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Criação De Uma Equipe De Jornalismo De Dados: Dicas Práticas Para Que Programadores E Jornalistas Trabalhem Em Sincronia

Criação de uma equipe de jornalismo de dados: dicas práticas para que programadores e jornalistas trabalhem em sincronia

Este artigo faz parte do livro “Jornalismo Inovador na América Latina,” publicado pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, com o apoio do Programa de Jornalismo Independente da Fundação Open Society.

 

Por Fabiola Torres López, Fundadora e editora de OjoPúblico

Fabiola Torres, fundadora e editora do site peruano de jornalismo investigativo Ojo Público (Divulgação)

Na era dos dados massivos, o jornalismo se coloca em uma posição crucial ao se apoiar na tecnologia informática para reinventar métodos de pesquisa, análise e cobertura das notícias.

Se há cinco anos os repórteres que rastreavam revelações em bases de dados ajudados por hackers ou desenvolvedores eram os ‘nerds’ das redações, o panorama atual é distinto: o mundo conhece desde histórias pontuais de corrupção até investigações globais como os Panamá Papers, graças ao fato de que cada vez mais meios entendem os benefícios da aliança entre repórteres e tecnólogos. A entrega do Prêmio Pulitzer 2017 a esta última revelação sobre o lado obscuro da indústria offshore pode ser lido como o maior reconhecimento ao rigor e ao impacto desta nova forma de trabalho.

Na América Latina e Central, a lacuna tecnológica no jornalismo é grande, mas é animador ter oito jornais e seis sites digitais nativos que formaram equipes de jornalismo de dados inspiradas nas experiências de The New York Times, The Guardian, ProPublica e Los Angeles Times.

Sou cofundadora de um deles: Ojo Público, um meio digital que funciona com uma equipe de seis jornalistas e dois desenvolvedores especializados em investigações com bases de dados, entre as quais se destaca Memoria Robada, que ganhou o Terceiro Prêmio Latino-americano de Jornalismo Investigativo de 2016. Foi a primeira grande investigação regional com dados massivos que evidenciou a escala do tráfico de patrimônios culturais na América Latina e sua condição de crime organizado.

As unidades de jornalismo de dados que destaco têm características distintas, tanto em número, perfil e dinâmica de trabalho, mas a maioria conseguiu em pouco tempo revelações impactantes e reconhecimentos no prestigioso concurso dos Data Journalism Awards, organizado pela Global Editors Network (GEN), para identificar as histórias mais inovadoras apoiadas em bases de dados.

Estas equipes estão na Argentina (1), Peru (2), Costa Rica (1), Colômbia (2), Brasil (6), México (1) e Chile (1). Tenho o privilégio de conhecer vários de seus integrantes e a experiência que acumulam, o que me permite descrever algumas das características básicas que podem ser úteis a outros jornalistas e tecnólogos que buscam seguir seus passos.

1. O tamanho é relativo

Time de dados do La Nación (Divulgação)

“Uma das chaves do sucesso de uma equipe de jornalismo de dados é a diversidade do perfil de seus integrantes”, assegura Ricardo Brom, gerente de inteligência de dados do diário La Nación, da Argentina. Engenheiro eletrônico por profissão, Brom saiu da gerência de serviços tecnológicos do jornal no início de 2011 para se converter no cérebro por trás do código do La Nación Data, o departamento de jornalismo de dados do jornal que se transformou em referência no campo na América Latina.

A equipe conta com uma jornalista coordenadora, com habilidade em gestão de bases de dados; uma repórter especialista na lei de acesso à informação; dois programadores, um analista de dados e um designer responsável pela visualização. Eles se dedicam a projetos especiais de médio e longo prazo, mas também colaboram de forma paralela com vários repórteres de diferentes editorias da redação que precisem de assessoria.

As características da equipe do La Nación Data correspondem às de uma unidade de jornalismo de dados de um meio grande, o que concedeu uma participação relevante em suas investigações. Mas isso não quer dizer que apenas as equipes numerosas têm possibilidades de fazer histórias impactantes com bases de dados. A experiência de meios digitais como Ojo Público e Convoca, no Peru, ambos ganhadores do Data Journalism Awards, demonstra que é possível fazer um excelente trabalho à medida que os jornalistas integrem às redações um desenvolvedor com conhecimentos suficientes de linguagens de programação para a gestão de bases de dados.

2. Os desenvolvedores

No campo de desenvolvimento web, há profissionais e autodidatas com diversos conhecimentos em computação. Mas uma equipe de jornalismo de dados precisa de desenvolvedores com dois tipos de perfis: o backend, que trabalha do lado do servidor e na gestão de bases de dados, e o frontend, responsável pela parte visível de uma plataforma. Se só existe a possibilidade de contar com um deles, deve-se começar por localizar e integrar o backend.

Estas são as características do trabalho que cada um realiza:

  • O desenvolvedor backend fica encarregado da programação dos diferentes componentes do site web e da gestão das bases de dados. Conhece as linguagens de programação Java, PHP, Ruby e Python, assim como gestores de bases de dados como MySQL, Postgres, SQL Server e MongoDB. Além disso, o desenvolvedor entende sobre segurança digital para evitar ataques ao servidor.
  • O desenvolvedor frontend constrói o código de todos componentes visuais de um site. Domina três linguagens de programação: HTML (HipertText Markup Language), que permite a estruturação de todas as plataformas web; CSS (Cascading Style Sheets), que organiza a apresentação e o aspecto (cores, fontes, tamanhos de letra), e JavaScript, que oferece a interatividade (animações, botões, janelas na página).

3. A nova mentalidade do jornalista

O desafio fundamental dos repórteres de uma equipe de jornalismo de dados não está em aprender a usar as ferramentas digitais mais sofisticadas, mas sim em pensar de uma maneira diferente sobre os problemas que devem ser investigados para construir novas maneiras de perguntar, buscar informação, formular hipóteses e métodos de trabalho.

No jornalismo tradicional, o repórter se concentrava em identificar um caso revelador. No jornalismo com bases de dados, ele busca padrões, tendências e fenômenos agora identificáveis. Seu trabalho já não é mais uma atividade solitária, mas sim de uma equipe que, apoiada na tecnologia, vai fornecer fórmulas e cruzamento de fontes corretas para fazer uma gigantesca quantidade de perguntas a bases de dados em pouco tempo e encontrar pistas e provas antes inimagináveis.

4. Espírito colaborativo e espaço integrador

By Deskana (Own work) [CC BY-SA 3.0 (creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons

Todos os integrantes de uma equipe devem conhecer a fundo a história ou investigação para trazerem para ela suas habilidades. Cada um tem claro seu papel, mas também sabe que isso não significa que as suas tarefas serão limitadas, e que pode colaborar com ideias e soluções durante todo o processo: desde as melhores formas de extrair informação, os métodos para análise e verificação, até as alternativas de apresentação da maneira mais clara possível aos leitores ou usuários.

Essa filosofia de trabalho requer que o grupo interaja em um mesmo espaço. Apenas assim será também mais fácil que os repórteres aprendam a se comunicar com a linguagem dos programadores para gerir dados massivos e que estes, por sua vez, pensem como jornalistas quando criarem códigos para cruzar ou analisar uma montanha de informação em busca de conhecimento.

Em meios grandes, como The Guardian e The New York Times, as equipes de dados estão localizadas nas redações, para trabalhar em estreita coordenação com os editores e repórteres das demais áreas. Já em meios digitais pequenos especializados em investigações com dados massivos, como o Ojo Público, as próprias redações estão concebidas como equipes de dados.

5. A caixa básica de ferramentas

Qualquer que seja o tipo de informação ao acessada pelos integrantes de uma equipe de dados, será essencial que saibam usar uma folha de cálculo. Também é preciso um programa para limpar e uniformizar os dados, como o Open Refine, e ferramentas que permitam criar desde visualizações simples, como o Infogr.am e o Tableau, até mais complexas, como o D3.js, uma biblioteca de JavaScript que permite uma variedade de gráficos interativos.

Para projetos que impliquem no manejo de bases de dados da dimensão do OffshoreLeaks ou do Panama Papers, serão necessários programas mais avançados como o Neo4j, que permite identificar conexões entre grande quantidades de dados e mostrá-las em gráficos de nós e arestas, o que faz com que a leitura da relação entre os dados seja mais intuitiva. Neste caso, será essencial o apoio dos desenvolvedores.

6. O componente visual

Ojo Público utilizou visualização de dados em seu projeto “O Clube dos Devedores” (Reprodução)

Muitas vezes, os resultados ou notícias originados em uma ou mais bases de dados cruzadas precisam ser contados em uma linguagem distinta da escrita, para torná-las mais compreensíveis: em visualizações interativas ou fixas. Seu fim principal não é a estética, mas sim a compreensão e a clareza.

Como descrevemos algumas linhas acima, uma equipe de jornalismo de dados tem repórteres que conhecem ferramentas simples para construir visualizações e um ou mais desenvolvedores devem ter a capacidade de criar um código próprio ou reutilizar algum para criar formatos visuais inovadores para narrar suas histórias. Dois livros fundamentais devem estar na biblioteca do grupo: Facts are sacred, de Simon Rogers, e The Functional Art, de Alberto Cairo.

7. Treinamento permanente

Para se manter atualizado sobre as novas ferramentas digitais disponíveis e as formas mais inovadoras de como a tecnologia está sendo usada para potencializar as investigações jornalísticas, a capacitação e exploração constantes são parte da rotina da equipe. Seguir blogs de dados como os do The Guardian, Nación Data e ProPublica é tão necessário como a participação em hackathons, cursos online e workshops locais e internacionais.

8. A integração com a comunidade

Este hackathon realizado durante o ISOJ 2017 reuniu jornalistas e programadores para criar novos aplicativos para o jornalismo de prestação de contas. (Mary Kang/Centro Knight)

Há várias organizações no mundo integradas por jornalistas e programadores que promovem o melhor uso da tecnologia no jornalismo. Fazer parte delas permite trocar conhecimentos e experiências, conhecer novos profissionais, valorizar o talento e as últimas tendências globais no jornalismo de dados. Três se destacam pelo seu alcance:

  • Hacks/Hackers, com capítulos abertos em mais de 90 países
  • Global Editors Network (GEN), que possui 1.300 membros e organiza os Data Journalism Awards
  • Investigative Reporters and Editors, que promove desde 1994 a conferência NICAR (National Institute for Computer-Assisted Reporting), a cúpula anual de especialistas em Jornalismo Assistido por Computadores nos Estados Unidos

9. Um método transparente

Um dos atributos que mais despertam gratidão nos leitores das notícias produzidas pelas equipes de jornalismo de dados é a transparência. A maioria, cada vez que publica seus resultados, explica como se levou a cabo a investigação, que critérios estatísticos ou modelos foram aplicados e que limitações existem na história. Além disso, alguns grupos liberam as bases de dados usadas em GitHub para que sejam reutilizadas por outros jornalistas ou pessoas interessadas em explorar o tema.

É preciso lembrar também que uma das grandes vantagens do trabalho com programadores é a automação de vários processos, como a extração de dados públicos dos portais do Estado e a construção de bases de dados que antes só eram centenas ou milhares de documentos em PDF ou JPG.  Logo depois de serem utilizadas pela equipe, a filosofia é liberar toda a informação de interesse público.

10. Agenda própria

The database search from Ojo Público’s Memoria Robada project. (Screenshot)

A forma de trabalho das equipes de jornalismo de dados permite projetar investigações sobre diversos temas com
enfoques originais e inovadores, desde a forma como estabelecemos os esquemas comprobatórios até as narrativas para apresentar as revelações.

Por exemplo, como explicar o impacto das políticas corporativas abusivas do setor privado da saúde para os cidadãos? Com uma plataforma que te permite saber se seu médico ou sua clínica preferida têm denúncias por má prática e quem está por trás disso. Como explicar o impacto do tráfico de patrimônio cultural na região? Com a primeira investigação que rastreia 2 milhões de dados e reúne pesquisas, um buscador de objetos roubados no mundo e todos os documentos oficiais disponíveis. Estamos diante da grande possibilidade de unir metodologias rigorosas (jornalismo e programação) para expandir as fronteiras do jornalismo.

 

Fonte: Centro Knight

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