O Globo, para gravar uma entrevista que será veiculada no programa Edição Extra da Gazeta. Se o resultado for positivo, é possível tentar vendê-la para a TV aberta. Motivador! Pegaram o táxi e lá se foram. Era hora de aplicar as dicas que nossos colegas correspondentes nos deram até aqui. E uma das principais era não chegar atrasados em uma entrevista. Só não chegaram pontualmente às 13h, porque o taxista parece ter adotado um caminho “pouco convencional”, talvez para engordar um pouco mais a corrida. Quatro minutos passados do horário, interfonaram no prédio da Janaína. Subiram e, apesar da informalidade, ela os recebeu com tapete vermelho (com o perdão do clichê). A ansiedade de qual seria a melhor maneira de conseguir boas declarações foi em vão. Ela foi a entrevistada dos sonhos de todos os repórteres. Então, não perderam tempo, armaram o tripé (sempre em frente à janela para aproveitar a luz do dia, xodó de dez entre dez jornalistas improvisadores). A entrevista fluiu tão bem que nem precisou daquele protocolo chato de começar com uma pergunta genérica. O papo corria solto e perceberam que, se não começassem a gravar a partir dali, perderiam muita coisa boa. O Clésio colocou o celular na mesa para capturar o áudio e foi cuidar do enquadramento, enquanto a Deborah conduzia a entrevista. Até a arquitetura da casa parecia colaborar, a janela ocupava toda a parede e garantia uma iluminação fantástica, mesmo em um ambiente fechado e sem luminárias.

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Apesar de dizer que só tinha 30 minutos, a Janaína foi super compreensiva e a entrevista se estendeu mais do que o previsto, sem que isso afetasse a simpatia da entrevistada. Sabendo o quão apertada é a agenda dela, não incomodaram muito também. Souberam a hora de parar. De quebra ela ainda mostrou o arquivo pessoal de fotos, passou o e-mail de um grande jornalista argentino e até nos contou informações em off. O sonho da nossa vida era ouvir uma off-the-records de uma jornalista conceituada! Voltamos a euforia em pessoa. Acho que o taxista até estranhou tanta empolgação assim.

Redação em fechamento

Quando o Clésio e a Deborah chegaram o clima já era de fechamento de matérias. Era gente espalhada pelo restaurante, voltando das últimas entrevistas, decupando o que faltava ou dando os últimos retoques na “cria”. Melhor nem contar muito da entrevista para não atrapalhar o clima.

Com isso, nem deu para fazer muitas coisas em equipe. O único saldo negativo do dia, mas compreensível diante da importância de entregar as matérias e até mesmo aproveitar a cidade antes da volta para São Paulo. Dessa forma, cada um almoçou (ou quase isso) e continuou seu fechamento.

Caravana do Papa

Eram pouco mais de 18h e a Deborah (sim! Ela de novo!) já se preparava para sair para mais uma aventura: sete ônibus, levando mais de 50 pessoas cada, iam partir da Catedral de Buenos Aires rumo à Jornada da Juventude, no Rio. Impossível perder a preparação dos argentinos para a primeira visita de seu Papa ao continente. Precisávamos de uma equipe lá. Não poderíamos perder a oportunidade de registrar uma notícia de um tema que estava em todos os jornais! Então, nossa editora-chefe, Claudia, perguntou se o Clésio não queria acompanhá-la. E assim se reeditou a dupla dinâmica da manhã. Dessa vez, o desafio era totalmente oposto: nada de condições ideais de luz, som e disponibilidade do entrevistado. Agora era na rua, com o frio, a multidão e a (ausência de) luz noturna para filmar. Nada de táxi, para chegar ao local fomos de metrô, afinando a pauta pelo caminho.

Assim como na filmagem da Janaína, só levávamos uma câmera semi-profissional, um celular para gravar o áudio e tentar sincronizar depois, um gravador e um tripé – por via das dúvidas. O objetivo era produzir uma matéria no formato de telejornal e pegar material para a Deborah terminar sua matéria sobre o Papa.

Quando demos de cara com a Catedral ficamos estupefatos: a fila de ônibus era de se perder de vista, quase se encontravam com a Casa Rosada, que fica ao fundo. As equipes de TV também estavam ouriçadas, haviam cinco unidades móveis e uma dezena de equipes. Tínhamos que partir para disputar as fontes com eles.

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Pelo fato dos dois trabalharem em TV (o Clésio no SBT e a Deborah na Gazeta), eles não ficaram tão perdidos assim. Mas de qualquer forma é uma experiência diferente fazer todo o processo: eles tinham escolhido e afinado a pauta; elaboraram as perguntas e quem iriam entrevistar; no local, cuidaram de questões técnicas de filmagem e de reportagem; já tinham que pensar em um texto, para já gravar a passagem do repórter; isso, sem falar na parte da edição.

Não havia tempo há perder. Eram 20h e a previsão inicial de saída era 21h. Partiram logo para as entrevistas. Quando incorpora a repórter, a Deborah perde completamente a timidez. Abordava as fontes sem problemas e já gravavam ali mesmo. A dificuldade ficava por conta da pouca luminosidade no vão entre a igreja e os ônibus. Em algumas, o Clésio tinha que dar uma puxadinha nela e no entrevistado. Em alguns casos, nem isso funcionou. Mas o ritmo das entrevistas ia aumentando: entrevistaram estudantes com mochilas maiores que eles próprios, outros com roupas típicas, uma professora de catequese, o motorista de um dos ônibus, uma freira e algumas pessoas que conheciam o Papa Francisco na época da paróquia portenha. A passagem, que costuma ser o terror de qualquer repórter, saiu bem fácil. Sorte de principiante?

Depois de entrevistar uma senhora, ela nos levou para dentro da Catedral, onde estava sua filha e onde se celebrava uma missa. Foi quase um oásis. Gravaram tudo que tiveram chance e, novamente saíram com sentimento de missão cumprida. Para comemorar, ainda comeram hambúrgueres enormes por ali mesmo. A gula foi tanta que perderam o metrô. Aqui ele fecha às 23h. Descobriram da pior maneira possível. Apesar de já estarem com a passagem comprada, tivemos que pegar um táxi.

Mais difícil que a reportagem

Já eram 23h30 quando chegaram ao hotel e o instinto jornalístico não deixava irem para a cama e deixar aquele material esfriando ali. Bastaram cinco minutos, para pegarem os computadores no quarto e passar rapidinho no banheiro, e já estavam sentado na sala de computadores (sede de boa parte da noite). A edição é o momento que a matéria ganha realmente uma cara. Porém, é bem burocrática e morosa. Principalmente quando se tem apenas um notebook com a tela da metade do tamanho de um computador usado para edição, nenhum mouse, nem cadeira confortável para editar. Se acomodaram na saleta que não deve passar dos 6m².

A empolgação com os resultados que iam obtendo fazia com que o tempo passasse sem ninguém perceber. Os ponteiros circulavam e já atingiam uma, duas, três da manhã. Se tivessem um Gerenciador de Tarefas do Windows, com certeza registrariam um uso de CPU de 99%. Enquanto a Deborah decupava as entrevistas no gravador, o Clésio separava o vídeo e colocava o melhor na time line, depois pegava a gravação do celular e tinha que colocar sincronizada com o vídeo; isso enquanto ajudava a Deborah a fechar o texto.

Foi um parto lento, mas a criança parecia estar pronta. Faltava efetivá-la, através da gravação do off. Como já passava das 3 da manhã e o estúdio era o saguão do hotel, não dava para falar muito alto e, ao mesmo tempo, era necessário escapar dos ecos e barulhos de fundo. A empolgação ajudou. A dificuldade, como de praxe, veio quando precisamos de internet para transmitir o arquivo com os offs da Deborah. Andaram para lá, para cá, tentaram outras redes, mas nada dava resultado. Como nem nos quartos ela pegava, cada um foi para seu quarto, quando já era 3h. O Clésio, que estava há dois dias sem o que chamamos de banho, decidiu entrar debaixo do chuveiro e relaxar. Porém, a medida que seu sono aumentava, a água que escorria diminuía. No começo, parecia até ilusão, mas ele comprovou que não era quando a água que estava tão rala, o queimou. Não teve jeito, era mais um dia sem banho. Será que ele vai alcançar o Ariel, em sua aventura no Chile?

Agora, teremos o sábado e no domingo para arrumamos nossas malas e aproveitar a terra do café con leche y medias lunas. Ouvimos na rádio que existe a possibilidade de nevar na cidade pela segunda vez em 95 anos. Fecharia nossa jornada com chave de ouro, mas, caso neve até à noite, nossa viagem de volta pode ficar comprometida. O que nos reserva a padroeira Nossa Senhora de Lujan?

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