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Comunidade judaica se divide ao relembrar atentado em Buenos Aires

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Diego Moura

DE BUENOS AIRES, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

 

Em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino, um carro de som tocava uma música triste, mas combativa. Ao lado, 85 balões pretos pairavam sobre duas faixas com nomes escritos em azul. Esse foi um dos quatro atos que tomaram corpo na cidade de Buenos Aires, capital argentina, para relembrar os 20 anos do atentado que deixou uma grande cicatriz na comunidade judaica local e no povo argentino: a explosão da bomba no prédio onde funcionavam a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) e a Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), no dia 18 de julho de 1994.

Um senhor de cabelos brancos e olhos tristes ziguezagueava pelas pessoas que continuavam a chegar. Gerardo Berg, 66, perdeu o irmão, Norberto Ariel Dublin, subchefe do departamento de Sepultamentos da AMIA, na época com 31 anos e dois filhos. A explosão foi tão forte que a quarenta quadras de distância Berg escutou e sentiu o sacudir causado pela bomba.

 

O choque não se restringiu a por abaixo apenas os prédios e as pessoas que estavam d18072014-IMG_4946-300x206ntro. Famílias inteiras desabaram.  A mãe dos irmãos sofreu um derrame cerebral ficou em estado vegetativo. Morreu sete meses depois na cama de um hospital. “Nesses 20 anos que para nós seguem sendo uma dor irreproduzível o que mais ansiamos é que nossos mortos tenham, pelo menos, justiça”, diz com sua voz ligeiramente rouca. “A Justiça não atuou como deveria, não resolveu nada. Nossos mortos não descansam em paz.”

 

É a primeira vez que a Associação 18J, à qual pertence Gerardo Berg, realiza um ato de forma separada do oficial, na rua Pasteur, local onde a bomba explodiu. Buenos Aires recebeu no total quatro manifestações que pediam justiça para as vítimas: uma no bairro Once, tradicionalmente judeu e onde ocorreu a explosão, outra na Praça de Maio, mais uma em frente ao Palácio da Justiça e outra no Congresso. Berg credita as divergências às diferentes formas de pensar. “Eles [AMIA] politizaram muito o que foi a causa policial, introduzindo partido político, se estamos de um lado, se estamos de outro, nós [aqui] não fazemos isso. Nós queremos justiça”, frisa.

 

Enquanto Berg oferece uma revista editada especialmente para o evento – a qual contou com o apoio de juízes, advogados e até das Avós da Praça de Maio – um homem mais jovem se aproxima. “Brasileiro?”. Diante da confirmação, por trás de seus óculos escuros e cabelos pretos, começa a falar de sua dor. “Em 17 de julho de 1994, estávamos na casa dos meus pais, com minha cunhada e minha noiva, hoje esposa, e essa foi a última vez que vi minha cunhada. Foi muito difícil para nós, porque era realmente uma pessoa especial”, lembra. Buscaram-na por sete dias embaixo das toneladas de escombros até encontrarem. “Não é algo fácil de viver, é muito delicado. Hoje a pessoa está, amanhã não está mais.”

 

Seu tom é de quase conformidade, e culpa a política argentina pela falta de justiça. “É difícil que haja justiça. Por mais que prendam alguém, nada vai devolver minha cunhada. E o mesmo para todas as pessoas que estão aqui: nada vai devolver seus filhos, seu pais, quem quer seja.”

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18072014-IMG_495218072014-IMG_4952E a ausência de Cristina Kirchner é sentida por muitos. A última vez que a mandatária foi a um ato em memória do atentado foi em 2011. “Isso só aumenta a raiva, a impotência. É um grande desrespeito”, considera Heck. “Os argentinos creem que nós estamos nos acostumando, lamentavelmente, a uma sucessão de faltas na política em geral. A presidente é a número um [neste caso].”
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Uma senhora baixa e de cabelos ruivos, integrante da associação, chamou a atenção de todos para o ato que começava. Com a leitura dos nomes das 85 vítimas fatais do atentado em seguida ao um minuto de silêncio, quebrado apenas pelos sons urbanos de uma sexta-feira à tarde, prosseguia dizendo com força cada nome, sublinhando um por um, e a resposta uníssona da praça era “presente!”. Era uma cena que lembrava um grupo de oração em família. Um senhor de boina esfregava com força um lencinho xadrez por debaixo dos óculos de lentes grossas. Depois, as amarras dos 85 balões foram cortadas e todos voaram, juntos, pelo bonaerense céu azul.

 

Ato oficial

 

A caminhada por Buenos Aires terminou em um bloqueio policial e uma saraivada de perguntas: “Por que quer ir ao ato? É judeu? Não? Por que se interessou por esse tema?”. E muitas revistas. “Por favor, tire a bolsa da mochila. Com licença, coloque tudo o que é de metal aqui e passe pelo detector. Gracias.” Depois de muita insistência, o ato oficial se iniciava ali, na esquina das ruas Viamonte e Pasteur, se esparramando para as imediações tamanho público que o acompanhava.

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Perto de uma das grades, um senhor alto, moreno e de óculos com armação escura esperava os discursos começarem. Gerardo Sosa, de 67 anos, é voluntário da organização não-governamental Embaixada Mundial de Ativistas pela Paz e, apesar de não ser judeu, se sensibilizou com o atentado, porque ele atingiu não só à comunidade judaica, mas a todos os argentinos. “O embaixador nos ensina que temos que ser pacíficos com todos os seres humanos, especialmente com os judeus, que sofreram um holocausto muito terrível”, explica. “Isso me dói muito como argentino.”

E, assim como a Associação 18J, considera um tema muito politizado. Entretanto, não enxergou como um problema a ausência da presidente argentina ao evento. “Creio, inclusive, que o governo Kirchner foi o que mais fez coisas para tentar resolver o atentado”, explicou Sosa.

Precisamente às 9h53, sirenes começaram a tocar. Era o alarme que marcava o momento em que a camionete estacionada em frente à sede da AMIA explodia. Todos ergueram cartazes com a foto de um falecido e seu nome e, no verso, uma breve biografia. Centenas – talvez milhares – de mãos acima das cabeças expondo suas dores.

Após a leitura dos nomes das 85 vítimas e aos hipnóticos gritos de “presente!”, que ecoaram pelas ruas, Saieg Thomas, vice-presidente da AMIA, e Luis Czyzewski, pai de uma das vítimas do ataque, iniciaram seus discursos. Usaram o momento para criticar o governo argentino e o ministro das Relações Exteriores do país, Hector Timerman, devido ao memorando assinado com o Irã em janeiro do ano passado. O documento propõe criar uma comissão de cooperação que revise o processo em busca de elucidar as causas do atentado e permita às autoridades argentinas interrogarem os ex-funcionários iranianos que, em 2006, foram acusados formalmente de terem feito parte do atentado, inclusive com mandados de busca e captura expedidos pela Interpol. “Nossos mortos pedem justiça e não acordos”, disse Czyzewski, inflamado e sob uma chuva de aplausos.

O jornal La Nación fez um levantamento que mostra as investigações abertas no momento. Estão divididas em três “frentes”: acusação ao mecânico Carlos Telledín como responsável direto pelo ataque, e ao ex-presidente Carlos Menem e ao ex-juiz federal Juan José Galeano, entre outros, por ocultação de informações e eventual acobertamento de autores. Já o memorando de entendimento assinado entre o governo argentino e as autoridades persas está em discussão pela Segunda Divisão do Tribunal de Apelação Criminal, depois de ter sido denunciado como “inconstitucional” pela AMIA.

 

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No fim do evento, o Papa Francisco apareceu no ato. Surgiu sobre o palco de onde eram proferidos os discursos em um vídeo. Trouxe uma mensagem de paz e mais um pedido por justiça. Com a benção do sumo pontífice, a multidão começou a dispersar.

 

 

Próximo ao palco, um homem com um chapéu roxo com desenhos coloridos se destacava no meio dos jornalistas e cinegrafistas que registravam um senhor idoso enquanto colocava rosas vermelhas e acendia velas em frente ao memorial com os nomes das vítimas do atentado. O rabino Sergio Bergman é deputado pelo partido Proposta Republicana (PRO), de oposição à presidente Cristina Kirchner e feroz crítico das políticas de governo, especialmente no caso da bomba na AMIA. No momento da explosão, estava no hospital, devido ao nascimento de sua terceira filha. “Voltei para minha casa, onde deixei-a com a mãe e seus irmãos, e fui para AMIA. Quando cheguei lá, um desastre. Meu trabalho durante quatro dias foi acompanhar os familiares ao necrotério para reconhecimento dos corpos. Sigo tendo pesadelos com isso. Justiça nós não temos, mas memória não nos falta”, sentencia duramente.

 

–        Por que pensa que, ainda hoje, não há Justiça?

 

–        Porque estamos na Argentina.

 

Uma frase solta pairava no ar, caída de um dos discursos fortemente aplaudidos pelos presentes no ato: “o caso AMIA não será usado como arma eleitoral”.

 

 

Diego Moura é jornalista e participa do “Jornalismo Sem Fronteiras”, iniciativa da Link Consultoria que leva jornalistas e estudantes de comunicação a Buenos Aires para um mergulho de uma semana no trabalho de correspondentes.

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