As aventuras vividas por Francisco Figueroa fizeram dele um correspondente internacional de primeira linha e cheio de histórias para contar

ISABELA MORENO E LUIZ FERNANDO TEIXEIRA
DE MADRI

 

FRANCISCO FIGUEROA NA ASSOCIAÇÃO DE IMPRENSA DE MADRI CRÉDITO: ISABELA MORENO
Francisco Figueroa na Associação de Imprensa de Madri. Crétido: Isabela Moreno

OS MILITARES ESTÃO EM CASA
Um telefone celular toca, algo raro para o início dos anos 90. O então embaixador da Espanha, Nabor García, atende crente que a emergência é sobre a saúde de sua filha, mas escuta a voz de outra criança pedindo para falar com seu pai: o correspondente da Agência EFE, Francisco Figueroa.
É tarde da noite e ambos os homens se encontram no cinema com suas respectivas esposas. Figueroa sabe do que se trata: militares peruanos cercam sua casa em virtude do anúncio do golpe de estado dado pelo então presidente do Peru, Alberto Fujimori. Após passarem na embaixada para pegar um carro blindado, seguiram acompanhados de seguranças para a casa de Figueroa afim de resolver a situação.

Francisco Figueroa com o ditador peruano Alberto Fujimori. Crédito: Acervo Pessoal
Francisco Figueroa com o ditador peruano Alberto Fujimori.
Crédito: Acervo Pessoal

O jornalista e o diplomata já sabiam do golpe antes de seu anúncio, apesar de não comentarem um com o outro. No caso do primeiro, o motivo do silêncio era claro: “É preferível não dar uma matéria que trair sua fonte”, comentou. Para ele, o relacionamento de um jornalista com aqueles que dão suas informações privilegiadas deve ser mantido com todo o zêlo e respeito.

O correspondente destaca que “o mais importante é conhecer pessoas, se apresentar às prefeituras, ministério, à outros jornalistas” para assim começar uma rede de fontes em um país desconhecido. “Se quiser ficar perto de quem terá o poder, converse com os candidatos”, como fez com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante as eleições de 2002, o único a se dar ao trabalho de falar com Lula, e que acabou garantindo a primeira entrevista exclusiva com um meio internacional à Figueroa. Se tiver tempo para estudar sobre o lugar antes de ir, melhor ainda. Se não, compre os livros locais de história e geografia do Ensino Médio “para entender como o país enxerga a si próprio”.

NA ELITE DO JORNALISMO

Francisco “Paco” Figueroa nunca quis ser “só” um jornalista: desde pequeno, seu sonho era ser correspondente internacional. A chama que poderia ser um desejo infantil que todos temos, como ser astronauta, professor, médico ou presidente, no caso dele nunca se apagou. Depois de ler uma matéria sobre um caso passado em Agadir, no Marrocos, em que o jornalista teve que trabalhar em um rabecão, Paco decidiu que queria fazer isso de sua vida.
A decisão não foi bem aceita em sua família. Por pressão do pai, cursou dois anos de engenharia, mas desistiu por falta de vocação. Tanto é que, ainda enquanto estudava, começou a trabalhar como freelancer de pautas que ninguém mais queria cobrir, como jogos de futebol da terceira divisão do Campeonato Espanhol. No final da década de 70, conseguiu emprego na Agência EFE, seu primeiro e único local de trabalho dentro do jornalismo.

Figueroa e o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Crédito: Acervo Pessoal
Figueroa e o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
Crédito: Acervo Pessoal

Isso porque, o trabalho como correspondente internacional o teria colocado na “elite” do jornalismo, aos 26 anos e apenas quatro depois de ingressar na agência. Sua paixão de infância fez com que fosse parar em Lisboa, e depois Brasília, sem nem querer questionar sobre o salário. “Queria tanto viajar que só perguntei onde pegar a passagem”. Posteriormente, Figueroa foi transferido para Paraguai, Peru e Venezuela, tendo se especializado na cobertura de toda a América do Sul.
Por conta do seu trabalho na EFE, Paco teve que viver algumas situações tensas, mas as considera como resultados do seu ofício. Durante o relato de parte de sua trajetória, ele fala com a mesma serenidade da vez em que teve o cano de uma pistola colado em suas costas por um soldado de fronteira do que da vez em que teve que escrever sobre futebol por não ter pauta em Brasília. A verve jornalista e aventureira que o levou a trabalhar por 25 anos em condições nem sempre favoráveis sente falta desses dias “divertidos”.
Convidado a ocupar o cargo de diretor de Internacional da Agência, Figueroa voltou para Madrid em 2007 e se arrepende até hoje de ter deixado o “jornalismo de primeira linha para assumir o jornalismo de retaguarda”. Desconfortável com o cargo que assumiu, apesar do status e das vantagens financeiras, além da proximidade maior com a família após tanto tempo do outro lado do Atlântico, ele ainda tentou voltar atrás, mas sem sucesso.

Infeliz e com a possibilidade de ser correspondente apenas na República Dominicana, um país, para ele, sem atrativos internacionais e que ele considera ser um “exílio” para um jornalista, Paco se aposentou. Atualmente serve como analista de assuntos econômicos voltados para a América do Sul, mas ainda sente falta do jornalismo de rua. Ainda se sente apto para reportar informações para o mundo, como fez por mais da metade da vida, mas, ao menos, concordou em dividir seus conhecimentos com uma nova geração de jornalistas.

FIGUEROA BRASILEIRO

A chegada ao Brasil foi atribulada como só a vida de um correspondente internacional pode ser. Em uma sexta-feira, Paco foi convocado de Lisboa para Madrid. Na segunda, dia 12 de outubro de 1981, ele desembarcou no Rio de Janeiro com a missão de chefiar o escritório da EFE na cidade por um tempo, para depois montar uma unidade em Brasília, o olho do furacão político brasileiro.
A mudança de Figueroa foi provocada em virtude de um incidente que envolveu o jornalista que fazia o trabalho de freelancer para a Agência na capital do Brasil. Ao noticiar que o governo militar brasileiro estava em uma corrida com a Argentina por conta da tecnologia de enriquecimento de urânio, a EFE sofreu ameaça de ser fechada no país. A solução foi garantir que um profissional espanhol viesse assumir para fazer as notícias com mais “responsabilidade”.

Francisco Figueroa em Itaipú, junto com o correspondente internacional Vicente Botín. Crédito: Acervo Pessoal
Francisco Figueroa em Itaipú, junto com o correspondente internacional Vicente Botín.
Crédito: Acervo Pessoal

E é aí que Paco entrou. Em Brasília ele teve a responsabilidade de montar um escritório do nada para se comunicar com Madrid. Apesar do regime militar, não havia uma perseguição à imprensa, já que os generais não se importavam com o que era noticiado, com exceção do jornalismo da Rede Globo, já que eles se preocupavam com o alcance da televisão. Quanto aos jornais impressos, os cerca de 2 milhões de leitores não os perturbavam. E essa informação foi colhida por ele diretamente com Ibrahim Abi-Bickel, ministro da Justiça de Figueiredo.
Figueroa sente saudades dessa época em que era mais fácil a relação dos jornalistas com as fontes do governo, mesmo em uma ditadura militar, já que hoje em dia há uma blindagem das instituições para que o acesso às personalidades públicas aconteça sempre através da intervenção de suas assessorias. Ele também recorda que era muito fácil falar diretamente com os parlamentares oposicionistas, já que era só andar um pouco para sair do Itamaraty e chegar ao Congresso.

UMA VIDA DE EXCELÊNCIA

Os caminhos da profissão deram a Figueroa a oportunidade de aperfeiçoar o exercício do ofício. Falar da constante atualização é clichê quando se pensa em ser jornalista, mas inevitável. A conversa girou em torno do que é necessário para melhorar o desempenho de um profissional que busca a excelência.

No escritório colombiano da Agência EFE, em 1994. Crédito: Acervo Pessoal
No escritório colombiano da Agência EFE, em 1994.
Crédito: Acervo Pessoal

Sobre o cuidado com as fontes, além do respeito às decisões das mesmas mencionado anteriormente, ressaltou o cuidado que se deve tomar com informações divulgadas por fontes oficinais – como governos e ministérios -, inclusive em regimes democráticos. No caso de essa ser a única fonte disponível do momento, deve-se “sempre creditar à fonte oficial”.
O crescimento com erros não ficou de fora da conversa: “Uma das grandes coisas do jornalismo é que você deve assumir seus erros e retificar na mesma proporção que os cometeu”, comentou.
Para um correspondente, se possível, indica que viaje por vias terrestres pelo país em que estiver, permitindo que as nuances da cultura local sejam percebidas e que novas experiências enriqueçam e apurem o olhar de um contador de histórias, sempre com “humildade frente ao país que você está”.
Por fim, trabalhe. Figueroa dedicou muito de sua vida no trabalho e de seu tempo livre no aperfeiçoamento, o que só contribuiu para seu êxito e excelência.

Isabela Moreno é jornalista e participa do programa “Jornalismo Sem Fronteiras”, que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Madri para uma imersão de uma semana na cobertura como correspondentes internacionais.
Luiz Fernando Teixeira é jornalista e participa do programa “Jornalismo Sem Fronteiras”, que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Madri para uma imersão de uma semana na cobertura como correspondentes internacionais.

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